Plano Nacional de Leitura

O meu pai e eu, desde o dia em que completei seis anos, e durante muitos anos, todas as semanas íamos juntos comprar um livro. O ritual iniciático deu-se na Libreria Platero, e por lá se prolongou durante uns anos, num passeio onde também me abastecia de gomas e outras chucherías para acompanhar o papel – hábito que ainda mantenho. Como um livro semanal raramente chegava, a partir dos dez, onze anos, o meu pai ajudava-me a escolher algum nas prateleiras de casa. Já na adolescência, um grande amigo do meu pai ganhou o hábito, ele próprio, de me oferecer livros – nunca deixando de me perguntar o que tinha achado, algo que me obrigava a lê-lo rapidamente, para não ser apanhado na curva.

O Plano Nacional de Leitura é uma “iniciativa” que visa fomentar a leitura em Portugal. Com dois defeitos – é um “Plano” e é “Nacional” – e uma virtude – diz respeito ao elemento mais importante da educação de uma criança e de um adolescente – criar hábitos de leitura. O meu pai nunca se preocupou com o meu rendimento escolar, com o meu comportamento, ou com as incidências normais do meu crescimento, lembro-me como se fosse hoje do dia em que me perguntou se eu andava no 8.º, no 9.º ou no 10.º ano: mas nunca se esqueceu de garantir que não me faltavam livros. Por isso lhe agradeço, porque estava completamente certo, em não se preocupar, e em depositar confiança nos livros.

Ora então, o livro da polémica do Valter Hugo Mãe não é propriamente de “leitura obrigatória” nem base para avaliação. Se um(a) pai/mãe considera que o livro não presta, como pai/mãe, a única coisa que lhe cabe fazer é não o recomendar aos seus filhos. Reforço, o livro não é ministrado em aulas, nem é matéria obrigatória. Talvez o maior problema não esteja no Plano Nacional de Leitura, mas em muitos pais, que confiam no Estado e nas suas recomendações, em vez de assumirem a responsabilidade de seleccionar as leituras dos seus filhos.

Agora, se por um infortúnio do destino um adolescente chocar com a polémica descrição tão desadequada como a que li por aí, retirada do livro do Valter Hugo Mãe, a única coisa que tenho a dizer aos pais é que são afortunados, por terem um filho no 8.º ano que gosta de ler. Não duvidem do discernimento de quem lê, mesmo de uma criança, tenham medo de quem nunca abriu um livro na vida – e, já agora, dos lapsos informáticos do Governo.

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13 thoughts on “Plano Nacional de Leitura

  1. Como podem os pais dessas crianças que, na generalidade, nunca leram um livro, avaliar o que os filhos andam a ler? Esses pais foram objecto de experiências pedagógicas “inovadoras”, não esquecer! O Ministério da Educação não andou a brincar!

  2. “Não duvidem do discernimento de quem lê, mesmo de uma criança…”

    Olhe que não, olhe que não… Sabemos ler mas não interpretar, por isso, lá se vai o discernimento!

    E isso acontece graças às tais “experiências pedagógicas inovadoras” que vão desde o pré-escolar até ao secundário ou faculdade e nos tornam em analfabetos funcionais.

    Ou julgam que isto acontece por acaso; isto é tudo muito bem planeado, graças ao Marxismo Cultural. Olha aqui, mais uma acha para a fogueira da civilização:

    http://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=ideologiadogenero

  3. Ana Catarina

    O texto do senhor Adão, querendo ser um defensor da leitura, virou uma salada ainda pior que a russa.
    O livro que usa a linguagem mais baixa e rorpe pode ser escrito por uma mentalidade deturpada mas não pode nrm deve ser aconselhado por um Plano Nacional de Leitura
    Mal comparado ´é como se uma entidade do Estado fosse aconselhar o consumo de droga, de tabaco, de aguardente aos jovens da nossa terra.
    Isto nem marxismo é… é uma pulhice e que começa a ser defendida por falsos intelectuais, intelectuais de pacotilha, como o senhor adão

  4. Ana Catarina,
    Não está em causa se o livro lhe agrada ou não, ou se linguagem utilizada é baixa ou torpe ou não.
    Não sendo o livro obrigatório, e sendo o Valter Hugo Mãe um escritor que tem aceitação junto de inúmeros leitores, tendo ganho vários prémios, poderá fazer sentido que esteja no Plano Nacional de leitura. Cabe depois aos pais e aos adultos decidir que livros compram para as suas crianças. Nos regimes totalitários é que há listas de livros autorizados e outros que são irradiados, por serem escritos por, e cito as suas palavras, “uma mentalidade deturpada”.
    Chamar-me “pulha”, “falso intelectual”, “intelectual de pacotilha”, entre outros impropérios, diz mais sobre si do que o suposto livro em questão, que pode ou não ser escolhido pelos pais. Ao optar por atacar-me a mim, em vez de apresentar argumentos que refutem aquilo que escrevo, é próprio de quem não sabe debater, mostrando pobreza de espírito.
    Lamentável.

  5. Caro Fernand Personne,
    O Plano Nacional de Leitura só recomenda livros, de vária índole. Cabe aos pais escolher as leituras dos filhos. Concordaria com a crítica, se o texto fizesse parte das leituras obrigatórias do 8.º ano, ou de outro nível qualquer da escolaridade. Mas não é o caso. Que os pais se demitam da sua responsabilidade, e todos estejamos obcecados com aquilo que o Estado nos dá, diz muito sobre a falta de respeito que temos para com a liberdade.

  6. Maria Rebeca,
    O problema das generalizações é que são isso mesmo: generalizações. O grosso dos pais que lideram o protesto e que se “chocaram” com a passagem do livro do Valter Hugo Mãe são pessoas com instrução, e que têm obrigação de assumir a responsabilidade pelas leituras dos filhos. O Liceu Alexandre Herculano cobre uma área de Lisboa onde o nível de instrução é elevado, pelo que não é por aí que o problema se coloca. Aliás, a inclusão errada do livro na lista do 8.º ano não terá ocorrido a nível nacional, mas apenas na lista deste Liceu em concreto.
    O problema é que os portugueses não gostam da liberdade. Dá trabalho ter liberdade, ter de escolher, de assumir o fardo da responsabilidade. É sempre mais fácil esperar que seja o Estado a resolver tudo, a tomar as decisões por nós: e depois, nada como a cada erro, nos lamentar-mos e rasgarmos as vestes, acusando o Estado de ser aquilo que naturalmente é: cego, ineficaz, insensível a muitos dos valores das classes médias. Estão à espera de quê?

  7. IS

    “O Nosso Reino” de Valter Hugo Mãe é um bom livro para leitura no Secundário como acabou por vir a ser decidido pelo comissário do PNL que já admitiu ter havido um lapso. Concordo genericamente com o post de Rodrigo Adão da Fonseca!

  8. Luís Lavoura

    O Plano Nacional de Leitura recomenda livros precisamente para que não tenham que ser os pais a ser eles a selecionar as leituras dos filhos. Aquilo que cabe saber é se a recomendação daquele livro em particular é adequada ou não. Note-se que, lá por Valter Hugo Mãe ser (ao que dizem) um bom escritor, isso não quer dizer que todos os seus livros sejam igualmente bons, nem igualmente recomendáveis, nem igualmente legíveis por miúdos de uma determinada idade.

    Os pais não têm tempo para andar a ler de uma ponta à outra todos os livros antes de os dar a ler aos filhos. Podem quando muito folheá-los, ver o assunto. O que acontece é que, ao que parece, o livro em questão tem lá pelo meio umas cenas hard core, que facilmente escaparão desapercebidas ao pai que o compre para o filho, mas que não deveriam escapar desapercebidas a quem o recomendou.

  9. Rodrigo Adão Fonseca,
    o Luís Lavoura já respondeu por mim. Obrigado, Luís.

    “Que os pais se demitam da sua responsabilidade” – será que se demitem ou não têm tempo para os filhos?
    Se é da responsabilidade dos Pais educar os filhos e a Escola deve apenas ensinar, por que é que o Estado se intromete sistematicamente, como agora quer fazer com a educação sexual e a ideologia de género?

    Não sei a sua idade mas, pela fotografia, não me parece muito velho. Eu acho que no tempo da nossa infância não havia tantos perigos nem tantas ameaças à liberdade, individualidade e independência das pessoas, por isso a atitude descontraída do senhor seu pai. Mas hoje as ameaças vêm do politicamente correcto e do marxismo cultural que quer pôr todas as pessoas iguais, a pensar igual, a falar igual, sem diferenças nem oposição. Esta ameaça não pode nem deve ser menosprezada ou ignorada.

    Isto não acontece da noite para o dia, é um plano de décadas, contínuo, sistemático e insidioso, que se vai instalando até que se considere normal. Por isso, é que o livro em questão não é obrigatório mas é “aconselhado”; é facultativo mas está lá na lista.
    Há uns anos apagaram o Gil Vicente por causa de 3-4 asneirolas que lá apareciam em tom cómico e jocoso; agora, “alguém” decidiu incluir este “escritor” porque “alguém” o acha muito bom e até vende bem (o ex-pm sócrates também vendeu bem os livros que não escreveu). Para quê? Para satisfazer lobbies? O que é que a criança/jovem ganha em ler aquilo? Por que é esse livro é recomendado? Qual é a sua importância e qualidade literária? Quais são os critérios para a inclusão dos livros no PNL?

    “O Nosso Reino” de Valter Hugo Mãe é um bom livro para leitura no Secundário como acabou por vir a ser decidido pelo comissário do PNL – óptimo, o comissário decidiu, está decidido. Ainda bem que alguém pensou e decidiu por mim. Na URSS também havia comissários, não havia? 😉

    “a falta de respeito que temos para com a liberdade” – eu acho que quem não respeita a liberdade é o Estado/Governo. Quantos referendos se fizeram neste país? Fazem as leis que entendem, entre si, e o povinho só interessa para pagar impostos e dar o voto certo. Quando as pessoas são tratadas assim, não se admire que as pessoas fiquem indiferentes e não queiram saber da liberdade. Quando têm dívidas para pagar e têm de esticar o dinheiro, não sobra muito tempo para pensar do PNL, nos livros que os filhos lêem, se os filhos lêem, se estudam, se fazem os TPC, etc. E é assim que o Esquerdume quer que seja e aconteça.

  10. sam

    “Se um(a) pai/mãe considera que o livro não presta, como pai/mãe, a única coisa que lhe cabe fazer é não o recomendar aos seus filhos”.

    A ÚNICA COISA.

    Ai do pai/mãe que se atrever a questionar uma recomendação concreta, ou indagar sobre os critérios que lhe presidiram.
    Ai do pai/mãe que der azo à sinalização de um erro e obrigar à sua rectificação.
    Ai do pai/mãe que ousar fazer uso da sua condição de contribuinte para opinar sobre um serviço estatal pago com o dinheiro dos papalvos de sempre.

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