A verdade do padeiro

Não me dão condições para explorar, a crónica de José Diogo Quintela no CM.

Quando aceitei fazer a empresa, o objectivo era claro: tornar-me num grande patrão explorador.

Como um dos donos da Padaria Portuguesa (PP), fiquei chocado com as declarações do meu primo e sócio Nuno Carvalho à SIC, sobre o aumento do Salário Mínimo Nacional (SMN) e legislação laboral. Disse o Nuno que, com o aumento, 25% dos trabalhadores da PP, que até agora ganhavam acima do SMN, passam a recebê-lo. É um escândalo! Quer isso dizer que os trabalhadores da PP são pagos? Em dinheiro, ainda por cima? Mais indignado fico com a preocupação do Nuno com a flexibilização da lei laboral. Então a PP respeita legislação? Mau!

Não foi com esses pressupostos que entrei no negócio. Quando aceitei fazer a empresa, o objectivo era claro: tornar- -me um grande patrão explorador (passe a redundância). Basicamente, ambicionava parasitar empregados. Qualquer que fosse o negócio. Calhou a panificação por ser uma área em que não existia concorrência (quem já tinha ouvido falar em ‘padarias’?), mas que, por outro lado, já tinha um mercado estabelecido. Toda a gente se lembra das filas de potenciais consumidores à porta de lojas devolutas espalhadas por Lisboa, a acenar com notas e a dizerem: ‘Queremos pão de Deus! Como é que ninguém nos vende pão de Deus quando nós, potenciais consumidores, demonstramos enorme desejo de pão de Deus e até nos organizámos à volta de 50 localizações ideais para situar lojas que vendam pão de Deus?’

Pessoalmente, preferia um negócio que envolvesse burlar idosos, mas a padaria era a via mais rápida para me tornar num porco capitalista. Só precisámos de: 1) expropriar uma fábrica que produzia próteses gratuitas para vítimas de minas em África, para passar a fazer pão; 2) obrigar órfãos sírios a construírem lojas a troco de não lhes batermos muito; 3) adquirir vários contentores de escravos prontos a oprimir. Depois, o plano era esmifrar trabalhadores, vampirizar fornecedores, ludibriar consumidores e gastar o esbulho na compra de marfim e diamantes de sangue, como boas sanguessugas plutocratas. Descubro agora que fui enganado e não ando a espoliar empregados como era suposto. Pelos vistos, a PP cumpre leis e obrigações. Assim não é giro. Se era para isso, não me convidavam. O meu primo traiu-me. Aliás, já não vale a pena disfarçar. O leitor decerto percebeu que não somos primos. Os humanos é que têm primos. A única relação familiar que temos é que os nossos ovos foram incubados na mesma cova. Quando saímos da casca, a primeira língua bífida que lhe silvou foi a minha.

Os répteis são animais de sangue frio, de modo que não ficaremos zangados muito tempo. Em breve faremos as pazes, enquanto brindamos com o sangue de um pasteleiro (reserva de 2012, um óptimo ano) e combinamos o próximo negócio. De preferência, que envolva tortura de gatinhos ou extorsão de invisuais sem abrigo. Quando fazemos o que gostamos, o dinheiro é secundário. (…)

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4 thoughts on “A verdade do padeiro

  1. Manuel Assis Teixeira

    Esta questão da Padaria Portuguesa é bem o exemplo de como a esquerdofilia vê as empresas e o emprego! Liderados pelo Sr Padre Daniel Oliveira ( bem amesendado pela congrua da SIC ) eles querem é nivelar por baixo. Ficam todos contentes com o salario minimo! E ai de quem quiser fugir ao corporativismo! Pobres!
    .

  2. E se todos os pequenos e médios empresários aparecessem a dizer Je suis Padaria? Sim porque a avaliar pelas boas pessoas de esquerda, os empresários são todos como JDQ “assume” ser: vilões.

  3. Manuel Assis Teixeira

    Esqueci-me de um detalhe: o Sr Padre Daniel Oliveira amesenda tambem congrua da SIC! Que ricas paróquias! Apenas lendo o evangelho dele! Claro que nao gosta do patrao da padaria portuguesa! Ele só gosta de congrua alta!

  4. IS

    Como seria expectável José Diogo Quintela escolheu a ironia para reagir à polémica provocada pelas declarações do familiar e sócio. O texto que li publicado na Sábado é bom mas discordo da utilização que o autor fez de uma crónica de opinião num jornal que supostamente lhe paga para defender os seus interesses pessoais.
    Triste é isto ser um tema de discussão para redes sociais maioritariamente com pessoas pouco informadas e comentários ao nível porque, na minha opinião, o que é relevante e factual é que ambos são investidores que criam emprego.

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