Rebenta a bolha

rebenta-a-bolha Ao que parece, Portugal emitiu títulos de dívida pública – ou seja, pediu dinheiro emprestado – por um prazo de seis e doze meses a juros negativos. Tendo em conta que isto sucede poucas semanas depois de ter sido obrigado a aceitar juros de 4% por empréstimos com o prazo de dez anos, só se pode chegar a uma conclusão: a política do BCE está a criar uma bolha no mercado dos títulos de dívida, mas toda a gente espera que, a médio ou longo prazo, ela acabe por rebentar, e ninguém confia na capacidade do Estado português saldar as suas dívidas quando tal acontecer.

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18 thoughts on “Rebenta a bolha

  1. Luís Lavoura

    Não há bolha nenhuma. Simplesmente, toda a gente espera que, no prazo de poucos anos, a dívida portuguesa tenha que ser reestruturada. Essa reestruturação não se dará daqui a seis meses mas somente daqui a dois ou mais anos, pelo que os juros só começam a crescer a partir de tais prazos.

  2. Luís Lavoura,

    Conhece a regra dos terços?

    Quando o BCE tiver um terço da dívida portuguesa, em um terço de ano dois terços dos portugueses (pensionistas e funcionários) começarão a rezar o terço.

    E esse terço, o primeiro, o que justifica o último terço, está a um terço do ano de acontecer.

  3. mariofig

    Luís Lavoura, ninguém no seu perfeito juízo pede dinheiro emprestado sabendo que vai tentar negociar a seguir o não pagamento dessa dívida. Não se trata somente de estares a assentar toda a estratégia financeira do país no desconhecido, uma vez que não tens com saber se serás bem sucedido nessa restruturação da dívida e muito menos em que condições conseguirás essa restruturação.

    Mais grave ainda é a mensagem que dás a quem pedes dinheiro emprestado que não és de confiança. E com isso a resultante subida das taxas de juro de qualquer nova dívida e que terás de suportar por longos anos após a restruturação.

    Em todo o caso, as taxas de juro negativas que Portugal, Espanha e Itália estão a beneficiar, para falar dos países em maior risco, não serão afectadas por qualquer restruturação, nos próprios termos deste tipo de dívida. Trata-se de um processo de dívida separado que está nas mãos do BCE e que está a afundar a absorver grande parte da capacidade financeira do banco, suportada em grande parte pela Alemanha. A bolha quando rebentar, será muito mais grave do que qualquer crise de dívida soberana, porque afectará inclusivamente a capacidade do BCE em sustentar o euro. Andamos a brincar com fogo, na constante luta para manter uma união monetária em colapso. E tu andas distraído a falar de restruturação, quando nem consegues perceber que se o BCE cai, toda a Europa cai com ele. Mas continua a misturar alhos com bugalhos. É sabido que certas doenças não têm cura.

  4. “Não há bolha nenhuma. Simplesmente, toda a gente espera que, no prazo de poucos anos, a dívida portuguesa tenha que ser reestruturada. ”

    O que não é muito diferente de dizer “Há uma bolha, que em poucos anos vai rebentar”

  5. Pois o BCE…
    Vários economistas já alertaram para os efeitos directos e indirectos dos QEs. Bolhas em activos de risco e rentabilidades nulas para fundos de pensões.
    Se Portugal caír de rating – e eu acho que cai, o mais tardar em Abril – é bem possível que tenha de ser feita uma restruturação da dívida, talvez mesmo um perdão de parte dela. Os detentores nacionais de qualquer instrumento de dívida soberana levam o corte. As pessoas, e os bancos. Os nossos bancos estão atulhados de dívida nacional, não por patriotismo, mas porque recebem os 4% de juros e depositam-na no BCE como colateral para ir buscar financiamento a 0%. Um bom negócio, ou um lindo arranjinho, dependendo do ponto de vista.
    Se a DBRS cortar o rating – e eu acho que corta – esse colateral perde a validade junto do BCE, e não sei que outros colaterais poderão os bancos apresentar para ter liquidez sem uma linha de crédito de emergência a Portugal (vulgo troika), e se houver um haircut nem sei quem leva a pancada, mas creio que não é o BCE. Técnicamente o BCE não pode ser atingido por um default soberano, mas há uma data de minudências técnicas que desconheço e que permitem ao BCE rodear as normas e colocar-se em posição de fazer ruír o euro. O que tem irritado bastante os alemães, que serão os mais afectados por uma falência do BCE.
    Seja como fôr, gostava de saber mais, mas sei o suficiente para perceber que o Luís Lavoura pensa que isto é tudo a feijões. Dá que pensar se Luís Lavoura não será pseudónimo de Centeno, Costa, Galamba, ou outros que ainda percebem menos – a Mortágua e o Jerónimo percebem, mas desejam ardentemente que isto caia tudo.
    Já agora, L. Lavoura, porque é que acha que vai demorar anos?

  6. tina

    O Francisco tem razão, claro, mas acho que a questão de a dívida continuar a aumentar, depois de ter estagnado no anterior governo, também contribui para a desconfiança dos investidores. No fim, nem BCE, nem DBRS contarão para alguma coisa.

  7. jo

    Análise muito profunda.
    Então quando os juros desceram nos governos anteriores era boa governação, nestes é bolha.

    Quando os juros sobem com este governo é consequência de ações do governo, quando descem é da política do BCE.

    Repare, todas as apreciações algo de verdadeiro, parece é que se andam a procurar de entre as justificações possíveis, as que validam os preconceitos. Não é uma análise muito científica.

  8. O ps não vai negociar nem renegociar, nem sequer reestruturar. Á velocidade e ao belo prazer como eles pedem emprestado só vai haver um fim! Não pagamos, não pagamos e não pagamos. E o sabonete há-de ir à frente do Pelotão dos tesos.

  9. ABC

    @ Joaquim Brito
    Tem razão. Quais bancos?
    Se não estava a ser irónico; se você pudesse pedir emprestado a 0% e depositar a 4% chamava-lhe o quê? Mau negócio?

  10. mariofig

    ABC,

    Chamava-lhe um excelente negócio. Mas quem paga o excelente negócio? No sistema financeiro, um empréstimo a juro zero é simplesmente um mau negócio para todos e eventualmente afectará também para quem pediu emprestado. Tem estado a afectar profundamente a confiança dos investidores (incluindo a banca) no norte da Europa que devido à política de juros baixos imposta pelo BCE se vêm obrigados a aumentar os preços dos imóveis. E tem muitos outros efeitos nefastos. Juros zero é simplesmente uma má forma de movimentar capital. Ainda não sentimos estes efeitos em Portugal porque somos os beneficiários primários desta política financeira. Mas quando a bolha estourar, seremos profundamente abalroados.

    A critica que se faz aqui nem sequer é ao governo português. É à política do BCE que está a criar uma situação de elevado risco para toda a Europa. Uma coisa é uma nova crise de dívida soberana em Portugal, Espanha ou Itália. Outra bem mais grave, será uma crise de capital no BCE. Os seus efeitos serão devastadores.

    Poder-se-á argumentar que os senhores lá no BCE não são burros nenhuns e sabem o que estão a fazer. Não corremos o risco de uma crise de dívida no BCE. Mas só diz isso quem não sabe porque é que chegámos onde chegámos. o BCE está a efectuar empréstimos a juro zero para combater a deflação que ele próprio criou quando há uns poucos anos atrás erradamente e infantilmente introduziu um excedente de Euros no mercado, confiante que a economia Europeia ia crescer. Tal não se verificou, e desde então (2014 aproximadamente) anda a tentar adiar o problema com juros progressivamente mais baixos na esperança que a economia volte a crescer. Ou seja, o BCE está a tentar corrigir um problema que ele próprio criou. Mas a economia teima em não crescer e parte da culpa é também nossa, dos países do sul, que não estão a fazer as reformas necessárias. O que se verifica portanto é ano após ano de fraco crescimento europeu e a incapacidade do BCE em travar a sua própria medida, o que nos está a conduzir para um perigoso abismo financeiro na Europa que poderá inclusive destruir o Euro. E se acontecer, todos nós vamos lembrar a troika como o tempo das vacas gordas.

  11. Tem mais influência um pentelho da Merkel que todos discursos e leis produzidos na A.R. portuguesa (com costas ou com coelhos).
    Por isso, Don’t Worry Be Happy…

  12. Ana Catarina

    “… Portugal emitiu títulos de dívida pública… ”
    Isto em termos de linguagem popular, isto é do povo, foi arranjar mais um calote para juntar aos outros que.
    O Estado continua caloteiro dentro da filosofia do 44:
    — Os calotes do Estado não são para pagar

  13. JO : “Então quando os juros desceram nos governos anteriores era boa governação, nestes é bolha.
    Quando os juros sobem com este governo é consequência de ações do governo, quando descem é da política do BCE.”

    Com o governo anterior os juros da divida publica desceram estruturalmente, ao longo dos anos. Por exemplo, os juros da divida a 10 anos, baixaram do pico de cerca de 17% ao ano em 2012 para cerca de 1,5% no primeiro semestre de 2015.
    De notar que esta tendência começou e decorreu mesmo antes do BCE ter reforçado a sua politica monetária expancionista, a partir de 2014. De notar ainda que, muito embora a tendência para a baixa fosse geral desde que o BCE reforçou aquela politica, as taxas portuguesas em todos os prazos desceram mais rápidamente do que a generalidade das restantes, incluindo a alemã. Isto é, a diferença entre os juros portugueses e os juros dos restantes paises europeus, o chamado “spread”, foi sendo reduzida.

    Com o governo actual é o contrario : apesar da politica do BCE, as taxas portuguesas para a generalidade dos prazos foram subindo regularmente. Em particular, os juros da divida a 10 anos já oscilam em torno dos 4% ao ano. De notar que esta subida das taxas portuguesas ao mesmo tempo que as taxas dos restantes paises se mantêm estáveis ou descem significa que os “spreads” da divida portuguesa têm vindo a aumentar.
    A unica excepção diz respeito a financiamentos de muito curto prazo, oportunos para acorrer a necessidades pontuais e temporárias de tesouraria mas que não servem para financiar o grosso da divida publica acumulada. A explicação para esta situação é dada pelo Bruno Alves no seu post em cima. O que é certo é que esta excepção, relativa a uma pequena parcela do financiamento do Estado, não anula o facto essencial e verdadeiramente importante que é o do agravamento do custo do financiamento do grosso da divida pública portuguesa.
    O mais importante a reter é que, se o BCE não interviesse no mercado monetário como tem estado a fazer, os juros portugueses seriam ainda bem mais elevados do que são actualmente.
    Ou seja.
    Desde logo, o custo do financiamento da divida portuguesa tem vindo a subir e está hoje a um nivel que já é muito elevado e dificilmente sustentável.
    Mas o pior ainda é que existe um elevado risco, quase uma certeza, de que, se o governo actual continuar a sua politica e nada for feito para corrigir o actual estado das coisas, quando o BCE alterar a sua politica monetária expancionista, o que terá forçosamente de acontecer e todos os analistas prevêm que venha a acontecer, as taxas portuguesas vão ser ainda mais elevadas e Portugal voltará a estar numa situação de emergência financeira que não deixará de ter consequências muito negativas sobre a economia e sobre as condições de vida de muitos portugueses.
    E isto é da exclusiva responsabilidade do governo actual !

  14. MARIOFIG concordo. Note que não disse que era um bom negócio, disse que era um bom negócio ou um lindo arranjinho.
    Não me passaram despercebidas as várias ocasiões em que Draghi referiu que estamos em condições macroeconómicas excepcionais para se fazerem reformas estruturais. Mas…não se fez nenhuma por cá.

  15. Pingback: Inconsciente ou irresponsável? – O Insurgente

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