elogio do medo

Não tenho nenhuma discordância de fundo a assinalar com o que o Rodrigo Adão da Fonseca aqui escreve, deambulo mais só sobre dois pontos.

1. Arrumando já a questão do medo. Estou muito pouco otimista, reconheço. Não cabe aqui neste post elencar ou sequer resumir razões, mas vejo uma série de indícios que me levam a temer que nos encaminhemos para tempos mais obscurantistas. Vejo isso em várias zonas do mundo, em uns tantos regimes, nas mudanças de posicionamento político e de valores das populações. Trump não começou nada, é só mais um sintoma. Infelizmente é um sintoma que poderá ter poderes performativos e agravar a doença. Não vejo bem como Trump poderá ser contido (os fellow republicanos não aparentam estar interessados nisso) e também não vejo como as instituições americanas escaparão incólumes a alguém que claramente quer testar as leis ao limite (veja-se o nepotismo, os conflitos de interesses e os recebimentos de estrangeiros) e que manda tradições não escritas às urtigas (caso da declaração de impostos, exames médicos,…).

Em todo o caso vou continuar pessimista. Tenho grande fé na capacidade das pessoas estragarem realidades boas. Não sou muito dada a histerias apocalípticas, mas passei muito tempo a clamar sobre o perigo do islão na Europa, e sempre me habituei a ser vista como uma maluquinha catastrofista. Afinal cabe na cabeça de alguém que a luminosa forma de vida europeia pudesse ser recusada por quem por cá viesse a ter a sorte de residir? O importante era sermos muuuuuuito tolerantes, que precisamente essa tolerância seria o que ganharia o coração dos islâmicos e lá lhes colocaria a vontade de se tornarem europeus ocidentais de gema. Viu-se. Deram por garantida a atração do modo de vida europeu – e enganaram-se. Desconfio que que a confiança na resiliência das instituições americanas seja depósito igualmente bom de confiança.

Provavelmente Trump terá o mesmo fim de Obama. O exagero progressista, do igualitarismo à força, da arrogância de Obama gerou a reação trumpista oposta. Trump, que (felizmente, para este fim) é excessivo, megalómano e não admite limites à sua ação, também provavelmente gerará reação para a esquerda (como se Trump fosse de direita) e cairá por isso. Mas o dano fica feito – fica sempre. Mais ainda nos Estados Unidos, que não têm uma história de séculos, nem uma cultura mais ou menos uniforme com raízes imemoriais, como sucede a tantos países pelo mundo. Nem sequer tem um inimigo preferencial, daqueles com que os países já não conseguem viver, de tão acostumados à rivalidade secular (França vs Inglaterra, China vs Japão,…). Os Estados Unidos vão buscar a essência e a convicção da bondade e da superioridade do país a um génetro de realidades etéreas diferentes: à constituição (que outro país venera desta forma a constituição?), aos pais fundadores, às instituições democráticas. E por isso estão mais suscetíveis a rasteiras a estas últimas

2. Não faço grandes análises sociológicas ou psicológicas sobre as manifestações que têm ocorrido nos Estados Unidos aquando da tomada de posse de Trump, e confesso que não as acho (essas análises) muito relevantes. Porque o ponto é: se as pessoas se querem manifestar e se o fazem sem incomodar a vida alheia, sem destruir propriedade de outros, sem violência – então que o façam, acho muito bem, e eu certamente não me sinto autoridade para dizer se as manifestações são narcísicas ou se merecem ser o germinar do maior movimento político e social do século XXI. O ponto também é: este tipo de manifestações só é visto como perigo em regimes autoritários ou securitários. Se as manifestações forem fogos-fátuos de celebridades excitadas, morrerrão com o passar do tempo e não importunaram ninguém; se ganharem contornos políticos mais consistentes, desde que não adotem a revolução armada, também nada a dizer. Evidentemente cada um valoriza segundo a sua personalidade e quadro de valores todas as realidades, mas para mim um político eleito poderoso que se recusa a submeter ao escrutínio normal na democracia que o elegeu, que ataca o contra poder da comunicação social e quer relacionar-se com os eleitores através de tuits, e que mente escancaradamente (e com não sei quantos idiotas úteis a aplaudir a mentira evidente e a defendê-la) será sempre infinitamente mais perigoso que os maluquinhos que se manifestam, vigorosamente mas pacificamente, pela autodeterminação sexual do tigre das neves.

Já participei em manifestações – a última foi de apoio ao governo PaF, em frente à AR quando este foi derrubado pela geringonça. Sabia perfeitamente que não teria efeito nenhum a minha deslocação a São Bento, mas fui na mesma, porque a ação humana não vale a pena apenas pela eficácia. Já estive noutras manifestações, ajuntamentos, etc. Não me sinto, portanto, com autoridade para julgar quem assim se manifesta – com as salvaguardas do parágrafo anterior. Participar publicamente e agir, em última instância, são sempre comportamentos narcísicos. Cada vez mais se comprova cientificamente que há recompensas (até ao nível da química cerebral) quando agimos de acordo com o que consideramos bem. A gratuitidade só existe na relação com os filhos (e porque os vemos como parte de nós); tudo o resto é sempre motivado pela nossa própria necessidade. Pelo que tirarmos tempo para participar numa manifestação sobre algo que reputamos importante é, no fundo, uma decisão narcísica. Noutro nível, esta forma de participação (bem como outras mais empenhadas) podem até ser curativas. Vem nos livros: o veterano que dedica a sua vida pós-guerra a manifestar-se pela solução pacífica dos conflitos; a vítima de abusos sexuais que vê como missão trabalhar com outras vítimas e sensibilizar o público para estes crimes; o preso político que quando sai do seu país entende ter a responsabilidade de alertar o mundo para as supressões de direitos que se vivem no seu local de origem. Etc. Etc. Etc.

Mas, em boa verdade, nada disto importa muito. O que me importa é não dar o meu contributo para um mundo onde é mais importante escrutinar manifestantes pacíficos que o presidente que manda mentir na primeira conferência de imprensa sobre um pormenor risível, e com claras tendências para um culto de personalidade. Um mundo onde a hora das fotografias apresentadas na comunicação social provoca rasgar de vestes, mas é peanuts um proteccionista que nem aceita que mexicanos e chineses (os novos ogres do mundo) possam gerir bancos americanos. Um mundo onde passa normalmente um presidente ameaçar a China, que nunca pôs em perigo os Estados Unidos, e que impede departamentos governamentais de passarem informação à imprensa, tudo sem sobressaltos; porque grave, grave é um discurso de uma atriz famosa numa cerimónia de Hollywood. Cada um tem as suas prioridades para os seus escândalos, as minhas estão neste estado e não vejo razão para mudarem.

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16 thoughts on “elogio do medo

  1. Pingback: Onde fica esse mundo? – O Insurgente

  2. “O que me importa é não dar o meu contributo para um mundo onde é mais importante escrutinar manifestantes pacíficos que o presidente que manda mentir na primeira conferência de imprensa sobre um pormenor risível, e com claras tendências para um culto de personalidade”.

    Maria João, onde fica esse mundo para ver se vale a pena mudar para aí?

  3. Maria João Marques

    Rodrigo, mas não viste o que se produziu pelo mundo todo?! A senhora islâmica que foi uma das organizadoras, as fotos das maluquinhas nuas, outras fotos dos gorros rosa. Um cronista de dta da nossa praça teve até a inteligência de exibir a ignomínia moral das manifestantes, pq não se tinham manifestado para dfender Monica Lewinsky – sendo que as manifestantes provavelmente teriam de ter faltado ao infantário ou à escola primária ou à barriga da mãe para poderem ter defendido Monica Lewinsky.

    (Btw, isto não era resposta para ti e para o teu post,era para clarificar o meu artigo, sem sarcasmos lá pelo meio).

  4. Maria João Marques

    Prova indirecta, já tinha visto. É daquelas coisas em que eu também adoro bater. Obrigada.

    Z, é o mesmo que no outro post se queixava que eu todos os dias escrevia sobre Trump, obsessivamente, etc.? Tenho de lhe agradecer a atenção, de facto, andar-me a ler todos os dias, a mim que escrevo coisas que tanto lhe repugnam. Um bocadinho doentio, mas pronto. Deixe-me garantir-lhe que não é obrigatório ler-me, nem todos os dias nem de vez em quando, e que eu não levarei a mal se levar as suas leituras obsessivas para outro lado, ou se ocupar o seu tempo com outros afazeres mais recompensadorrs. Choro cinco minutos e já está.
    Ou é outro indefetível admirador?

  5. Portanto; a obsessiva também sou eu e as maluquinhas são as outras.

    Onde é que já ouvi isto?

    As causas fanáticas são sempre monotemáticas por este motivo- porque são tão básicas; tão primárias, ao nível biológico que não dão espaço para mais nada.

    O feminismo sempre foi uma panca apalermada. Mas conseguiu tornar-se mais palerma e imbecil com o tempo.

    Dantes, queimavam sutiâs na rua e militavam pela pílua; agora militam pelo aborto que as anteriores tinham de fazer por não haver pílula e querem dar missa.
    Como não dão missa, juntam-se aos milhares a fazerem birrinha por tricas de tabelóides a que chamam política.

  6. Concluindo- o papa chico tem rapidamente de resolver o problema porque a grande vocação dest@s feministas é mesmo serem vigárias da Porcalhota

  7. Engraçado é gostarem de ser massa. Todas unidas por se considerarem representantes de milhares de outras que nunca lhes passaram procuração.

    Dá vontade de lembrar a rábula do Brian-
    You are all individuals!
    – I’m not!

  8. Pelos meus cálculos este feminismo vai mesmo ser ultrapassado pelo feminismo vegan- Somos tod@s vacas; porque somos tod@s sencientes.
    Como o VC previu

  9. Maria João deprima-se apenas um pouco, mas só para poder retomar com mais energia o combate ao Trumpismo.

    É cada vez mais importante que as pessoas de direita reformista combatam a violação de principios básicos como o liberalismo económico e constitucional, a liberdade de informação e muitos outros a que nos habituamos, para que não sejam destruídos por um demagogo em nome de uma direita reacionária.

    Só mais duas achegas: 1) num estado de direito é intolerável que os governos queiram fazer “deals” como agora se diz; 2) é inaceitável que um Presidente reuna os CEOs de empresas privadas para lhes dizer onde devem e não devem investir sem que os media condenem isso. Depois não se admirem que apareçam novos Krupps a justificar a sua conivência com as atrocidades cometidas.

  10. Maria João, o meu texto é escrito a partir do teu, o que lá escrevi já estava amadurecido desde há uns dias. Não é feito nem para concordar nem para discordar, pese embora utilize como mote algumas das tuas afirmações.

    Em qualquer caso, sabes bem que não alinho na tua deriva anti-trumpista pro-hilária, e que admito que isso faça com que vejas Trumpistas por todo o lado. Esse é um fenómeno bem conhecido dos homens do marketing. Acontece com frequência. Por exemplo, quando alguém se entusiasma com um anúncio de um dado carro, por exemplo, é habitual que de repente se aperceba na rua que há imensos carros desse modelo e marca a circular. Eu da minha parte não vejo assim tantos Trumpistas como tu, mas admito que haja alguns. Em qualquer caso, tanto Trumpistas acérrimos como as senhoras que desfilaram naquela manifestação, eu da minha parte não me atravesso na defesa de nenhum, sem antes me mostrarem o boletim de vacinas.

  11. Maria João Marques

    Ou será desatenção tua. No twitter, não sei se frequentas, estão lá inúmeros, muito visíveis. No facebook, o mesmo.

  12. Buiça

    Tanta histeria…
    O Donald nunca tinha mentido, brincado, falhado, falido, ou sido desbocado/ordinario antes?
    Ainda assim quem tinha que optar, escolheu-o para seu presidente.
    As alternativas, nessa tal “Democracia” em que sem uns poucos billions não se tem acesso a aparecer no boletim de voto ou onde o sacrossanto 4o. poder fiscaliza tanto que alinhou por inteiro a favor do candidato do establishment, eram de tal maneira grotescas caricaturas da corrupção e podridão a que chegou o sistema político que na primeira oportunidade de se vota num outsider foi logo eleito.
    Historicamente os EUA tem administrações compostas em pelo menos 50% de governantes do sector empresarial, pessoas que fizeram, construíram, trabalharam alguma coisa na vida. Nos últimos 8 anos passou para menos de 10%.
    Que diabo, 90% dos eleitores da capital do establishment e 100% dos mass media (enfim, exagero, mas as honrosas excepções ninguém lê cá fora) alinharam pelo mesmo candidato. Isto não é um sintoma de ligeira constipação, isto é o fedor de um cadáver a quem se esqueceram de avisar que estava morto há muito.

    Sobre o tal sacrossanto liberalismo (ou outro ismo qualquer), parece que anda a colidir com uma tal de soberania que, o horror, se calhar as nações prezam afinal de contas. Ou a partir do momento em que o desequilíbrio nessas contas é tão evidente que fede a céu aberto. Cada país terá as suas motivações específicas, mas facilmente arrisco que nas eleições deste ano os candidatos que não defenderem minimamente a soberania dos seus países serão dizimados.
    Porque a alternativa do “liberalismo” a eu escolher na minha língua como quero ser governado em minha casa e como vou fiscalizar esse governo é exactamente qual?? Um consórcio da google-chevron-pentagono decidir tudo? Os milhares de inúteis normativos de bruxelas? Qual é o múltiplo de mercado a que se transacciona um pais na bolsa? 1.5xPIB anual e entregamos as chaves? E quem de bom senso quer a chatice de ser dono das chaves se basta encharcar de dívida e recolher as rendas? Qual é o plano?
    Quer o cumpra ou não, quem elegeu o Donald acreditou num plano concreto. Na Europa ocidental não se vislumbra plano algum em quase nenhum país. Mesmo o mais rico e bem gerido está sem rumo assegurado, atrelado a mais 27 lastros que puxam cada um para o seu lado, a querer produzir e vender para os maiores mercados do planeta (China e Índia) quando o seu tutor militar diz que não pode ser, inundado de refugiados de guerras que não causou. Sem entenderem qual é o caminho é natural que não se avance.

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