Os truques da política portuguesa

centeno-truques A notícia, com estas ou outras palavras, está em todos os jornais e televisões: Mário Centeno, Ministro das Finanças e embaraço ambulante, esteve ontem na reunião do “Eurogrupo” e deixou um “recado” aos seus congéneres do Tesouro dos vários países da “zona euro”: Portugal e, acima de tudo, a sua excelsa pessoa, mostraram-lhes que estavam “muito enganados”. Aparentemente, na cabeça do senhor Ministro, o país está a ter resultados brilhantes na execução do Orçamento de Estado, com um défice baixíssimo, e tudo sem afectar o crescimento económico do país. O facto de grande parte desse “controlo” do défice ter sido conseguido através da suspensão de pagamentos a que o próprio Estado se obrigara, contraindo assim uma dívida que só pelas artes mágicas da contabilidade não é considerada como tal, ou de que esse crescimento continua a ser menor que o do endividamento, cujos juros a longo prazo continuam também eles aumentar, não ocorre a Centeno, ou, se lhe ocorre, não o incomoda. Afinal, nenhuma destas críticas passa de um conjunto de “mitos” propositadamente lançados por gente maldosa com o terrível propósito de causar danos ao país e, claro, ao Governo a que pertence (que é o que mais o preocupa).

Como qualquer pessoa minimamente inteligente – ou que não tenha optado por voluntariamente se deixar obnubilar pela sua paixão pelo que um senhor entretanto desaparecido chamou de “o tempo novo” – facilmente perceberá, todo e qualquer “recado” que Centeno tenha dado teve como destinatário imediato a imprensa portuguesa e como alvo fundamental o público português. O “recado” de Centeno não é na realidade o de que os seus parceiros do Eurogrupo haviam estado excessivamente pessimistas em relação a – ou deliberadamente a conspirar contra – Portugal, mas o de que ele, Centeno, e por interposta pessoa o Governo, “batem o pé” aos malévolos “senhores” da “Europa”, ao contrário dos ainda mais pérfidos responsáveis do anterior executivo, que tudo faziam para que “a senhora Merkel” nos castigasse ainda mais severamente do que a sua “moral protestante” a inspirava inicialmente.

O truque, claro, é velho: sair das reuniões e cimeiras da UE a alardear o esforço na “defesa” do “interesse nacional”, logo equiparado através do tom ao desembarque na Normandia, a fazer lembrar o comum português que em casa ou no café não consegue deixar de inventar um qualquer “e aí eu disse-lhe” e um “e o gajo calou-se logo” ao contar o episódio em que o patrão o destratou. A intenção, essa, é óbvia: criar na cabeça das pessoas uma realidade em que tudo está bem e qualquer notícia negativa não passa de uma invenção de interesses obscuros de potências estrangeiras com obedientes serviçais internos, contra os quais o Governo, por espírito de sacrifício e amor ao país, não se cansa de batalhar “lá fora”.

O resultado também é sempre o mesmo: durante uns tempos, a propaganda vai funcionando, talvez não tanto no propósito de fazer com que as pessoas acreditem nela, mas certamente no (principal) de as fazer não ter energia nem paciência para a contestar. Mas, com o passar do tempo e o consequente agravamento dos reais problemas do país, a ilusão propagandística dissipa-se, e os seus autores são forçados a abandonar o poder. Não antes, no entanto, de terem alimentado devidamente as suas clientelas e dependentes, assegurando assim a sobrevivência destes últimos e a sua lealdade para quando, passado algum tempo e a raiva popular contra os seus desmandos tiver sido aligeirada, precisarem de quem os alce novamente a São Bento, onde rapidamente voltarão a fazer das suas, com os mesmos resultados. Como de todos os lados do hemiciclo parlamentar, o apreço pela prática não varia – apenas a respectiva competência para a manipulação difere de bancada para bancada – os portugueses que não pertençam aos beneficiados do balancé partidário não podem senão ficar a assistir, com a garantia de que, aconteça o que acontecer, ficarão sempre pior do que estariam se vivessem num pais minimamente decente.

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29 thoughts on “Os truques da política portuguesa

  1. Ricciardi

    Só para alertar que os pagamentos em atraso diminuíram. Não sei se é embaraço esta boa notícia.
    .
    Embaraço mesmo seria ir a Bruxelas e não apresentar objectivos cumpridos. Como em 2013, 2014 e 2015, anos responsáveis por um levantamento de procedimento por défice excessivo.
    .
    Pela primeira vez desde há muitas décadas (principalmente desde 2011) o governo apresenta um défice em linha com aquele com que se comprometeu.
    .
    Não teve o mesmo êxito com a dívida pública. Mas não podemos levar a mal. Surpresas como o banif não estavam nos planos. E é mesmo provável que mais massaroca seja alocada à salvação doutros bancos que colapsaram durante o período coelhino. É claro que colapsaram as contas dos bancos devido ao intenso Malparado gerado por uma recessão inusitada (e intensamente provocada, eu diria mesmo : deliberada), bem como dos recordes de falências e desemprego que coelho conseguiu construir.
    .
    Avante camarada coelho, avante.
    .
    Rb

  2. Pedro Aroso

    Excelente artigo que vem desmascarar, mais uma vez, o flop que é o Tony Costa e o seu governo.

  3. André Miguel

    O atraso nos pagamentos não tem reflexo em contabilidade nacional que é a que importa para Bruxelas, já o investimento tem pois a sua aplicação pressupõe o assumir de encargos e compromissos financeiros. Ora daqui se pressupõe que o cenário é mais grave do que pensamos, cativar pagamentos significa que a tesouraria está nas lonas, cativar investimento significa que caso contrário o défice iria aumentar no curto prazo (excepto com cortes na despesa que são uma miragem). Porreiro pá!
    E a malta ainda se pergunta porque as taxas de juro estão acima dos 4% a longo prazo, mas negativas no curto. Não é obvio? Siga a festa. O ultimo que apague a luz e feche a porta.

  4. ** RICCIARDI : “Embaraço mesmo seria ir a Bruxelas e não apresentar objectivos cumpridos. Como em 2013, 2014 e 2015, anos responsáveis por um levantamento de procedimento por défice excessivo. Pela primeira vez desde há muitas décadas (principalmente desde 2011) o governo apresenta um défice em linha com aquele com que se comprometeu.” **

    O RICCIARDI está a escamotear algo de essencial : foi o PS, o mesmo que agora nos governa, que há apenas meia-dúzia de anos levou o pais à bancarrota e à recessão fazendo com que o pais estivesse sujeito a um ajustamento muito duro. Ou seja, nestas condições, muito fez o governo anterior ao ir ao encontro das metas que foram sendo definidas e ajustadas com a Troika, incluindo as instituições de Bruxelas. É espantoso que os criticos de então, hoje na “geringonça”, venham agora falar de “objectivos [não] cumpridos” quando se sabe que na altura acusavam o governo de “ir mais longe do que a Troika” e de não “bater o pé” à Europa recusando as metas que eram então exigidas.

  5. André Miguel

    Manoloheredia, você é burro ou parvo, já lhe expliquei porque as taxas de juro estão acima dos 4% a 10 anos, quer um desenho???

  6. ili

    Eu estou a ficar cansado.

    Ricciardi, tem razão, meta a viola ao saco e desapareça.

    Estou farto de acéfalos e boys pagos para envenenar os foruns.

    Você aqui tem sorte, ninguém o censura, há liberdade.

  7. Ricciardi

    Fernando, o facto do governo anterior ao anterior ter feito borrada nada obsta a que o actual tenha cumprido os objectivos.
    .
    Querelas partidárias deixo-as consigo.
    .
    Rb

  8. Ricciardi,

    1. Parece que o governo actual vai cumprir o objectivo do déficit orçamental. Ainda bem ! Afinal, ao contrario do que foi muitas vezes dito por aqueles que apoiam o governo actual, baixar o déficit orçamental não é uma obcessão absurda mas sim um objectivo importante. Mais vale tarde do que nunca !…

    2. Não nos esqueçamos que o objectivo que o governo vai cumprir é menos exigente do que aquele que os analistas e os nossos parceiros consideravam importante que Portugal alcançasse para que a consolidação das nossas contas fosse suficiente para sairmos claramente da zona de insegurança e risco financeiro elevado. Não nos esqueçamos que a própria UE apontava inicialmente para metas mais exigentes e que foi o governo português que as foi renegociando para cima. Não nos esqueçamos que o governo anterior já tinha metas para o déficit nos anos seguintes que eram mais ambiciosas do que aquelas com que o governo actual se comprometeu.

    3. Embora cumprindo o objectivo do déficit orçamental para 2016, o governo actual falha quase todos os outros objectivos : o fim da austeridade, o aumento do investimento publico, a melhoria dos serviços publicos, mais investimento privado e externo, um crescimento economico mais forte, uma divida publica mais baixa, taxas de juro baixas, etc, etc.

    4. O governo actual, com a sua politica global, tem sacrificado as reformas estruturais na economia, a reforma do Estado, o crescimento do investimento.
    Acresce que algumas das medidas visando exclusivamente a redução do déficit, como seja o aumento de certos impostos e a não diminuição de outros (IRC), têm sido e são prejudiciais a uma recuperação económica mais robusta.

  9. 5. O governo anterior cumpriu sempre os objectivos para o déficit que foram sendo definidos e ajustados com base nas recomendações e com a aprovação da Troika. Certo, os objectivos iniciais nem sempre foram mantidos. Mas tal aconteceu porque se revelaram demasiado exigentes tendo em contas a situação extremamente critica em que a economia e as finanças do pais se encontravam em 2011. A verdade é que tanto os nossos parceiros como os mercados e observadores sempre reconheceram (ainda hoje o dizem) que Portugal fez então um grande esforço no sentido de se conseguirem alcançar certos resultados e, no final, de concluir o programa de resgate com sucesso. Nestas condições, a circunstância de certas metas iniciais não serem alcançadas e terem de serem ajustadas ao longo do percurso era perfeitamente compreensivel e não era vista como um insucesso ou um problema.

    6. Por um lado, o governo actual herdou do governo anterior uma economia em melhor estado (a taxa de crescimento era superior à actual, o desemprego estava a baixar rápidamente, o investimento privado estava a crescer fortemente, etc) e umas finanças publicas relativamente consolidadas (o déficit orçamental de referência foi reduzido de 11% para 3%, a divida publica começara a descer em % do Pib, as taxas de juro da divida publica estavam a niveis históricamente baixos, etc). Por outro lado, o governo actual tem beneficiado de um contexto externo mais favorável. Não nos esqueçamos que com o governo anterior a economia portuguesa estava a crescer acima da media europeia enquanto que com o governo actual é o contrario. Não nos esqueçamos que, na frente da divida e das taxas de juro, o governo actual tem beneficiado de uma politica monetária do BCE ainda mais favorável do que no tempo do governo anterior (mesmo assim, enquanto que antes as taxas de juro baixavam com o governo actual têm vindo a subir).

  10. 7. Não é excessivo dizer-se que quem principalmente contribuiu para que o pais possa hoje ter um déficit que não é excessivo foi o governo anterior que, mesmo com recessão e taxas de juro elevadas, fez o mais dificil e o grosso do trabalho já que consegiu baixar o déficit de 11% para 3% e não o governo actual que, mesmo com condições internas claramente mais favoráveis herdadas do governo anterior e num contexto externo mais positivo, apenas reduziu o déficit em mais algumas décimas, para tal usando e abusando de receitas extraordinárias não estruturais, aumentos de impostos, cortes no investimento publico e cativações administrativas na despesa pública corrente.

  11. Ricciardi,

    Quanto a “querelas partidárias” …

    Sem ser um defensor incondicional de tudo o que o governo anterior fez ou não fez, eu assumo sem reservas que considero que a politica do governo anterior era de longe preferivel à do governo actual.

    Também me parece que é claro para todos que o Ricciardi pensa e diz exactamente o contrario.

    (cont)

  12. (cont)

    De resto, é curioso ou talvez nem tanto, que os argumentos que o Ricciardi avançou no seu comentário acima coincidem quase literalmente com aquilo que terá sido dito pelo Ministro das Finanças português nestes dias em Bruxelas.

    Portanto, não me venha com essa conversa da treta de que eu faço o discurso dos partidos da direita em defesa do governo Passos Coelho e contra o governo da “geringonça” ao passo que o Ricciardi está acima dessas “querelas partidárias” e se limita a fazer uma análise objectiva e imparcial da realidade !!!

  13. mariofig

    Fernando S, porra! Assim não! Já está a fazer lembrar o aparelho de comunicação do PSD e, em contraste, quão mais eficaz é o do PS. E é por causa disso que temos a trapalhada que temos. Mais valia ter estado calado.

    A conquista do défice não é de modo algum uma conquista do governo, pela simples razão de:

    O combate ao défice é aqui e em qualquer outro país da Europa um projecto a prazo, nos termos das próprias regras ditadas pela UE e pela troika. O governo anterior teve de reduzir o défice dos 9,8% em que se encontrava para 4,4% com que foi a eleições nos finais de 2015. Desceu portanto o défice em 5,4 pontos percentuais. Já este governo do PS a única coisa que fez, foi apanhar boleia do esforço orçamental anterior e garantir um único ponto percentual necessário para atingir a meta.

    Ou seja o PS seguiu no lado do passageiro durante todo o caminho de Lisboa a Porto. Chegado a St. Ovidio, assumiu finalmente o volante. E agora está a dizer que foi ele que fez toda a viagem.

    Foi o PS que nos colocou na crise e o PSD que nos tirou dela. Simples. Foi aliás a razão porque o PSD ganhou as últimas eleições de 2015, apesar de toda a contestação orquestrada pela PS e outros partidos da esquerda para minarem os resultados económicos e financeiros da governação de Pedro Passos Coelho. E é a razão porque o PSD, tem a maior representação de deputados na Assembleia da República.

  14. MARIOFIG,
    A não ser que me tenha escapado alguma ironia no primeiro parágrafo do seu comentário, fico com a ideia de que o Mário não percebeu bem o que eu disse…
    Na verdade, eu disse ‘grosso modo’ o mesmo que o Mário (ver em particular o meu ponto 7.)

  15. Os socialistas são os GRANDES MENTIROSOS, já Teixeira dos Santos disse que o défice seria inferior a 6% e foi mais de 10%. Não acreditem numa palavra de Centeno. Contas só depois de a Comissão Europeia as fazer. Nessa altura, Centeno já cá não estará, claro, vai-se demitir antes para sair em grande.

  16. IS

    As 3 pessoas da fotografia com uma atitude deliberada, ostensiva e mais ou menos premeditada difundem ignorância.

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