A fantochada dos “Movimentos Cívicos” em Portugal

6396575_rmim0 Cada vez que há uma qualquer polémica em torno de uma decisão política, os jornalistas correm a ouvir os representantes de movimentos cívicos com alguma ligação à decisão. Compreende-se: é uma forma de poupar tempo e dar a aparência de se ouvir os representantes dos afectados. A esquerda percebeu isso há algum tempo e foi criando movimentos cívicos um pouco por todo o lado, principalmente durante o último governo. Se tivessemos jornalismo crítico, esses movimentos só seriam ouvidos se cumprissem dois critérios:

1) Os movimentos serem independentes de partidos que beneficiem das suas posições

2) Os movimentos terem de facto alguma representatividade no grupo em questão (medido, por exemplo, pelo número de membros)

Na maioria dos casos, isto não acontece. Tomemos o exemplo da APRE, que se diz representante dos reformados. A APRE foi criada há 4 anos e, de acordo com o único plano anual publicado, tem cerca de 6000 membros (menos de 0,2% do total de reformados). A presidente é militante do Partido Socialista e, coincidência ou não, quando este governo tomou posse, o seu filho foi nomeado motorista do Ministério da Agricultura. O filho, claro, pode ser um excelente condutor e merecer o cargo por mérito, mas se a APRE representasse efectivamente os reformados, estes já estariam a questionar a possibilidade de conflito de interesses. E os jornalistas que tomam a APRE como representantes credíveis talvez começassem a pensar duas vezes.

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21 thoughts on “A fantochada dos “Movimentos Cívicos” em Portugal

  1. Hum…como é que se faz um movimento cívico? Parece uma excelente idéia para ganhar umas massas, ou, pelo menos, poupar umas massas.

  2. JM

    Haverá mesmo, ainda, jornalistas em Portugal? O que vejo são ressonâncias, pouco mais do que isso.

    Quantas vezes a ver, ouvir ou ler notícias, fico com mais dúvidas do que as que tinha? Quantas vezes me parece que o jornalista não pergunta, o jornalista faz favores: a si mesmo, evitando incómodos (com o editor, com o director); ao seu ego, porque é narcisista e gosta mais de se ver ou ouvir; ou a uns outros, a propósito de “avenças” ou da sua própria identificação ideológica.

    O nosso inconsciente começa a perceber tudo isto, estejamos ou não alertados para todas as maquinações e movimentações.

  3. O xcosta pensa em tudo e quase tudo consegue….por este artigo se vê como ele consegue aumentar as reformas mais miseráveis com uns míseros cêntimos… fica assim tranquilo porque sabe que ninguém se vai revoltar, muito menos o vai assassinar. Tirar o país da banca rota é que ele não consegue de maneira nenhuma….

  4. Francisco Lx

    A Apre surgiu como uma necessidade de representação dos pensionistas e reformados numa época de ataque ao direito de receber uma reforma nas condições e montantes contratados ao longo de dezenas de anos com o estado. Se tivessem sido os sindicatos a fazer isso, como seria sua obrigação, era porque estavam a ser instrumentalizados pela CGTP e Partido Comunista. Foi uma militante do PS, e depois? É normal que as pessoas mais ativistas na defesa das causas em que acreditam militam em mais do que uma organização. A pergunta a fazer é, antes, porque é que não foram militantes do PPD/PSD ou do CDS a fazer o mesmo? Agora isso do motorista é a conversa do costume; vamos lá arranjar mais qualquer coisa para desacreditar aquilo.

  5. Luís Lavoura

    Poder-se-ia dar muitos outros exemplos, por exemplo, a Associação Portuguesa de Famílias Numerosas ou a Confederação dos Agricultores de Portugal.

  6. FRANCISCO LX : “A Apre surgiu como uma necessidade de representação dos pensionistas e reformados numa época de ataque ao direito de receber uma reforma nas condições e montantes contratados ao longo de dezenas de anos com o estado.”

    Num sistema de pensões distributivo como o nosso, o nivel das pensões a pagamento não depende exclusivamente nem principalmente do nivel das contribuições dos pensionistas enquanto activos mas são antes fixados arbitráriamente e pelos sucessivos governos. São decisões politicas. É sabido que os descontos efectuados pelos pensionistas actuais enquanto activos não seriam suficientes para pagar as pensões actuais. Não existe portanto nenhum montante preciso garantido por contrato. Os governos subiram pensões quando achavam que havia dinheiro suficiente para o fazer. Quando o dinheiro não chega é logico e sensato que as possam baixar para que as contas batam certo.
    Os governos anteriores a 2011 foram os principais responsáveis por aumentos imprudentes de algumas pensões e ainda pelo despesismo que deixou o Estado sem dinheiro suficiente para suportar todas as suas despesas, incluindo as despesas excedentárias com pensões.
    Ao governo de Pedro Passos Coelho coube a dificil tarefa de, com o pais submetido a um programa de resgate, gerir e corrigir esta situação insustentável.
    Dito isto, a grande maioria dos pensionistas não foi sujeita a cortes nas suas pensões. Isto é, apenas uma minoria dos pensionistas, com pensões acima de um determinado valor, sofreram cortes.
    Portanto, a APRE, mesmo que fosse representativa, e nada permite comprovar que o seja, seria quando muito apenas porta-voz dos interêsses de uma parte de uma minoria dos pensionistas, aqueles que viram as suas pensões cortadas e que contestaram esses cortes, e não da maioria dos pensionistas, com ou sem cortes nas respectivas pensões.

    FRANCISCO LX : “É normal que as pessoas mais ativistas na defesa das causas em que acreditam militam em mais do que uma organização.”

    Sim, mas tal não significa necessáriamente que esses “movimentos” sejam representativos da generalidade das outras pessoas pelo que não é normal nem honesto que se apresentem como se fossem e também não é normal nem profissional que certos orgãos de informação os apresentem e os ouçam como se fossem.

  7. mariofig

    “A pergunta a fazer é, antes, porque é que não foram militantes do PPD/PSD ou do CDS a fazer o mesmo?”

    Porque então serias tu a bradar ao céus contra a situação. Deixa-te lá de hipocrisia, Francisco LX!

    Casos não tenhas lido o artigo, o problema coloca-se a dois níveis. E nenhum deles é directamente pela senhora ser militante do PS. O primeiro é que ela se insurge violentamente contra um aumento de 2,60 euros anual no tempo do PSD para depois enaltecer os esforços do PS num aumento de 2,11 (mais baixo portanto). E o segundo problema é que sendo a senhora militante do PS, o seu filho é também agora motorista do ministério.

    Se não queres ver, isso é exactamente o problema deste país que tapa os olhos para a merda quando ela tem a cor da sua bandeira partidária. E perguntas bem, quando perguntas porque é que não é o PSD ou o CDS. É que até encontras realmente alguns exemplos na sociedade civil de promiscuidade entre o poder político e o associativismo civil nestes dois partidos. Mas encontras muito menos do que os casos à esquerda, entre os partidos PS, PCP e BE. É que ainda existe alguma vergonha na cara à direita do PS.

    E te deverias insurgir, para teu bem, como nos estamos a insurgir aqui. Independentemente da cor partidária da senhora. É que todos nós perdemos. Todos mesmo, quando permitimos como tu permites, que o partidarismo entre adentro do último bastião do pensamento livre em qualquer país, a sociedade civil. E porque não o fazes, tu és mais uma versão do problema que grassa neste país. És mais uma versão da corrupção e da promiscuidade política. Devias era ter vergonha na cara por estar a defender esta senhora, meu grande pulha!

  8. LUIS LAVOURA : “Poder-se-ia dar muitos outros exemplos, por exemplo, a Associação Portuguesa de Famílias Numerosas ou a Confederação dos Agricultores de Portugal.”

    Sim, mas, apesar de serem eventualmente bem mais representativos de uma parcela importante das respectivas categorias, como são conotados à direita, não são tão considerados nem ouvidos pelos “mass média” e pelos diferentes poderes como são os ditos “movimentos civicos” conotados à esquerda.
    Este é que é o buzilis do “politicamente correcto” actualmente dominante !!

  9. ” A presidente é militante do Partido Socialista e, coincidência ou não, quando este governo tomou posse, o seu filho foi nomeado motorista do Ministério da Agricultura. O filho, claro, pode ser um excelente condutor e merecer o cargo por mérito”

    Muito gostava de ver esse concurso para motorista: o anúncio, os requisitos, os critérios, os candidatos e os resultados.
    O “escolhido” é biólogo, professor, deu formação, trabalhou num call-center, fala português e inglês, mexe em computadores e tem carta de condução: UAU!!!
    E o salário?

  10. Francisco Lx

    Fico contente por o meu comentário ter originado tantos e tão longos comentários mas quer-me parecer que a resposta a quase todos eles já foi dada em devido tempo pelo Tribunal Constitucional.

  11. mariofig

    Boa resposta. Mesmo ao estilo daquele labrego do Francisco Louçã, que evitando responder directamente a qualquer repreensão, usa da demagogia mais básica, justificando a acção de uns com os actos de outros. Nem sequer percebes que o TC nada tem a ver com a organização interna de uma associação civil. Deve ser só coincidência que os vossos nomes são parecidos.

    Não tarda nada também vais dizer que o Marcelo foi jantar a casa da senhora e portanto não se lhe pode criticar a ela e à sua associação.

  12. FRANCISCO LX : “quer-me parecer que a resposta a quase todos eles [comentários] já foi dada em devido tempo pelo Tribunal Constitucional.”

    O Tribunal Constitucional é uma instituição politica que interpreta a Constituição de modo a arbitrar eventuais diferendos relativos à sua aplicação por parte dos orgãos executivos, o governo em particular.
    Mas nem o Tribunal Constitucional nem ninguém pode ter a última palavra num debate sobre o que está certo ou errado nas matérias em questão.
    De resto, o TC é uma instituição humana e, como tal, mesmo no legitimo exercicio das suas competências institucionais, que devem ser acatadas, está sujeita a erros e é susceptivel de criticas.
    No confronto de ideias, como as que nos ocupam aqui, o TC não dá nem tem de dar resposta a coisa nenhuma !!

    Acrescente-se que não existe na Constituição nenhuma cláusula que indique taxativamente que as pensões a pagamento não podem ser cortadas, temporária ou permanentemente (como não existe nenhuma cláusula que impeça o seu aumento arbitrário e sem garantias quanto à sustentabilidade do seu financiamento).
    Nesta matéria, o TC limitou-se a interpretar principios constitucionais gerais ao deliberar sobre propostas do governo então em funções.
    As posições dos juizes do TC não foram unanimes tendo deliberado por maioria aceitando certos cortes e recusando outros.

  13. Em 2014, o governo aumentou as pensões mínimas em 2,60€ por mês. Esta foi a reacção de Rosário Gama da APRE (Associação de Pensionistas e Reformados): “Aumento de 7 cêntimos por dia é vergonhoso”

    Em 2017, o governo aumenta o complemento solidário para idosos em 2,11€ por mês. Fica aqui a reacção de Rosário da Gama: “aumento do complemento solidário para idosos é baixo, mas é bom que exista”

  14. Luís Lavoura

    Fernado S

    não são tão considerados nem ouvidos pelos “mass média” e pelos diferentes poderes como são os ditos “movimentos civicos” conotados à esquerda

    Este tipo de queixas faz-me lembrar os clubes de futebol que passam a vida a queixar-se do árbitro. Em vez de procurarem jogar melhor e de se queixarem dos seus próprios erros, queixam-se sempre dos árbitros.

  15. EMS

    “não são tão considerados nem ouvidos pelos “mass média” e pelos diferentes poderes como são os ditos “movimentos civicos” conotados à esquerda”

    Basta fazer-se uma busca pelo news.google.com para se entender que isso não é verdade. Alias, associação de famílias numerosas até tem tido mais atenção dos media que a APRE.

  16. LUIS LAVOURA : “Em vez de procurarem jogar melhor e de se queixarem dos seus próprios erros, queixam-se sempre dos árbitros.”

    Não são árbitros, são jogadores que procuram passar por árbitros e apitar as partidas em que participam !!

  17. EMS : “Alias, associação de famílias numerosas até tem tido mais atenção dos media que a APRE.”

    Sim, desde que mudou o governo a APRE calou-se e os média esqueceram-se dos reformados !!

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