Um país sem memória não se governa

Lembram-se da inflação? Não? É porque a vida tem sido boa com o euro. O meu artigo hoje no Jornal Económico.

Um país sem memória não se governa

Na minha infância era a inflação, 20,9%, em 1978. Com a AD, em 1980, 16,1%. E, em 1984, a meio da intervenção do FMI, em pleno Bloco Central, quando Soares era primeiro-ministro, foi de 28,5%. Apenas em 1987 desceu abaixo dos 10%. Foi um feito. Ainda me lembro das primeiras páginas dos jornais: a inflação estava abaixo dos dois dígitos. O país tinha futuro. Já não era sem tempo.

E o tempo passou e o país esqueceu-se. Já não se sabe o que é o salário não chegar ao fim do mês porque os preços aumentaram. Como é que o que se recebe em Dezembro não chega para as mesmas compras feitas em Janeiro? As empresas desconhecem como se gerem stocks, como se vende a crédito, quando há inflação. Imagine o leitor vender um produto pago 90 dias depois. Quanto dinheiro perdeu? Pois, não foi fácil. É muito difícil.

E tem sido fácil, tem sido possível às famílias anteverem os gastos do ano, às empresas planearem como serão os próximos meses, anteciparem investimentos, compras, vendas, salários, gastos, ganhos, porque sabem quanto vale o dinheiro hoje, daqui a duas semanas, dois meses e até mesmo dois anos. Este paraíso económico devemo-lo ao euro.

Infelizmente não aproveitámos todas as potencialidades. É que durante a minha infância ouvi vezes sem conta que o problema do país eram os salários baixos. E como é que se resolvia o problema dos salários baixos? Com uma moeda forte. É claro que tivemos azar: a moeda forte caiu-nos do céu. Conseguiu-se sem produtividade e sem capital. Que se obtém com poupança, sem défices, e com bom investimento. Como não tínhamos nada disso, como não fizemos nada por isso, a moeda forte passou por nós sem os proveitos que podia gerar. Tal como nada se fez para se aproveitar o euro e subir os salários, nada se fez nos últimos meses para tirar proveito das ajudas do BCE, do baixo preço do petróleo e das matérias-primas. Em vez de reformas que preparem o país para quando as condições mudarem, o Governo distribui benesses entre aqueles que o apoiam, sequestrando o Estado a esses interesses.

Imagino o leitor a sorrir neste momento: a inflação é um perigo? Onde? Mas talvez saiba que Trump pretende gastar em infra-estruturas e implementar políticas proteccionistas; que o dólar se está a valorizar contra o euro e o que tudo isto junto traduz.  Em 2017 vai-se travar uma dura batalha entre dois campos: os que dão valor ao dinheiro e os que o querem desvalorizar. E este último objectivo consegue-se com inflação.

Até agora a Alemanha é quem mais se opõe à política monetária do BCE. Para os alemães, a subida de preços é inaceitável. Tal como deveria ser para nós. Infelizmente, este Governo, e a maioria que o sustenta, não se importa. Até o prefere. Porque com inflação é muito mais fácil iludir as pessoas. Às vezes olhamos para os problemas e não nos apercebemos que esquecemos como era. O quanto custou e o que jurámos nunca querer repetir.

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7 thoughts on “Um país sem memória não se governa

  1. “Um país sem memória não se governa”.
    Isto está a deixar de ser um “país”, é um lugar cada vez mais mal frequentado. Nos mapas chineses está incluído na Iberia.
    “Memória”, disso é que não me lembro mesmo nada.
    “Governa”, para 50% o desgoverno é a opção lógica.
    Enquanto vivermos todos no mesmo lugar nada muda.

  2. Pingback: POLITEIA

  3. mariofig

    Uma economia está de boa saúde apenas quando se encontra entre a crise que passou e a crise que vem aí. Essa é a natureza do desenvolvimento económico. Traçar uma linha recta ascendente de desenvolvimento económico, é coisa que nenhum modelo, nenhuma forma de pensar a economia, consegue.

    Mas já a classe política não vê ou não quer ver a natureza sinusoidal da economia. O agora, o presentismo, domina o pensamento político. E juntam-se aqueles que sendo economistas, acabam por assumir cargos de natureza política, como são por exemplo, governadores de bancos centrais.

    E por essa razão nunca desenvolvemos políticas económica defensivas. Somos sempre levados para uma crise a tentar nadar contra ela, em vez de aceitarmos a crise como um passo natural no desenvolvimento económico e nos termos preparado para levar com a onda e ainda assim mantermo-nos de pé. E, por outro lado, em tempos de bonança, deixamo-nos sempre levar pela corrente do crescimento económico sem acumular as energias necessárias para o fazer. Vivemos portanto os naturais ciclos económicos sempre com políticas de contingência e qualquer outra estratégia é sempre a curo prazo.

    Existe algo de profundamente medieval na forma como ainda assumimos a forma de fazer política económica. Acredito sinceramente que a maior parte do problema está no infeliz acaso histórico de se ter formado um pensamento de esquerda sobre a sociedade, onde em última análise se acredita que a melhor estado de uma sociedade é uma linha horizontal. Nem crescimento, nem crise. Um paraíso parado no tempo. Mas também na existência da infeliz ideologia keynesiana que ainda domina grande parte da economia mundial.

    Como levar toda uma sociedade a aceitar que deve viver de políticas para o amanhã é o grande desafio que não estamos a conseguir vencer aqui em Portugal, mas também um pouco por todo o mundo. Muito em particular na Europa, onde por um breve período na história pareceu que o íamos conseguir. Mas que agora se torna mais que evidente, que a União Europeia se encontra mortalmente ferida e a caminho do fim. Não deixa de ser tristemente irónico que também não nos estamos a preparar para isso.

  4. jo

    É um bocado cansativo estar sempre a ouvir falar das miríficas reformas sem nunca ver o caso concretizado.

    Desde o tomo enciclopédico de Paulo Portas sobre a Reforma do Estado, não vi ninguém concretizar coisa nenhuma.

    Só se vê gente a dizer que não se fizeram reformas e que se estão a travar as reformas que não se fizeram (?).

    Concretize lá um bocadinho, para se perceber que reformas eram essas que evitam uma inflação maléfica que pelos vistos não existe (?).

  5. Foi simpática a sugestão de visita a um passado bem presente, mas que parece caíu em saco roto ou então está tudo, os habituais, às voltas com o Trampas.
    Mas parece que incomodou, talvez por lembrar a cada um o que na altura pensavam e faziam obrigando a contemplar mesmo que de fugida o caminho feito, e por fazer, até hoje.
    Obrigado

  6. Por fim, um excelente colunista aborda o que era a inflação antes do €. Eu comecei a trabalhar em 1982, inflação bem alta e comprei a 1 casa em 1987, empréstimo CGD com juros a 28 ou 29%.
    Alguém sabe qual foi a desvalorização do escudo entre 1977 e 1986?
    Há que esfregar estas informações na cara da esquerda que quer sair do €.
    Ou estamos feitos!

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