O folclore da resistência ao “trumpismo”

Por muito que nos custe, Donald Trump (DT) já prestou juramento no Capitólio e, pelo conteúdo do seu discurso de investidura, está determinado a cumprir as promessas que apresentou durante a campanha. Aliás, prova disso é a revogação imediata do Obamacare que aproveitou, num instantinho, para concretizar através de uma ordem executiva enquanto Melania (afinal lá encontrou um costureiro de bairro que a vestisse…) trocava um dos seus elegantes outfits. 

Após as cerimónias, várias reações se manifestaram aos mais variados níveis. A comunicação social, que aparentemente continua frustrada com os seus prognósticos fracassados sobre o ato eleitoral americano, entretém-se (e entretém) a comparar fotografias da tomada de posse de Obama e de Trump, a afluência no metro, etc., desviando-se do debate que se impõe sobre, por exemplo, as consequências da política keynesiana que Trump quer implementar ou da sua política energética. Mas o verdadeiro happening foi no dia seguinte à investidura. Refiro-me à marcha pelas mulheres, com células dispersas em todo o mundo ocidental que, não fosse a sua estranha e folclórica composição, teria tudo para representar um despertar saudável da sociedade civil em face desta espécie de novo mundo que se anuncia e cuja regras ainda não conhecemos: mulheres com t-shirts com a inscrição “I love Islam”, vegans empunhando cartazes onde constava “Vegans against Trampa”, ambientalistas proclamando “Facts count.

Climate change is real”, pessoas com cartazes com inscrições como “Eradicate men” ou “Free Melania”, até às atoardas “I’m quite unhappy”, “Quite annoyed” ou “I am very upset”. A diversidade e pluralidade dos participantes nesta manif e o pot- -pourri de “causas” eram tais que não se compreende se a dita era contra a misoginia de DT, contra os males do mundo ou uma ode coletiva de ódio aos homens. Certo é que ficou registada para a História em pensos higiénicos espalhados (não brinco!) nos bancos do Mall em DC. Entre nós, esta esquizofrenia de bojardas contra tudo e contra nada, que atua como uma espécie de anestesia para os portugueses se distraírem dos problemas do próprio umbigo, contou com a presença de personalidades como Marisa Matias.

Encher as ruas com esta multidão caótica em que ativistas, cada um com os seus achaques, se entretêm a berrar o seu quinhãozinho de absoluto, a empunhar um cartaz com a sua causa, a vociferar de forma enfaticamente desatinada “Fuck you” (como fez Madonna), é, do ponto de vista de quem participa, um descargo de consciência, e, do ponto de vista de quem assiste, um gathering mediatizado bastante divertido. Mas esta estratégia (ou falta dela) de contágio emocional das massas, o discurso deslegitimador incoerente e a diabolização da figura de DT não serão seguramente mecanismos de resistência eficazes (ainda que democráticos) e apenas permitem que o novo presidente continue a cavalgar, ainda mais, neste ambiente de caos.

Texto publicado ontem no i.

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20 thoughts on “O folclore da resistência ao “trumpismo”

  1. Cumprir o que se prometeu é o cúmulo.
    Mau exemplo para o rectângulozinho.
    A madona, frustrada, é perita em fucking, isso nós sabemos.
    Os bons tempos já lá vão.

  2. Elogiar Trump por cumprir o que prometeu é bonito. É o equivalente actual de elogiar Cunhal por ser “coerente”: um elogio para o próprio e um desastre para os demais. E tenho pena de ser eu a informá-la, mas multidões que não sejam “caóticas” – nestes dias em que cada um de nós é o seu próprio deus – já nem na China se encontram, só mesmo em Cuba e na Coreia do Norte. Sendo, evidentemente, irritante o destaque dado a manifestações irrelevantes por órgão de comunicação que se auto-denominam de referência (a BBC parecia a SIC, a destacar uma “manif” com 20 pessoas em Haia), fiquei muito mais preocupado com a evidência de um José Sócrates, à escala americana, capaz de vender tudo e o seu contrário, em nome do seu próprio interesse, e sem qualquer compromisso com a verdade ou noção de pudor e prudência.

  3. Jgmenos

    Isso dito, conclui-se o quê?
    Venceu as eleições um grunho populsta. um pato-bravo egocêntrico e alucinado para quem os USA é o seu ambiente de negócios é o universo conhecido.
    É o resultado de uma cultura em que a mentira e a falta de vergonha nas trombas não é penalizada? Certo, o reality show invadiu a política..
    As manifestações por si só não têm consequência e são tudo o que diz? Certo. mas pior fôra que não as houvessem.

    É o tempo dos políticos e das nações.
    Veremos quanto tempo levam a chamar o boi pelo nome!

    PS: keynesiano quer dizer fora do seu tempo, ou há uma nova versão? .

  4. “É o resultado de uma cultura em que a mentira e a falta de vergonha nas trombas não é penalizada? Certo, o reality show invadiu a política..”. A que sítio se está a referir?

  5. O gajedo, como lhes chamou o Vitor Cunha. Coisa da gajedo e coisa de população galvanizada por palavras.

    São perigosos- se vêm para a rua com ameaças apenas à conta da pulbicação de uma treta de uma frase privada que milhões de homens dizem, então esta gentalha já está pronta para a barbárie.

  6. E é uma tradição prot esta mania da Liberdade servir para criar culpados (como dizia o Nietzsche por outras palavras).

    São todos livres de serem fariseus e fazerem fogueiras por psicanálise e processos de intenção que nem de actos precisam.

  7. Foi da América que veio este politicamente correcto que chega a lei na ONU, UNESCO e UE.

    E este politicamente correcto é um vírus que precisa de ser travado na fonte.

  8. Eu não sei o que o homem fez de perigoso até agora. Sei que mais valia que todos os ideólogos que se dizem de Direita explicassem o motivo do seu aparecimento.
    Algo falhou na cartilha. E isso sim, é uma questão pertinente.

    De resto, se há milhares de desempregados por caridade para com o terceiro mundo, e milhares de imigrados a destruírem as economias do Ocidente, então até era melhor que a dita Direita se juntasse com a Esquerda e fizessem umas sessões a meias para ver se encontravam erros comuns nos seus “programas” de utopias e fins da História

  9. Quer ver como se ilustra o que eu disse?
    Olhe aqui

    Um bobó na Casa Branca é equiparado a um frase em privado.

    E mais- a mulher do bobó é a heroína porque é corna-mansa. Já a outra é uma foleira que precisa de ser libertada de quem não faz bobós na Casa Branca.

  10. É por estas e por outras que uma pessoa até pensa se no passado os que proibiam as mulheres de votar não teriam assim um niquinho de bons motivos para isso.

    Porque fazer de tricas coisa de governo da polis é mesmo o que há de mais “inho” no mais fútil estilo de “porteirice”.

  11. Outra coisa engraçada de se aferir é que todas estas “feministas” que também podiam ser “activistas dos animais” se as causas não fossem coisa monotemática, são todas mulheres sem filhos ou fufas.

  12. Trump apalpou umas mulheres, e isso é motivo de rancor e desprezo. O mesmo rancor e desprezo que motivou as grandes manifestações contra François Miterrand, que básicamente viveu em bigamia. Ou contra Hollande, que traía a namorada com a amante. Ou Silvio Berlusconi mais as prostitutas. A lista podia estender-se, até Bill Clinton e Monica Lewinsky por exemplo. Mas aí entramos num campo escorregadio, porque as manifestações femininas contra Trump são de mulheres que preferiam Hillary Clinton na presidência dos EUA. Hillary Clinton não deve ter participado nessas manifestações. Como podia? Aguentou um par de cornos muito mediático, o marido – presidente dos mesmos EUA de Trump – não se limitou a apalpar a estagiária. Essa mulher calculista, que motiva tantas paixões democráticas, não é o melhor exemplo para as mulheres. E no entanto, por ela não estar onde está Trump, monta-se um circo tão pouco edificante como ela.

  13. “Trump apalpou umas mulheres …”

    Há algum video onde se veja ?… Teria sido contra a vontade das mesmas ?… Foi julgado e condenado em tribunal ?…
    Mas mesmo que fosse …
    Há alguma lei que impede alguém de ocupar um cargo politico por não ter uma reputação impoluta ou um cadastro completamente limpo ?…
    Para se ser um bom Presidente é indispensável que não restem dúvidas quanto a não ter nunca “apalpado umas mulheres” ?…

    Obviamente que o que interessa a quem faz este tipo de campanha não é sequer a resposta a este tipo de questões mas tão só a oposição ao que representa politicamente a eleição de um candidato que não é um modelo do “politicamente correcto” !
    É verdade que depois da descida à terra do Messias Salvador do Mundo que foi Barak Obama é muito dificil aceitar que um Presidente dos EUA possa ser um personagem de direita, para mais homem, branco, rico empresário, mulherengo e bujardeiro !
    Mas, vendo bem, desde há muito que é assim. Mudam apenas os pretextos em função das caracteristicas dos personagens. Já foi assim com Ronald Reagan que iria fascizar a América e destruir o Mundo. Já foi assim com George W. Bush que ousou então anunciar e fazer uma “Guerra ao Terrorismo”.
    A máxima é sempre a mesma : a “direita” nunca tem legitimidade moral para governar !
    Pelo menos o comunismo tinha conseguido pela força levar esta máxima à prática nalguns paises !

  14. O seu post é bastante equilibrado. A Maria João Marques que o leia, antes de se esganiçar contra o Trump.
    Se a constituição americana permitisse ao Trump fazer um décimo do que se lhe atribui, o Ungido Obama e a sua corte de fanáticos teriam conseguido destruir a federação.

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