fazia-me de morto

Do que vai sendo conhecido da proposta da Lone Star pelo Novo Banco (NB), eu, se estivesse no lugar do Governo, fazia-me de morto. Ou seja, nem vendia nem nacionalizava o NB. Mantinha tudo tal e qual como está, deixava a equipa de António Ramalho em funções e ficava à espera que esta lograsse o equilíbrio operacional do banco. Porque depois de tantos prejuízos acumulados (a caminho dos 2.000 milhões de euros desde a sua criação) e depois de tantas imparidades registadas (cerca de 9.500 milhões de euros, ou 16% do seu activo bruto, no que não encontra paralelo em todo o sistema bancário nacional), temos de nos questionar: estará o NB assim tão distante do seu “break-even”? Com 25 bi de depósitos de clientes e 26 bi de operações activas de crédito, será assim tão improvável por o NB a ganhar dinheiro?

Numa altura em que na Itália ninguém quer saber das regras de “bail-in” – nem em Itália nem na “Europa” – não faz sentido que o Governo português se precipite em função de um prazo de secretaria. Aliás, no que diz respeito ao NB, não tivesse sido a precipitação do Banco de Portugal, que no final de 2015 promoveu retransmissão de dívida do bom banco para o banco mau (sem que até hoje tivesse sido dada uma justificação cabal para aquela jigajoga), e talvez as propostas agora apresentadas dispensassem eventuais garantias públicas. Ou não. Porque também é verdade que, entretanto, já sob a liderança dita activa (mas não muito proactiva) do Governo nestes processos da banca, tivemos a desastrosa resolução do Banif – certamente candidata ao título de pior resolução bancária de sempre – e o resultado, envolvendo garantias públicas (e o endividamento do Estado para vender!!), não foi muito diferente do que agora se perspectiva para o NB, caso a venda seja realizada ao “melhor”.

A situação é uma grande chatice. Preso por ter cão e preso por não ter. Mas atendendo a que o “dono” do NB é o Fundo de Resolução, que, não obstante o empréstimo realizado pelo Tesouro, é capitalizado com recursos provenientes dos restantes bancos do sistema (e não do Estado, excepto no “pro-rata” que cumpre à CGD), e atendendo também ao facto de o NB já ter sido tão expurgado de imparidades e de prejuízos, creio que valeria a pena aguentar um poucochinho mais. Mantendo o NB como banco de transição, tal como está, o mais que se pudesse. Assim se evitaria, ou se protelaria, que o Estado lá metesse dinheiro, sobretudo se neste período de tempo a equipa executiva de Ramalho conseguisse equilibrar as contas. Ao mesmo tempo, “there is another Skywalker”, outras soluções não públicas poderiam ainda ser tentadas (estas ficam para outro texto!).

Mas ainda que não vendesse agora o NB, também não o nacionalizava, porque no cenário da nacionalização, então sim, o Estado ficaria responsável pelo ónus financeiro. Certamente responsável pelas necessidades de recapitalização de que o NB padece. E muito provavelmente fazendo também o “write-off” do empréstimo realizado ao Fundo de Resolução. O que, sublinhe-se, seria tão ou mais trágico do que a venda a descoberto que poderá resultar da proposta que agora está em cima da mesa. Ora, no imediato, para ónus financeiro já nos basta a recapitalização da CGD. (assim nós consigamos perceber por que é que a CGD precisa de ter um rácio de cobertura do crédito em risco por imparidades próximo de 80/90%, seguramente semelhante ao do BPI, mas bem superior ao de bancos internacionais comparáveis à CGD.)

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3 thoughts on “fazia-me de morto

  1. Filipe Costa

    Eu não me fazia de morto, teria era esclarecido logo ao inicio que não haveria garantia nenhuma estatal.

    Isto parece um filme montado propositadamente para a nacionalização, os jornaleiros e comentadeiros batem na tecla ad nauseum.

  2. Rogerio Alves

    Vendam isso! Vendam a Caixa! Por qualquer preço! Bem podem anunciar lucros de 200 ou 700 milhões como o A Domingues fez que aposto inteiro contra dobrado que qualquer um dessas tretas continuará a dar prejuízos atrás de prejuízos… mesmo que as taxas de juros comecem a subir…

  3. lucklucky

    Estas partes é que são importantes

    “Cerca de 9.500 milhões de euros, ou 16% do seu activo bruto, no que não encontra paralelo em todo o sistema bancário nacional”

    “Assim nós consigamos perceber por que é que a CGD precisa de ter um rácio de cobertura do crédito em risco por imparidades próximo de 80/90%, seguramente semelhante ao do BPI, mas bem superior ao de bancos internacionais comparáveis à CGD”

    Mas claro não são notícia, nem abrem telejornais, aliás não fazem parte deles.

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