Um “quarto poder” seletivo

Noticiar não é apenas repetir acriticamente uma série de factos, mas também enquadrá-los no espaço e no tempo. Não há informação sem contexto. Contextualizar não implica sequer emitir opinião, mas obriga a um sentido vigilante por parte de quem informa. Os media não são meras plataformas para amplificar mensagens por parte de políticos e causas, mas órgãos de informação. Significa isso que se exige aos media que tenham atenção à mensagem que veiculam, para não se tornarem apenas em instrumento de propaganda. Na última semana, foram várias as notícias que nos mostraram como temos, enquanto leitores, de ser cidadãos vigilantes. No panorama internacional, os media apresentam-nos como inovadora a ideia de Trump de construir um muro para separar os EUA do México, intenção amplamente divulgada durante a campanha e a semana passada concretizada numa ordem executiva. Inovadora? Não, já que na fronteira do Arizona, Califórnia, Novo México e Texas com o México (são 3094 km), uma parte significativa do muro já está construída. Aliás, basta ouvir o discurso do presidente Clinton ao Congresso norte-americano, em 1995, num debate sobre o estado da nação, apresentando a chamada “Operation Gatekeep”, avaliar aquilo que foi a política de combate à imigração por parte de Obama ou até ouvir a entrevista a Hillary Clinton, em 2014, conduzida por Christiane Amanpour, para se perceber que a grande diferença no discurso de Trump face aos seus antecessores ou antagonistas democratas reside na intenção – esdrúxula, sem dúvida – de colocar o México a financiar a sua construção. Trump tem dado sinais claros de que pretende fechar ainda mais os EUA aos imigrantes e o seu estilo favorece o sensacionalismo, mas combater o populismo é também dar informação correta, devidamente enquadrada, e não apenas cavalgar a exploração dos sentimentos do momento.

No panorama nacional, o escrutínio do chamado “quarto poder” sobre a atividade do poder político também tem dado mostras de uma seletividade notável. Desde logo, vários jornais divulgaram com grande entusiasmo as ideias do primeiro-ministro, António Costa, sobre a criação de um fundo monetário europeu, sem nenhum ter tido a capacidade e a memória de recordar que elas são exatamente iguais às que constam de uma proposta apresentada em 2015 por Pedro Passos Coelho. Por outro lado, a acusação do governo grego sobre a suposta discriminação do governo português em relação aos refugiados yazidi mereceu apenas curtas notas, bastando-se os media com a lacónica explicação apresentada pelo governo: ora, não seria expectável sabermos com que base o governo grego proferiu tamanha acusação, ou o simples facto de vivermos num cenário de governação socialista e legitimado por uma maioria de esquerda no parlamento permite que os media aceitem com candura as explicações sucintas que lhes são dadas? E que dizer do anúncio do Presidente da República, que num panorama em que, há mais de um ano, os juros da nossa dívida pública sobem consistentemente, com especial incidência nas maturidades mais longas – em dissonância com todos os países da zona euro, cujos spreads se mantêm estáveis –, afirmou que Portugal está a reestruturar a sua dívida? A forma macia e subserviente como alguns media encaram e trabalham certas notícias ajuda a explicar porque cada vez mais cidadãos perdem interesse por aquilo que é publicado, perigosamente optando por ir atrás dos factos e das notícias no seu estado bruto. O facto de o mainstream mediático ser particularmente sensível às causas da esquerda e aos agentes da proliferação do medo tem ainda um efeito perverso, o de engrossar a tal “maioria silenciosa” que muitos políticos à direita exploram, como base eleitoral, para políticas de regresso ao passado, de fechamento das sociedades: perante o medo e a incerteza, as classes médias tendencialmente preferem um mau conservadorismo do que vanguardas de rutura de esquerda.

Texto publicado no jornal i, na última terça-feira.

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