O ano em que ninguém quis saber

O meu artigo no ‘i’ sobre o ano português que termina.

O ano em que ninguém quis saber

O ano está a terminar e é hora dos balanços. Por todo o lado leio que o país está excelente. O Público, num especial sobre 2016, descreve-o como o ano dos êxitos improváveis e pergunta se a auto-estima voltou. Até a novela do aeroporto regressou à baila com o Expresso a noticiar que a construção de um  novo pode avançar já em 2019. Isto depois de sabermos que já há planos para a expansão do Metro de Lisboa.

Algo de muito estranho se passou este ano e que poderá explicar como é que saímos da depressão profunda da troika e chegámos à euforia contagiante da geringonça. Mas o quê?  É certo que o BCE compra dívida pública portuguesa, mantendo o país a soro. Mas e depois? Ninguém se pergunta como vai ser quando essa ajuda terminar? Ninguém se preocupa?

Lembram-se daquelas reformas que durante anos ouvimos dizer que eram indispensáveis? Agora já não não precisas para nada. Afinal o país até está melhor sem estas. Até porque essas reformas implicavam mudanças de hábitos e os portugueses estão habituados a não mudar as suas práticas. Como governante hábil que é António Costa percebeu isso e deu-nos isso.

Daqui a muito tempo os portugueses do futuro estudarão estes anos para conhecer Portugal. Para se conhecerem a eles próprios. Um país que fecha os olhos porque dessa forma não se passa nada. Não querer saber é um remédio. E quando o Carmo e a Trindade caem pergunta-se porque é que ninguém avisou. Não é verdade. Os avisos estão aí. O problema é que ninguém quer mesmo saber.

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14 thoughts on “O ano em que ninguém quis saber

  1. Pingback: POLITEIA

  2. mariofig

    Sabem aquela do homem que se atira do 10º andar e em em todas as janelas que passa diz “até agora tudo bem!”.

  3. Miguel Alves

    Podemos dividir isto nos que são a favor da coligação de direita, e os que são a favor da coligação de esquerda.

    Os da coligação de esquerda, onde estão 95% dos jornalistas, está tudo bem, bem melhor que no ano passado, foi um virar de página.. o problema das pessoas desmaiarem no comboio já não é da crise imposta pela troika e pela direita, mas sim às pessoas com falta de memória e que a fertagus tem que relembrar em comunicados que devem tomar pequeno almoço.

    Os da coligação da direita tem o problema de sempre, falta de representatividade, falta de vontade e tempo fazer manifestações.. como não tem voz, é um silêncio que só se faz ouvir nas urnas a tal maioria silenciosa.
    A direita tem vergonha.

    O que seria de Portugal se o partido comunista português fosse o partido mais votado e não fosse o camarada J.Sousa o primeiro ministro? não é dificil imaginar.. basta recuar a 75 e 76 e ver o que fez o PCP com menos de 15% dos votos.

    Como se diz no norte: Estamos fodidos!

  4. “Os da coligação da direita tem o problema de sempre …”

    Não penso que o problema principal seja o de uma direita incapaz de se fazer ouvir ou de fazer uma oposição eficaz.
    Podemos imaginar algumas variantes estratégicas comunicacionais no modo de fazer oposição mas não seria isso que iria alterar muito o actual estado de coisas.
    O que é mais importante é que, como de resto é mais ou menos dito nalguns dos comentários acima, (1) há muitos portugueses que, depois de alguns anos de austeridade e de “desgraças”, querem mesmo acreditar que o pior já passou e que agora é possivel voltar a ser tudo como dantes, e que (2) há um governo em funções que está a aproveitar ao máximo a margem de manobra financeira e económica que foi deixada pelo governo anterior e que o contexto externo favorece para fazer uma politica demagógica, de facilidades e de habilidosa propaganda, alimentando assim a ilusão de que efectivamente está outra vez tudo bem !…
    Nos tempos que correm os ventos sopram de feição e não é possivel parar o vento com as mãos !…
    O que se pode fazer é procurar denunciar os graves erros da politica que está a ser seguida e alertar para o facto de que a melhoria sentida é apenas aparente, parcial e temporária e que é inevitável uma próxima nova degradação da situação económica e financeira que os portugueses vão de novo pagar …e pagar caro !
    Mas isto é, melhor ou pior, aquilo que a direita politica que se opõe ao governo actual (sim, porque também há uma “direita” que, voluntáriamente ou estúpidamente, se opõe sobretudo a Passos Coelho !…) tem vindo a fazer e deve continuar a fazer utilizando todos os argumentos à disposição.
    Acontece que este tipo de discurso não é aquele que corresponde à expectativa e à percepção aparente de muitos portugueses e que para tal tem contribuido muito o facto de uma parte importante das ditas “elites” nacionais, que tem um forte poder de manipulação da informação e da formação e, por esta via, de condicionamento da opinião pública, considerar que os seus interêsses são melhor tutelados por um governo de esquerda que interrompa e inverta o processo de ajustamento necessário da economia portuguesa do que por um governo de direita que vá progressivamente reformando o modelo economico que foi claramente dominante nas últimas décadas e levou ao colapso de 2011.

  5. Revoltado

    Desde há muito que o PS tem uma máquina de propaganda genial (lembram-se do Vangelis?). O que essa máquina faz é simplesmente debitar anúncios positivos ao governo. Por agora tem funcionado bem a estratégia de: se há algum número mau, a culpa é do anterior governo; se é bom, é mérito deste. Claro que com o passar do tempo isto deixa de funcionar mas rapidamente irão arranjar nova estratégia. No meio disto tudo a oposição está mais ocupada em atacar-se a si mesma do que morder os calcanhares do governo; diga-se também que esta é uma atitude para a qual, ao contrário do bloco e pcp, o PSD não tem uma inclinação natural. Portanto, a única opção para acabar com este “sono perfeito” em que vivemos é mesmo o choque da retórica com a realidade, tal como aconteceu em 2009 com o Sócrates. Pelo meio já se prespectivam os disparates do costume com aeroportos e tgv’s. Obviamente desta vez ninguém os vai financiar (o BES faliu, a caixa vai ter um gestor a sério, os outros bancos não têm capital) pelo que não vão passar do papel.

  6. Marco

    E atendendo aos panoramas que se avizinham alguém acredita que isto irá melhorar ? …

    Seja cá no burgo, seja além fronteiras, só se vê gente incompetente, criminosos e corruptos em todas as linhas partidárias, gentes sem ideias, ou com ideias fixas, parados no tempo, a gerirem interesses próprios …

    O apocalipse vem aí … ou não 😛

  7. “há muitos portugueses que, depois de alguns anos de austeridade e de “desgraças”, querem mesmo acreditar que o pior já passou” (autoria do Sr. Fernando S)

    A isto chama-se ESPERANÇA aquilo que durante o anterior governo foi incapaz de criar nos Portugueses.

    “O fim da esperança é o começo da morte.”
    Charles de Gaulle

  8. RROCHA,

    A isto chama-se FALSA ESPERANÇA !!
    Estas ilusões pagam-se sempre muito caro : veja-se o que se passou entre 2010 (os cortes e a recessão começaram ainda com o governo PS) e 2013 (o começo da recuperação).
    O governo anterior teve o mérito de não mentir e de não vender ilusões aos portugueses.
    De qualquer modo, não havia sequer como já que o governo Sócrates deixou os cofres vazios e o pais de pantanas.
    A esperança que não é falsa passa primeiro pela verdade, pelo realismo, pelo bom senso, pela responsabilidade.
    Que é o que agora está a faltar !!

  9. É preciso dizer que as “devoluções” e “reversões” feitas pelo governo actual só foram possiveis porque o governo anterior tirou antes o pais da situação de emergência em que se encontrava.
    De resto, as primeiras “devoluções” começaram em 2015 ainda com o governo anterior e que outras teriam continuado nos anos seguintes, como estava já previsto, à medida das possibilidades e a um ritmo que não comprometesse a sustentabilidade da recuperação.
    O governo actual “devolveu” mais do que era razoável, tanto mais que, com estas e outras medidas, provocou a desacelaração do investimento e do crescimento economico que deveriam sustentar uma progressiva diminuição da austeridade.

    É preciso dizer que a diminuição do desemprego começou em 2013 e que continuou a seguir a um ritmo bastante forte … que só abrandou com a perspectiva e a chegada do governo actual a partir do segundo semestre de 2015.
    E é preciso dizer que a principal causa da diminuição do desemprego, para além da retoma do crescimento economico (que começou com o governo anterior e abrandou com o governo actual), tem a vêr com a reforma e flexibilização do mercado de trabalho (como é nomeadamente reconhecido num recente estudo da OCDE).
    E é preciso alertar para que tudo isto está em perigo de ser de novo comprometido pelas medidas que têm vindo a ser tomadas pelo governo actual e que vão continuar (aumentos incomportáveis do salário minimo ; reversão da reforma do mercado de trabalho ; fiscalidade prejudicial ao investimento ; etc).

  10. “A isto chama-se ESPERANÇA aquilo que durante o anterior governo foi incapaz de criar nos Portugueses”

    Pelo contrário, o índice de bem-estar dos portugueses aumentou durante o governo de PPC. Deve ter sido por finalmente a economia estar a crescer, o desemprego a baixar, o país bem encaminhado no pagamento da dívida.
    .
    Agora a dívida voltou a subir. Como pode haver esperança quando se sabe que o seu país está a afundar-se cada vez mais, que o país que vão dar aos filhos é o 3º mais endividado de TODO o MUNDO? Que razão de orgulho poderá haver, que esperança?

    Dizer aos filhos “OLHA FILHO, TOMA LÁ ESTA MERDA QUE A MINHA GERAÇÃO TE DEIXOU.”

  11. “Esta mensagem de Natal da Rainha Isabel II, em 1957, a primeira ser televisiva, ilustra bem isso mesmo. Vejam-na. Nela fala-se do mundo que muda muito depressa, nos deixa desamparados e como temos de ter coragem e atenção aos valores que guiaram os nossos avós para enfrentar o ano que vem. Na época, 1958. Agora, 2017.”

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