Como o Islão matou a laicidade do Estado

O meu artigo no Jornal Económico.

Como o Islão matou a laicidade do Estado

Nas presidenciais francesas é importante compreender as razões para o estado do partido socialista, cujas primárias tiveram agora lugar. É que depois de cinco anos no Eliseu os socialistas arriscam-se a não ter um candidato na segunda volta. Nem Valls lhes vale, e o único com hipóteses de fazer um brilharete, Macron, saiu do partido e diz-se de esquerda, sim, mas não socialista. Por favor, não o confundam.

Há quem diga que é o resultado do mandato de Hollande. Sem dúvida. Mas, mais que isso convém perceber que a má prestação de Hollande não advém das suas incapacidades políticas, mas da armadilha em que os socialistas caíram.

Lembra a Le Point que tudo começou no Outono de 1989. Nesse ano, mais precisamente a 18 de Setembro, Fatima e Leila, duas raparigas de 13 e 14 anos, são impedidas de continuarem na escola que frequentam. A decisão é do director do estabelecimento de ensino que argumenta que o véu que utilizam é incompatível com o bom funcionamento da escola. Foi um escândalo e o PS dividiu-se entre os que eram favor da proibição do véu, entre eles Valls, e os que foram contra, entre os quais, Hollande. E também, como agora, houve quem não tivesse tomado partido, como foi o caso de Mitterrand. Aquele grande político do tempo em que os políticos tomavam decisões.

Os que eram contra a exclusão das alunas alegaram que a laicidade do Estado não permitia proibir. “Il est exclu d’exclure”, nas palavras de Jospin. E como esta esquerda não tinha referências religiosas, era laica, achou que o problema se resolvia proibindo os cristãos de se dizerem cristãos, por serem muitos, e permitir os muçulmanos de serem muçulmanos, porque eram poucos.

Mas já não são. São muitos e em muitos lugares a maioria. E os socialistas continuam a não saber como lidar com o fenómeno. O falhanço do socialismo em França, ao contrário do que está a suceder noutros locais do mundo, veremos como vai ser em Portugal quando rebentar a bolha em que vivemos, prende-se tanto com a destruição do conceito de laicidade do Estado como com a crise económica. A França perdeu a sua identidade e o Estado Republicano e Laico, que era o seu garante, traiu-a.

Este era um problema que De Gaulle anteviu difícil de resolver: como é que um Estado laico não se imiscui na religião se, por exemplo, ao financiar escolas públicas laicas, dificulta o acesso às religiosas? E se em 2017, Valls, categoricamente laico perante todos, perdeu para Benoît Hamon, que defende que os muçulmanos sejam compensados do ostracismo a que pretensamente estão sujeitos, é porque assistimos ao culminar da desintegração de um conceito a que nos habituámos.

Não deixa de ser interessante que Fillon se defina como cristão, a Frente Nacional discuta se o inimigo é a União Europeia ou o Islão e Macron recuse a laicidade como religião. A Europa recristianiza-se e, de certa forma, o laicismo para combater o catolicismo foi derrotado pelo islamismo.

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29 thoughts on “Como o Islão matou a laicidade do Estado

  1. lucklucky

    Bom texto embora pouco pessimista.

    O socialismo está de boa saúde em França sem o Partido Socialista. Para começar com a própria Marine Le Pen.
    As coisas estão muito piores que o Socialismo da senhora Le Pen
    Liberdade está sobre ataque pelos Jornais, pelas Universidades e pela Burocracia estatal.

    Por exemplo o que fica do Charlie Hebdo é a auto censura de uma classe cada vez mais repelente, cada vez a viver mais no seu casulo como aliás nos EUA..

  2. Pois está a matar mas v.s, por causa do dogma da cartilha, também ajudam à festa.
    Pela simples razão que acreditam na possibilidade de “laicizar” o islão e não aceitam políticas de imigração que os segreguem.

    Querem o impossível- “liberalismo de porta aberta”- porque o dogma obriga; depois de tudo andar à porrada- guerra contra eles nos países deles, tendo-os metido cá dentro.

  3. Está hitorieta com o Trump veio precisamente demonstrar isto que disse acima.

    Anda todos atarantados porque o homem, por um lado, não é escardalho e até está a travar o que v.s consideram que espatifa o Ocidente. Mas, por outro, está a fazê-lo impedindo entrada, em vez de proceder a lavagens cerebrais mais liberais. E isso é que não pode ser.

    Devia deixar entrar todos, excepto aqueles cuja luzinha na testa assinala como “radicais” e “potenciais terroristas”.

  4. mariofig

    “Este era um problema que De Gaulle anteviu difícil de resolver: como é que um Estado laico não se imiscui na religião se, por exemplo, ao financiar escolas públicas laicas, dificulta o acesso às religiosas?”

    Defendendo que a ausência de ideologia de estado não é em si ideologia.

    A pergunta de De Gaulle cria uma dicotomia onde necessariamente não deve existir nenhuma. A laicidade do estado defere para a sociedade civil toda e qualquer responsabilidade de manutenção das suas instituições religiosas. Cabe portanto à sociedade civil criar escolas religiosas se esse é o seu desejo. As escolas públicas laicas são uma resposta do estado à necessidade de educação e não à necessidade de educação dirigida, a qual um estado laico e democrático estará absolutamente proibido de executar.

    Não é o estado laico que interfere nas instituições religiosas. São muitas vezes as instituições religiosas que interferem no estado laico. Através da sua cultura, das suas práticas, costumes e rituais, as instituições religiosas recusam participar nos princípios de um estado laico (que dizem defender) e de acordo com as suas regras, ao obrigar os seus crentes a práticas que forçam a religião em espaços onde ela deveria estar ausente. São exemplos o véu islâmico, como foi até ao século passado a cruz cristã. O processo de laicidade do estado não é um esforço efectuado num só sentido. Obriga também às instituições religiosas a reformulação das suas práticas e costumes, atendendo às regras de uma sociedade laica.

    A pergunta de De Gaulle é portanto uma falsa questão. Em um estado laico coabitando com instituições religiosas responsáveis e defensoras da laicidade do estado, o ensino público será sempre não ideológico e não será nunca contrário às práticas e costumes religiosos, se entretanto as instituições religiosas souberam se adaptar à laicidade do estado. Portanto o acesso fácil às escolas públicas de modo nenhum conseguirá dificultar o acesso aos ensinamentos religiosos.

    Aquelas instituições religiosas que não se adaptam aos princípios e regras soberanas de um estado laico, têm de ser entendidas como instituições que funcionam à margem da lei e as suas práticas e costumes como sendo ilegais. Daí a proibição de véu islâmico nas escolas fazer todo o sentido, e que segue o mesmíssimo principio por detrás da proibição da cruz nas escolas.

    De uma forma geral, as religiões cristã e ortodoxas europeias souberam se reformular internamente de forma a coabitarem de acordos com as regras e princípios de um estado laico. Outras religiões e certos cultos cristãos, teimam em não respeitar esses princípios. Mas a laicidade do estado não é apenas uma vaga noção. As suas regras e princípios são soberanos e, como tal, inscritos nas constituições dos vários países e formalizados como leis. Esses instituições que se recusam a efectuar o seu processo interno de adaptação, são portanto instituições que funcionam à margem da lei e as suas práticas e costumes são ilegais. É o caso de toda e qualquer variante do islamismo que force práticas tais como o véu.

    Defender portanto o uso de véu numa escola, de acordo como um qualquer principio de liberdade religiosa, é não entender que num estado laico a liberdade religiosa não se define pela forma como se expressa a crença. Essa tem de estar necessariamente limitada por lei. Liberdade religiosa define-se apenas na livre escolha de cada um na sua crença. É este entendimento que o Islão terá de ter, se quiser coabitar com os estados laicos do ocidente.

    Infelizmente, o Ocidente está ele próprio a derrubar essa laicidade do estado. Esse é outro tema.

  5. Mario:
    V. está enganado. As sociedades têm uma História e uma identidade. A laicidade existe para defender essa História e identidade, impedindo que ateísmos ou outras religiões a destruam.

    Se não houve a sobreposição da identidade Ocidental sobre as outras, a sua base cristã, então deixa de existir uma Civilização.

    Nunca, em momento algum do mundo, foi possivel as pessoas viverem sem essa norma e tradição que as une. É absolutamente inviável existir uma Civilização e sociedades em que cada um é que manda e impõe como quer.

  6. O liberalismo tem validade meramente como forma de evitar totalitarismos e socialismos económicos.

    Mais nada. Fora disso precisa de uma Traadição cultural e uma Política muito mais ampla.

    Como a não tem, a escardalhada passa-lhes à frente porque esses foram mais espertos e inventaram o marxismo-cultural.

  7. Renato

    Mario está errado.

    Porque esse estado laico que não se imiscui nas questões religiosas não existe atualmente nos países mais centrais do ocidente. Se eu estiver errado, aponte-me contra exemplos.
    O marxismo é uma religião, assim como o fabianismo. O multiculturalismo e a importação de multidões de muçulmanos, tem como objetivo terminar de destruir uma religião concorrente (o cristianismo) apagar a memória da história ocidental, substituindo-a por uma falsa, e criar uma massa de “oprimidos” violentos.As possibilidades de engenharia social que se abrem são enormes, e isso certamente não passou despercebido para as elites ocidentais.

  8. mariofig

    Zazie, concordo realmente que não deixo muito espaço para a tradição religiosa e histórica de um país no tipo de laicidade de estado que defendo. A verdade é que não sou tão inocente quanto isso e o meu ateísmo influencia a forma como olho a tradição cultural em Portugal. De certa forma sou tão culpado como um muçulmano que queira impor a sua tradição na nossa sociedade. E tenho de ter mais cuidado na forma como exponho estas ideias.

    Hei-de certamente ponderar muito mais sobre este assunto…

  9. Se está a fazer ironia, então v. é que não conhece nem a lei portuguesa nem a Concordata.

    O laicismo existe para proteger as religiões da sua actividade fora da tutela Estatal.
    A Concordata existe para proteger o Catolicismo na sua tradição Histórica em Portugal.

    Tinha de revogar isto tudo para a ironai que fez poder aplicar-se.

  10. Um ateu não acredita, Logo, não tem de ter querelas acerca do nada.

    Se ainda fosse um satanista que quisesse liberdade de culto ao demo, era outra coisa

    “:OP

  11. A laicidade foi inventada pelos jacobinos da Revolução Francesa.

    Só existe por onde a Revolução Francesa se infiltrou.

    Não existe nos países anglo-saxónics.

    Na Inglaterra a raínha é a chefe da Igreja. Nos países nórdicos acontece o mesmo. A Coroa ocupa o lugar do jacobinismo ateu da bandeira tricolor.

    Nós escapámos sempre assim, apesar do Marquês de Pombal, dos Liberais e dos Republicanos.

    Porque o povo nunca o permitiu.

  12. mariofig

    Não, não! Não estava a ironizar.
    A Zazie apenas me me chamou a atenção para um aspecto ao qual dei pouco valor, mas que realmente é necessário ter em atenção. Acredito que o estado tem a obrigação de proteger a tradição histórica de Portugal, o que necessariamente inclui a sua (forte) tradição religiosa. Apenas aconteceu que até à data, talvez porque sempre falei pouco sobre isto com alguém, não me estava a aperceber que estava a negar essa mesma obrigação.

  13. Desculpe. ´Foi muito bonito e inteligente aperceber-se disso.

    O problema até está na palavra “Estado”. Dantes usava-se Pátrica e Nação e por aí as coisas entendem-se melhor.

    Agora reduziu-se a Pátria e a Nação a um grupo de melros que tomam o poder e chama-se a isso “Estado”.

  14. mariofig

    “Um ateu não acredita, Logo, não tem de ter querelas acerca do nada.”

    Absolutamente! É uma das razões porque muitos ateus me irritam profundamente. Ler ou ouvir Richard Dawkins, por exemplo, obriga-me a um esforço quase sobre-humano. Não consigo entender porque é que muitos ateus acham que devem ter uma posição activista. É necessariamente uma contradição de princípios.

    Não quero com isto dizer que não tenho posições algo pejorativas sobre as religiões, suas práticas e as suas pessoas. Influenciaram inclusivamente o meu pensamento dois posts acima. São parte da incoerência inerente ao ateísmo activista que tanto desprezo. É por essa razão que guardo-as inteiramente para mim, são de facto mínimas e raramente as exponho aos outros. Mas obviamente ainda me faltam uns Dan para ser um bom ateísta.

  15. lucklucky

    “o ensino público será sempre não ideológico”

    O Ensino Publico é por definição parte de uma ideologia. Aquestão é o grau de intensidade e direcção dessa ideologia.

  16. Um ateu militante tem necessidade de combater as crenças religiosas por ter fé nesse combate.
    Nesses casos o ateísmo torna-se uma religião que necessita de treino para se fortalecer.
    Foi aliás isto, literalmente, que disse um daqueles ateus militantes dos cartoons da Dinamarca.

  17. Para um indu ou mesmo maometano, até é mais chocante não se ter nenhuma religião que ter-se uma diferente da sua.

    De certo modo, o proselitismo católico também partiu desse princípio- convertiam os que estavam em estado primitivo e os que tinham outras religiões e marginalizavam os cagotos.

    A questão teórica está em aberto, se partirmos do princípio que a capacidade de crença é universal no ser humano. Se não for levada para a religião pode ser canalizada para outras coisas.

    O marxismo sabia perfeitamente isto e daí proibirem a religião para terem idolatria idológica.

  18. Eu nada tenho contra os ateus, do mesmo modo que respeito todas as religiões.

    Isso é uma coisa- outra o espaço geográfico onde funcionam.

    Até entendo que o Japão se tenha fechado ao Ocidente precisamente pelo mesmo motivo- defender um sentido de tradição que não queria “amolecida” ou corrompida pelo cristinaismo.

    Ainda que a coisa estivesse mal colocada e por isso mesmo venceu por lá o cristinismo em sincretismo com o budismo.
    (mas isso é outra história e mais a propósito do Silêncio)

    A tradição que não é de respeitar é a destrutiva. E essa vem dos milenaristas nos quais o Marx se inspirou para teorizar a viragem de pernas para o ar de tudo.

    E é por isso que o islamismo, só por si, nem tem capacidade para destruir o Ocidente, porque eles são atrasados e dependem de quem faça por eles – daí ocuparem o Estado Social- mas os marxistas usam de todas as tácticas- incluindo a importação desta malta- para a política da terra queimada.

    Não são tão estúpidos quanto os neotontos que têm fé na possibilidade de acabar com o racismo “pintando os pretos de branco” (como diziam os anarcas, no gozo)

  19. Aliás, eu própria também não admito, nem tenho pachorra para crentinhos patrulhadores de consciência.

    A fé é privada e pessoal- mas as crenças são históricas e a sua expressão é pública. E deve ser respeitada.

    Eu respeito culturalmente e daí apenas me incomodar os que querem apagar para colocarem no lugar dessa boa tradição o utilitarismo e hedonismo vazio e besta

  20. E isto de “espaço geográfico” também não tem de ser lido à panca escardalha de “ou tudo ou nada”.

    Tem de ser lido pelo equilíbrio do bom-senso e afirmando sempre a supremacia histórica do seu espaço/sociedade/civilização.

    Sempre foi assim e assim continua a ser. O contrário chama-se domínio do mais forte por colonização.

  21. André Miguel

    “Nós escapámos sempre assim, apesar do Marquês de Pombal, dos Liberais e dos Republicanos.”

    Porque o povo nunca o permitiu.

    Porque o povo apesar de ignorante não é parvo.
    Acho que foi Jean Guitton que escreveu que a diferença fundamental entre o Cristianismo e o Islamismo é que Cristo diz “Escolhe” enquanto Maomé diz “Submete-te”. E esta é verdade: o Islão é coercivo. Como tal é um imperativo moral lutar contra toda e qualquer ideologia (seja ela religiosa ou politica) que limite as nossas liberdades. Ponto final.

  22. O islão é supremacista, coercivo, violento e mais que nunca uma força demolidora imparável. Por muito que os europeus aceitem integrar-se na lei da sharia, viver amedrontados e acomodados ao islamismo, abrir as portas das suas casas e das igrejas, desvalorizando a incompatibilidade da lei islâmica com os valores da modernidade, o certo é que a tendência demográfica faz pender a balança do futuro para o lado do islão. A invasão islâmica prevista há muito pelos islamistas está a consumar-se a olhos vistos.

  23. André Miguel

    JC, no pasaran!
    Por incrível que pareça onde ele terá mais resistência é mesmo na terra que querem conquistar: o Al Andaluz! E Porquê? Simplesmente porque a tradição cristã na Península ibérica é ainda fortíssima e construída por uma maioria silenciosa que não incomoda ninguém a menos que não a incomodem.

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