Síria: back to basics XXVIII

assad

Perante a histeria do carniceiro Assad: Triumphant Assad: ‘History is being made in liberated Aleppo’  faz ainda mais sentido ler o comentário sobre a Síria de Miguel Monjardino, na sua página de Facebook:

(…) 2. A vitória militar numa guerra urbana que dura há 5 anos representará um grande triunfo político para Damasco. A constelação de grupos revolucionários sunitas e rebeldes que combatem contra o regime de Bashar al-Assad está a caminho de deixar de representar uma ameaça existencial para a sobrevivência de Damasco.

3. Porém, a queda de Palmira e dos poços de petróleo à volta da cidade para o Daesh é um embaraço político para Moscovo e Damasco. Por duas razões. A primeira é tornar excessivamente claro que a verdadeira prioridade de Bashar al-Assad na guerra não tem sido o Daesh mas sim os outros grupos armados sunitas. A segunda mostrar que que Damasco não tem o número de tropas e milícias suficientes para controlar a capital, Alepo e uma parte do país e lutar contra os revolucionários do Daesh, Al Qaeda e outros grupos rebeldes sunitas ao mesmo tempo. O número de baixas das forças armadas sírias durante a guerra tem sido muito elevado. (…)

5. É importante ter em conta que os interesses de Damasco, Teerão e Moscovo não são coincidentes. Todas estas capitais estão dispostas a pagar um preço elevado em sangue e dinheiro para manter o regime de Bashar al-Assad. A determinação desta coligação foi superior à da Turquia, Arábia Saudita e Qatar que tentaram usar a guerra civil síria para derrubar o regime sírio e criar um baluarte sunita na costa do Mediterrâneo. Dito isto, o Kremlin não tem grande interesse em ver a guerra pelo controlo de todo o território sírio continuar. Moscovo aproveitou o recuo da administração Obama no Médio Oriente e a aposta estratégica de Washington na negociação do acordo nuclear com o Irão para intervir militarmente na Síria. O principal objectivo de Vladimir Putin é melhorar a sua posição estratégica na Europa: levantamento das sanções económicas, financeiras e tecnológicas impostas pelos EUA e a União Europeia, negociação do estatuto geopolítico da Ucrânia e impedir que tropas NATO sejam estacionadas nos estados da Aliança Atlântica a leste. Ou seja, a Rússia não quer aumentar o seu empenhamento militar na guerra síria. O interessa a Vladimir Putin é voltar a dar à Rússia um papel indispensável na política internacional. O que o líder russo ambiciona é uma mistura de estatuto e respeito em Washington. Damasco é um instrumento para Moscovo voltar a ser o nº 2 a nível mundial. Damasco e Teerão olham para o problema de outra forma. O mesmo pode ser dito dos grupos de revolucionários e rebeldes sunitas que combatem em território sírio. A sua determinação em continuar a combater mantém-se.

6. O que é que as capitais europeias podem fazer no meio de toda esta violência? Se não estivermos dispostos a agir militarmente para defender interesses ou valores, a resposta é “Nada!” Como Tucídides escreveu na sua “História da Guerra do Peloponeso” – esse grande clássico sobre a política, a estratégia e a natureza humana -, “a guerra é um professor muito violento.” Esta é uma lição que as sociedades europeias que decretaram ter abolido o problema do uso da força militar para conquistar ou manter o poder político vão ter de aprender. Restam os gestos como este em Paris e as redes sociais que geram emoções. O que está em jogo, porém, não são as emoções mas sim o poder. A paz, essa, levará mais algum tempo a chegar às cidades, vilas e aldeias sírias. (…)

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8 thoughts on “Síria: back to basics XXVIII

  1. Se Hillary Clinton tivesse ganho as eleições, Allepo ainda estaria dominada por terroristas. A guerra na Síria só não acaba se Trump não chegar a tomar posse, ou se for destituído rapidamente, ou se não for capaz, ou deixar de ter interesse, em levar à prática o discurso com que foi eleito.

  2. ruicarmo

    Quando a equipa liderada por Cemteno decidir taxar a asneira, vai ser uma carga de trabalhos para o Lucas Galuxo.

  3. Euro2cent

    A citação do Tucídides interessou-me, e com as internetes nem é preciso abrir o livro para catar capítulo e versículo …

    Resumindo, “πόλεμος βίαιος διδάσκαλος”, livro III, 82. Contexto, na versão Jowett (diz “hard master”; http://classicpersuasion.org/pw/thucydides/jthucbk3rv2.htm ):

    “””
    […] And, during the seven days which Eurymedon after his arrival remained with his sixty ships, the Corcyraeans continued slaughtering those of their fellow-citizens whom they deemed their enemies; they professed to punish them for their designs against the democracy, but in fact some were killed from motives of personal enmity, and some because money was owing to them, by the hands of their debtors. Every form of death was to be seen; and everything, and more than everything, that commonly happens in revolutions, happened then. The father slew the son, and the suppliants were torn from the temples and slain near them; some of them were even walled up in the temple of Dionysus, and there perished. To such extremes of cruelty did revolution go; and this seemed to be the worst of revolutions, because it was the first.

    (82) For not long afterwards nearly the whole Hellenic world was in commotion; in every city the chiefs of the democracy and of the oligarchy were struggling, the one to bring in the Athenians, the other the Lacedaemonians. Now in time of peace, men would have had no excuse for introducing either, and no desire to do so; but, when they were at war, the introduction of a foreign alliance on one side or the other to the hurt of their enemies and the advantage of themselves was easily effected by the dissatisfied party. And revolution brought upon the cities of Hellas many terrible calamities, such as have been and always will be while human nature remains the same, but which are more or less aggravated and differ in character with every new combination of circumstances. In peace and prosperity both states and individuals are actuated by higher motives, because they do not fall under the dominion of imperious necessities; but war, which takes away the comfortable provision of daily life, is a hard master and tends to assimilate men’s characters to their conditions.

    When troubles had once begun in the cities, those who followed carried the revolutionary spirit further and further, and determined to outdo the report of all who had preceded them by the ingenuity of their enterprises and the atrocity of their revenges. The meaning of words had no longer the same relation to things, but was changed by them as they thought proper. Reckless daring was held to be loyal courage; prudent delay was the excuse of a coward; moderation was the disguise of unmanly weakness; to know everything was to do nothing. Frantic energy was the true quality of a man. A conspirator who wanted to be safe was a recreant in disguise. The lover of violence was always trusted, and his opponent suspected. […]
    “””

    (Resta acenar com a cabeça em silêncio …)

  4. mariofig

    Ó Lucas Galuxo, mas tu mesmo só consegues argumentar desta forma? Ficas-te tipo Louçã, que quando lhe confrontam com o Fidel, o ditador, ele responde “mas o Pinochet…”?

    Deixa-te disso, rapaz! Aqui ninguém quer saber da Hillary. Ela é história. E o Obama história está quase a ser. Aqui está-se a falar doutra coisa, ó rapaz! Te lavaram bem esse teu cérebro. Diz-me lá uma coisa, foi rápido ou levou tempo a ficares assim? É que eu só quero ter uma ideia do tamanho dessa ervilha que tens na cabeça.

    Isto da redes sociais é um problema. Qualquer gato pingado manda os seus bitaques tipo que é um grande doutor. Mas sem perceber puto de diplomacia internacional, das relações de força, ou mesmo de história.

    “Mas a Hillary…”
    Possa, ficas-te mesmo burro com essa tua mania do Trump!

  5. Buiça

    Deixando de lado o mamute no meio da sala que é a questão de quem tem interesse, financia e arma desde o início todos os supostos “rebeldes” e o estado islâmico desde o início, algo que por algum motivo se recusam a debater, vejamos friamente a alternativa ao “carniceiro Assad” que os Rui Carmos defendem diariamente:
    View story at Medium.com

  6. mariofig

    A verdade é que ninguém ficou bem na fotografia-postal de Aleppo.

    Não ficaram bem os Americanos que falharam a todo a linha na sua diplomacia e acção militar incapazes, permitindo à Rússia o controle da situação. Ficou mal a Rússia que mais uma vez demonstrou o tipo de intervenções militares que está disposta a fazer sacrificando civis. Ficou mal Assad porque deixou definitivamente claro o déspota que é, capaz de sacrificar o seu próprio povo. Ficaram mal os rebeldes, porque como Assad, preferiam sacrificaram o povo da cidade que ocupavam recusando baixar as armas face à violência e desumanidade dos bombardeamentos. Ficaram mal os media ocidentais que escolheram fazer uma cobertura parcial da guerra, não expondo a merda que a estratégia Americana foi. Ficaram mal os media pró-russos pela constante deturpação da verdade e branqueamento das vítimas civis. Ficaram mal os terroristas porque são esses não são gente. Ficaram mal os civis porque morreram a torto e a direito, ou perderam as suas casas e bens.

    Mas onde todos falharam, os Estados Unidos é aliado da Europa. Nosso aliado. E são um regime democrático. Putin não é nosso aliado e Assad ainda menos. Agora até vai ser mais um fantoche da Rússia. E portanto, é os Estados Unidos que defendo. Os seus erros só os posso lamentar. O que não vou fazer aqui é a vossa figura triste e hipócrita de num dia se chatearem porque o Fidel é elogiado na AR e no dia seguinte estarem a enaltecer dois déspotas como o Putin e o Assad enquanto bombardeiam zonas civis como andámos a ver nos últimos meses.

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