O diabo está nos planos e nos lapsos informáticos

O meu texto de hoje no Observador.

‘Isto tudo para dizer que não me choca que adolescentes de treze anos leiam Valter Hugo Mãe, com as suas frases polémicas que lemos nos últimos dias. Eu nunca li nada de Valter Hugo Mãe, não adquiri grande vontade, e, sobretudo, tenho demasiados livros que quero mesmo, mesmo ler e que permanecem fielmente à espera da minha atenção na mesa de cabeceira e nas estantes lá de casa. Mas o autor escreveu um post no Facebook bastante consequente sobre este escândalo. E se, como diz, no livro estas frases provocam sofrimento à criança, então são mesmo pedagógicas: mostram que palavras fortes de conteúdo sexual são muitas vezes usadas para magoar. E que isso merece julgamento moral. Por mim, nada contra.

Mas, claro, também não tenho nada contra os pais que objetam a uma ou outra palavra crua nas leituras dos seus filhos. É conveniente começarem já uma petição para banir Gil Vicente da poluição educativa que se oferece às crianças, bem como a referência, quando se fala de Bocage, das suas Poesias Eróticas, Burlescas e Satíricas –, mas cada um sabe aquilo que prefere que os seus filhos leiam.

Em todo o caso – não podia deixar de ser – tenho bastante contra uma geringonça do calibre de um ‘plano nacional de leitura’. Atenção: parece-me bem que se forneçam leituras de apoio aos conteúdos das várias disciplinas; e que para as aulas de português haja certas balizas entre as quais os professores possam escolher.

Mas por que diabo o Estado tem de recomendar leituras aos pobres cidadãos menores para os seus tempos livres? A que propósito uma escola manda os alunos lerem o livro tal e tal nas férias de Natal? Não era mais divertido, e respeitador da individualidade dos alunos, deixá-los escolher (pelo menos os que quisessem escolher)? E de seguida até verificar o que cada um havia escolhido e porquê? Havendo sugestão (repito: sugestão) de leituras, não poderiam ficar a cargo de cada professor ou de cada escola? Supomos que os educadores não sabem escolher livros para cada turma, sem necessitar de grandiosos planos? Não chega já de formatação, com os conteúdos programáticos iguais nos nossos oitenta e nove mil quilómetros quadrados, e dados da mesma forma? O Estado precisa de nós tão arrumadinhos a ponto de todos lermos os mesmos livros, independentemente de gosto e interesse? E que disparate é esse de serem os burocratas do Ministério da Educação a decidirem qual é a idade adequada para ler que livro (já descontando lapsos informáticos)?’

O texto completo está aqui.

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12 thoughts on “O diabo está nos planos e nos lapsos informáticos

  1. Eu nem li tudo e nem vou ler mais.

    Bastou-me ler o Gil Vicente a comparar com uma merda de uma descrição pornográfica que está tudo dito.

    V. chama literária a pornografia só por ser escrita?
    Se fosse em filme era arte cinematográfica, pelos vistos.
    Não entende a diferença entre uso de palavras fortes e ironia ou sátria com uma uma trampa que é um relato ordinário de uma desbunda sodomita que acaba em roncos?

  2. E o Bocage. Realmente este Hugo Mãe o que mais tem é de pai bocage.

    Por favor. Se há lei etária para se ir ao cinema a que título é que agora davam pornografia do mais rasca como literatura?

    Sim. Compete ao Estado, no mínimo dos mínimos, filtrar merdas dessas. Precisamente porque a escola é pública e para filhos de analfabetos, também- incluindo o tipo de analfas-novos-ricos que chamam literatura a qualquer coisa escrita com as mãos ou com os pés.

  3. E escolher escolhem eles. Ou acaso estão proibidos de ler qualquer treta fora da recomendada nesse tal “plano de caca”?

    Não estão. Portanto, se o raio do Estado faz de crítico literário, como o fazem outos nos jornais, a que título é que iam recomendar uma merda só porque o gajo é panasca e tem lobby lá dentro?

    Ou v. é tão ingénua que acredita na desculpa esfarrapada que foi culpa do algorítmo?

  4. A ideia da sujestão ficar a cargo de cada professor então ainda é mais besta.

    Uns alunos de escola de elite com profs que não são besta liam coisas decentes; os outros das berças, entregues àquelas analfas que nem escrever sabem, liam a trampa que lhes compete. Se não querem que emigrem para a cidade.

  5. A ideia deve mesmo ser um liberalismo de caca. Se não tem pai nem mãe com biblioteca, fica entregue à toina da aldeia e já vai com muita sorte que isto do ensino é à micro-escala.

  6. Há-de ser à conta destas ideias tão “liberais” e tão “progressistas” que esta malta até marinha pelas paredes acima quando se fala das boas das bibliotecas itinerantes do tempo do “fassismo”.

    Não está certo. É uma violação da cartilha rothbardiana e devia dar direito a secessão das crianças em prol da bimba da prof da aldeia.

  7. Luís Lavoura

    era mais divertido, e respeitador da individualidade dos alunos, deixá-los escolher (pelo menos os que quisessem escolher)

    Sem dúvida. Mas, e aqueles que não quisessem escolher?

    Repare a Maria João. Todos os alunos, e respetivos pais, mantêm na íntegra a sua liberdade de escolha. São livres de comprar os libros recomendados pelo PNL ou de não os comprar, de os ler no todo ou em parte ou nada. O PNL constitui apenas uma recomendação de livros que, supostamente, são apropriados, convenientes, adequados. Destina-se apenas a facilitar a escolha de quem, confessadamente, não saiba escolher.

  8. A relação do que se lê com a idade com que se lê é de ter em conta. Um miúdo de 13 ou 14 anos, graças ao nosso brilhante sistema de ensino, não sabe ler, escrever, ou interpretar um texto. Pode até ler o Opus Pistorum, mas percebe o contexto? E nem é preciso um exemplo tão radical, será que aos 13 anos percebe as referências cabalísticas de Pessoa? Compreende o contexto sócio-económico da pornografia?
    É que quando não percebem, o resultado tende a ser mau. O conhecimento adquirido é tão distorcido como o pior que se apanha na web. O facto de haver tantas adolescentes pintadas, produzidas, a fumar e beber como gente grande e a abrir as pernas porque é cool, não me parece um grande avanço educacional. Tiveram acesso a conteúdos sem ter noção do contexto.
    É uma questão política? É. Ninguém se lembra de, já agora, recomendar os trabalhos de Dirac ou Schrodinger sobre flutuações de campos quânticos a miúdos de 13 anos. E isso ninguém questiona.

  9. Na altura, quem foi convidado para fazer a lista dos livros foi o VPV que se recusou e escreveu artigo a deitar abaixo a palermice

  10. Maria João Marques

    Luís Lavoura, no caso do livro do VHM, não houve sugestão, mas mesmo imposição, com ficha de leitura para avaliação e tudo. Mas mesmo seja que seja só sugestão, para quê um plano?! Os professores e as escolas não conseguem fazer essa escolha? São assim tão incapazes?

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