Vasco Pulido Valente

Um destes dias, Marcelo acaba a falar sozinho, a crónica de Vasco Pulido Valente no Observador.

(…) Quando o papel se tornou mais barato, por volta de 1860, apareceram por toda a parte milhares de jornais. Em Portugal também, e isso ao princípio foi um escândalo de grandes proporções. Em Lisboa e no Porto, havia dezenas. Mas cada distrito e quase cada concelho tinha um, ou por iniciativa local ou pago pelos partidos políticos. Pior ainda, para se atrair o público da pequena imprensa da província, os jornais de grande circulação passaram a contratar correspondentes nos mais remotos cantos do país. Milhares de pessoas enchiam diariamente toneladas de papel. De longe em longe, com boa prosa e notícias fiáveis; diariamente, com calúnias, impropérios e demagogia, em prosa de taberna. Como um todo, a imprensa era a versão primitiva de uma “rede social”. Ninguém se incomodava com isso, excepto os jornalistas que se davam excessiva importância. Num regime liberal (ou democrático), a necessidade de participar era geralmente reconhecida e até certo ponto respeitada. As “redes sociais” cobrem hoje muito mais gente. Ainda bem. O mal seria um público indiferente ou apático. (…)

O título “Diário de Notícias” é um programa. Quando o jornal foi fundado queria dizer que só daria notícias e, principalmente, que seria apolítico, ou seja, que tencionava ignorar as lutas partidárias do tempo. Mas de facto o DN acabou por se tornar no órgão oficioso do governo e das dezenas que vieram depois, durante cem anos (excepto, que me lembre, com Mário Mesquita e, a seguir, com Mário Bettencourt Resendes). Não admira que esta admirável instituição tenha resolvido despedir o meu amigo Alberto Gonçalves. O objectivo dos patrões do DN é viver em boa harmonia com o governo, de maneira a conseguir um “jeitinho” ou outro, um favorzinho ou outro. Alberto Gonçalves, um homem de convicções e com pouca paciência para aturar idiotas, e com prosa sarcástica, penetrante e clara, estragava este suave entendimento. A nossa direita continua incuravelmente estúpida.

17 thoughts on “Vasco Pulido Valente

  1. mariofig

    Por acaso até sei de fonte segura ligada ao DN, a distribuição das audiências da mensagem de fim de ano de Sua Excelência, o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa:

    200.000 – Televisões ligadas pelo país fora sem que ninguém esteja a ver.

    120.000 – Classe política, incluindo figuras de estado, governo, oposição, gestores públicos e sócios de partidos com aspirações.

    120.000 – António Costa e Galamba, após cuidadosa análise do gráfico de audiências em Powerpoint fornecido por ambos.

    10.000 – Viram mesmo.

    1.000 – Casa da Presidência. Pessoal afecto, desde jardineiros a conselheiros.

    1 – O gravador blue-ray de Marcelo Rebelo de Sousa.

    90.000 – Margem de erro de acordo com os novos métodos estatísticos introduzidos pelo Ministério das Finanças.

    Total: 637.000. Mais ou menos. Quer dizer, não é mesmo nada. Mas o importante não é fazer contas, mas acreditar que que os mercados vão entender o que estamos a fazer e que temos um dos maiores saldos primário da união europeia.

  2. mariofig

    No entanto tudo isto é uma injustiça. Marcelo é um guerreiro nato e está pronto para a luta. Veja-se como questionou de forma peremptória as medições da temperatura da água na baía de Cascais. 1 grau faz toda a diferença! Força Marcelo!

  3. Manuel Assis Teixeira

    Não entendo porque é que neste caso VPV chama estupida à direita a proposito da despedimenro de Alberto Gonçalves. O que é que a direita teve a ver com isso?. O despedimento de AG voz livre e inteligente e de direita teve a ver com a estratégia de total branqueamento de tudo o que possa ser contra o actual sistema. O governo e os seus peoes de brega têm-no feito com sucesso. Sao diários os exemplos desse branqueamento que vai desde a omissao da informação o que se passa nos hospitais, a omissao da informação do que se está a empurrar com a barriga para a frente em termos defice, da omissão informaçao da escandalosa situaçao dos transportes publicos, da omissão da informaçao escandalosa e silenciosa capitulação sobre as exigencias sindicais para obter a ” paz social” etc etc. Alberto Gonçalves punha o dedo na ferida e sobretudo ridicularizava esta maltosa esquerdofila e politicamente correcta.Mas continua na Sabado. Eu aliás no DN nunca o li porque me recusei sempre a dar um chavo para esse jornal. Claro que há muita direita estupida mas neste caso não sei o que é que a direita fez para receber a critica do sempre critico VPV

  4. “A nossa direita continua incuravelmente estúpida”

    Coitado, o autor que é de esquerda, não quer reconhecer que quem impede Alberto Gonçalves de falar é a incrivelmente estúpida esquerda. Um homem incrivelmente cobarde este Correia Guedes (aka Pulido Valente) por ainda bajular a fraudulenta esquerda.

  5. lucklucky

    Não percebo as críticas a VPV. Julgo que VPV fale da Direita dos negócios que está no DN.

  6. Da mesma opinião de LUCKLUCKY. A direita dos interesses do conhecido ‘Capitalismo de Compadrio’, na sua habilidade Plutocrática…
    Com os necessários Proenças, Júdices e quejandos, muito convenientes na mancomunação intervencionista rendosa com a Plutocracia…

  7. “Com os necessários Proenças, Júdices e quejandos, muito convenientes..”

    Não são de direita. São uns ranhosos oportunistas, sempre foram. Culpar a direita é, insisto uma cobardia porque não está preparado para apontar dedos à esquerda. Deve também estar com receio de ficar sem trabalho, por isso atira as culpas vagamente para uma “direita” qualquer. Tem medo de entrar em colisão com a direções de esquerda do DN, Público, Expresso e JN.

  8. mariofig

    Mas que a nossa direita (a partidária, não a verdadeira e representativa que ainda carece de partido neste país) continua incrivelmente estúpida, lá isso continua.

    Já em relação a VPV, respeito ele o suficiente para lhe dar o benefício da dúvida sobre o que ele sabe sobre este despedimento, e o que realmente quis dizer e a quem. Principalmente tendo em conta o tipo de jornal que é o DN e as vezes sem conta em que já assistimos à direita partidária portuguesa a esfaquear os seus nas costas. Aliás, toda o antagonismo recente a Passos Coelho resulta do facto de este impossibilitar (e bem!) qualquer entendimento para a formação de um bloco central. A direita partidária portuguesa é realmente incrivelmente estúpida. E há conta dessa estupidez a esquerda tem governado Portugal a seu belo prazer nos últimos 2/3 de vida da nossa democracia.

  9. “A direita partidária portuguesa é realmente incrivelmente estúpida. E há conta dessa estupidez a esquerda tem governado Portugal a seu belo prazer nos últimos 2/3 de vida da nossa democracia.”

    Era! Quando havia Pacheco Pereira e Manuela Ferreira Leite, etc, a fação gananciosa, anti-CDS, do PSD, que impossibilitava coligações. Felizmente, PPC é inteligente e está acima da política partidária. Espero bem que o PSD apoie Cristas e não apresente nenhum candidato à CML.

  10. André Miguel

    Mas qual direita??? Se até este blog tem autores de esquerda! A direita, mediática, em Portugal conta-se pelos dedos das mãos.

  11. A direita portuguesas sofre de vários complexos desde o tempo do autoritarismo de Salazar. Uma manada de aspirantes a intelectuais foi rapidamente vencida pelo marxismo cultural. Se até as américas contaminaram… A sua mão executiva, a maçonaria, faz o resto.
    O marcelo é um videirinho. Incapaz de se impor pela lógica e pela razão, opta pela farsa. A popularidade conseguida num ápice, vai esvair-se pelo cano de esgoto onde os ratos aguardam o desenlace.
    O pior é se nem ele nem os ratos resistem à realidade. Estamos cá para ver. O Alberto Gonçalves também. E nós a lê-lo e a apoiá-lo.

  12. Euro2cent

    ‘De longe em longe, com boa prosa e notícias fiáveis; diariamente, com calúnias, impropérios e demagogia, em prosa de taberna. Como um todo, a imprensa era a versão primitiva de uma “rede social”. ‘

    Não está mal visto, mas a abrangência social das fontes de conteúdo …

  13. O acontecimento serve às maravilhas para incrementar a espiral do silêncio. Os fatos de interesse público continuarão a ser varridos ou relegados para os rodapés. Os tempos vão maus, o monopólio (oligopólio) chinês que tomou conta da global media está lá para isso. Foi chamado para isso. A nova censura é mais subtil.
    Até que ponto e quantas pessoas se sentem afectados pelo caso? Poucas. Porém, sentindo que sua opinião é minoritária, falam baixo no começo e por fim silenciam-se de vez, para não expor suas discordâncias. Os mais desgraçados acabam aderindo à opinião maioritária. O tuga não gosta de estar só na asneira.

  14. “A nossa direita continua incuravelmente estúpida.”

    Deve estar a referir-se ao silêncio da Direita em relação aos vários “casos” da esquerda: Galp e o Euro 2016, feira de gado, Sócrates, contas marteladas, juros acima dos 4%, urgências entupidas, censura mediática, etc.

    A Direita ainda tem que aprender com as esganiçadas…

  15. Buiça

    Compreendo a crítica a uma “direita” que vezes sem conta assiste ao PS chegar ao poder e controlar toda a comunicação e por essa via se agarrar ao poder apesar da gritante incompetência e devastadores resultados. E sempre, sempre, sem tentar contrariar ou sequer fazer parecido. Parece-me pacífica a abissal diferença entre o escrutínio exercido pelo 4.o poder a governos xuxalistas quando comparado com a profunda indignação diária exibida durante governos nao-xuxalistas. Só para dar um par de exemplos, o que não seria se um governo nao-xuxalista metesse amigos a negociarem directamente dossiers de estado, tivesse governantes a mentirem no cv ou receberem prendas de empresas com quem o estado tenha litigios ou a chamar feira de gado a concertadores sociais…

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