Purga envergonhada no Bloco de Esquerda

catarinamartins

Imagino que na vida interna dos partidos existam episódios dignos de uma comédia que acaba muitas vezes por se  transformar em drama e nos piores casos, em tragédia e horror. E se até agora pensavam que a purga era um exclusivo do PCP – o mais moscovita-estalinista dos partidos comunistas da Europa Ocidental, estão enganados, de uma forma mais ou menos envergonhada o Bloco de Esquerda  lá vai percorrendo o seu caminho.

O Bloco de Esquerda é mais do que uma experiência, uma vivência de um conjunto de partidos inovadores de esquerda, com maioria absoluta nas  redacções, cujo primeiro líder foi o actual Senador da Rrrépública Francisco Anacleto Louçã. Depois dele, a gerência passou por uma direcção bicéfala que respeitou a quota dos sexos e acabou com Catarina Martins a chefe, a apoiar a Geringonça e a engolir uma generosa quota de sapos, rãs e demais batráquios.

Podemos estar gratos tanto à sua existência como à sua dissidência. É ao BE que devemos a existência de um MAS (Joana Amaral Dias durante umas eleições e gravidez), do Livre unipessoal de Rui Tavares, de um 3D (do Daniel Oliveira que não pergunta o que nos dizem os nossos olhos) ou qualquer outra agremiação que entretanto tenha nascido ou venha a nascer da força  imaginativa dos homens, mulheres e restantes criaturas da esquerda que se quer diferente mas igual. O BE para além dessa tarefa hercúlea de procura e  dissimulação envergonhada do comunismo,  sonha com a “transformação social, e a perspectiva do socialismo como expressão da  luta emancipatória da Humanidade contra a exploração e a opressão”. Ao que parece,o BE oprimiu impediu  Francisco Raposo,ex-dirigente da agremiação de regressar. O curioso é que até ao momento ninguém sabe muito bem as razões do boicote. Para já, existe uma carta aberta de solidariedade com o socialismo, com uma peculiar lista de subscritores nacionais e estrangeiros e um manifesto de Solidariedade dos membros da Moção B da Mesa Nacional do BE, naquilo que é considerado como um golpe inaceitável na democracia interna do Bloco de Esquerda.

De regresso ao PCP, enquanto partido conservador-comunista aproveitou a derrocada do comunismo na Europa de Leste,  para purgar os elementos menos ortodoxos, cabendo a alguns deles a abertura de novos movimentos de participação cívica-comunista- na-realidade- mas-com- outro-nome. Ou na integração dos dissidentes sobreviventes em partidos como o PS ou o PSD.

O surrealismo purgatório é lei para o comum dos traidores e o desfecho natural da militância no Partido Comunista dos Trabalhadores Portugueses (PCTP/MRPP ). Um dia depois do Natal de  1976, após seis anos de luta, nasceu o PCTP/MRPP, um partido “com uma linha política verdadeiramente revolucionária, assente na  aplicação da teoria e doutrina marxistas à situação portuguesa.” Sempre consideraram os outros comunistas como uns betinhos e de valor residual. O camarada Arnaldo Matos atingiu o  estatuto de figura pública apesar de não ter o culto das multidões proletárias e camponesas de um Ribeiro Santos – abatido pela PIDE – ou de um Alexandrino de Sousa, assassinado pelos social-fascistas da UDP  (facção do actual BE) . E depois de um afastamento a que os ousados apelidariam de burguês, acabou recentemente por purgar o Secretário-Geral o mediático advogado Garcia Pereira e os membros do comité permanente do comité central. O  único partido capaz de fazer “a aliança operária-camponesa” e num momento de  reflexão profunda reconhece-se a si próprio como “o único partido que, desde o início da mais  recente e grave crise do sistema capitalista em Portugal, definiu que a questão central que se coloca  à classe operária para não ser esmagada pela contra-revolução é a do não pagamento da dívida.”  É esta a abrangência que os camaradas têm direito,  sem coligações burguesas, de preferência sem pagar aos credores e em perpétuas histórias de higienização interna.

Alguém alinha nas pipocas?

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13 thoughts on “Purga envergonhada no Bloco de Esquerda

  1. Pingback: POLITEIA

  2. ” O curioso é que até ao momento ninguém sabe muito bem as razões do boicote. ”

    Para quem queira saber – isto é um conflito entre os dirigentes do Bloco de Esquerda e os “irmãos” portugueses da facção trotskista inglesa que nos anos 80 controlava o Partido Trabalhista em Liverpool e a Juventude Trabalhista, até serem expulsos pela direcção trabalhista (por isso é que a lista está cheia de nomes estrangeiros).

  3. mariofig

    “Alguém alinha nas pipocas?”

    Pipocas só com sal. Não consigo comer se estiverem regadas com o meu próprio vómito. Observar as movimentações internas do BE é mesmo esse tipo de filme.

  4. Gostei de ver e de recordar este tipo de salada russa ou será soviética?
    Direi apenas que estes comunas e os outros também, acham muito bem serem comunistas mas viverem em países NÃO comunistas.
    Ele há coisas que nem os próprios entendem

  5. ruicarmo

    Estou longe de ser um observador atento mas parece-me que essa é uma explicação histórica que pouco explica o caso em concreto. A criatura chegou a ser dirigente. Saíu. Pretendeu regressar e a pretensão foi recusada, segundo o próprio sem a apresentação de razões estatutárias ou políticas.

  6. De acordo com os estatutos do Bloco de Esquerda, a adesão de ex-militantes tem que ser aprovada pela direção nacional; como ele pertence à tal facção, a re-adesão dele não foi aceite – não há grande mistério nisso (o que poderá ser o mistério é a direção do BE estar, pelos vistos, com medo de meia-duzia de gatos pingados que quase ninguém tinha ouvido falar).

  7. “acham muito bem serem comunistas mas viverem em países NÃO comunistas.”

    No caso das facções trotskistas ou maoístas que se digladiam no BE ou no MRPP, respetivamente, para onde é que eles haviam de ir? Não há nenhum país maoísta nem nunca houve nenhum país trotskista; além de que imagino que grande parte dos liberais e/ou conservadores que comentam aqui (alguns dos quais até dizem que cá só há partidos socialistas, do MRPP ao CDS) também não emigrem para países mais da sua preferência.

  8. ruicarmo

    Uma dúvida que permanece para além da purga envergonhada – até nisso são envergonhados -: como é que um membro de uma facção que representa meia dúzia de gatos pingados chega a dirigente?

  9. ruicarmo

    “alguns dos quais até dizem que cá só há partidos socialistas, do MRPP ao CDS” Se dizem, acertam.

  10. PedroM

    Se abrirem os links vêem que não é só um caso de um “dirigente” que não readmitem: os esquerdistas “envergonhados” acham o esquerdista assumido demasiado esquerdista. É uma “COMISSÃO DE INQUÉRITO” para expulsar do Bloco uma seita: de que as outras seitas não se percebe porquê não gostam.
    Para honrar a memória do Fidel acho que os vão encostar ao paredão…

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