O preço da sorte

O meu artigo de hoje no Jornal Económico.

O preço da sorte

Conta-nos Heródoto que Polícrates, o tirano de Samos, recebeu uma carta do faraó Amásis, na qual este expressava a sua preocupação pela boa sorte daquele. Nessa carta, Amásis dizia nunca ter conhecido um homem com tanta sorte que não tivesse terminado na miséria. Para afastar o fatal preço da sorte, Amásis sugeriu que Polícrates deitasse fora o seu objecto mais valioso e de que mais gostasse. Polícrates assim fez e lançou ao mar um anel com esmeraldas que usava com muita frequência. O primeiro azar foi que este regressou a terra dentro do estômago de um peixe. Sabendo disso, Amásis desfez a aliança que tinha com Polícrates que, pouco depois, foi empalado e mandado crucificar por Orestes de Sardes.

Ninguém deseja o mesmo fim a António Costa, nem sequer, excepção feita aos que crêem nas teorias da conspiração, alguém ainda acredita no fatalismo da sorte e do azar. O certo é que Costa tem tido sorte. Melhor: aproveita muito bem a que vai tendo. Tal como Polícrates, Costa meteu os aliados no bolso e vangloria-se dos resultados que apresenta. Proventos que, como os de Polícrates, têm pouca base de sustentação. No entanto, enquanto a sorte durar, Costa sorri.

A sorte de Costa é que o BCE tem comprado dívida pública portuguesa baixando os respectivos juros. Com a política monetária do BCE, Portugal continua a viver sob assistência financeira, mas sem contrapartidas. A sorte de Costa é que a DBRS mantém Portugal seguro por um fio, apenas porque o custo do colapso de um país do euro é superior ao dano de uma notação errada. A sorte de Costa é que a Alemanha tem eleições em Setembro e Merkel prefere que Costa sorria e Marcelo seja afectuoso, a dar um presente de mão beijada à extrema-direita. A sorte de Costa é que as eleições francesas são na Primavera. A sorte de Costa é que o mundo está em stand-by até ao Verão.

A moeda da sorte de Costa tem um outro lado: a política monetária do BCE dificulta a poupança de que Portugal carece; as eleições francesas e alemãs renovarão as exigências europeias (se não puserem um ponto final na política de assistência em que vivemos), e a banca portuguesa vai ter de deixar de financiar empresas amigas do poder, a começar pela CGD. Sim, pela Caixa Geral de Depósitos, sob pena de derrocada.

A sorte de Costa tem uma data limite. Mesmo em cima das autárquicas, que o PS espera vencer. A sorte de Costa é o nosso azar. Azar porque, durante este compasso de espera, o país não aproveita para reduzir a dívida pública (de acordo com o Banco de Portugal, atingiu 133,1% do PIB); não desce a despesa, mas compensa o défice com mais impostos e taxas que matam a economia. Não poupa, não investe, nem canaliza dinheiro para quem pode fazer a economia crescer. Azar dos azares, nem nos poderemos desforrar: quando a sorte de Costa acabar, ele fica ligado à folga usufruída por uns tempos e o povo paga a conta. Polícrates não teve tanta sorte.

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18 thoughts on “O preço da sorte

  1. O futuro é imprevisível. Nos seus escritórios, os legistas fabricam leis que garantem impunidades. Uma dúvida. Para sempre?
    Polícrates foi contaminado pela húbris, o orgulho exagerado, as habilidades sem limites. Só que a húbris provoca a ira dos deuses, levando inevitavelmente à queda. Já aconteceu ao seu predecessor mesmo que ele não tenha dado conta. Vai acontecer ao sualterno.

  2. Acho que não tem nada que ver com sorte mas sim:
    1) com o pouco tempo que governou, que ainda não permitiu ver o impacto completo das suas medidas.
    2) a habilidade de Costa para enganar. Por exemplo, já veio com a boca do défice mais baixo de sempre, mas nem sequer chegámos ao fim do ano e já vai em 2,8%.

  3. “A sorte de Costa é a mesma sorte que Passos Coelho teve.”

    O BCE começou a politica de “quantitative easing” no inicio de 2015. Os juros da divida portuguesa já vinham descendo desde 2013 e atingiram minimos históricos no primeiro trimestre de 2015.
    Desde que a incerteza politica e a perspectiva de um governo de esquerda em Portugal se configuraram, as taxas de juro da divida portuguesa recomeçaram a subir e o ritmo foi mais acentuado a partir do terceiro trimestre de 2015, quando o novo governo assumiu funções e tomou as primeiras medidas. De notar que enquanto as taxas de juro da generalidade dos outros paises do Euro desciam as portuguesas subiam (os ‘spreads’ aumentavam). Apesar do BCE ter reforçado o montante mensal das compras de titulos em Março de 2016, as taxas portuguesas não pararam de subir e a taxa a 10 anos é hoje mais do dobro do que era em 2015 (e aproxima-se dos 4%, nivel que a única agência de notação que qualifica Portugal para o programa de BCE condidera “perigoso”).
    A actual politica do BCE não vai durar para sempre. O BCE acabou de anunciar o prolongamento da duração do programa até ao final do próximo ano mas começou já a reduzir o montante de compras mensais. Portugal caminha num arame instável por cima de um precipicio !

  4. O que é muito interessante analisar são as recentes medidas do BCE orientadas para agradar mais aos grandes do que aos países penduras. Toda a gente já percebeu que os países penduras estão a ameaçar o projeto europeu, e que são os próprios cidadãos dos outros países que se cansaram de aturar chulos e que ameaçam agora a retirada da UE. Mário Draghi finalmente mostra um pouco de bom senso. Agora, os juros da dívida de Portugal a 10 anos estão a 3,85%! Que venha o resgaste depressa, para parar esta loucura de subida de dívida.

  5. A.R

    Não é apenas sorte: é um carreirismo descarado sem qualquer ética. Desde o mau perder na associação de estudantes às golpaças em catadupa tudo vale. É um homem perigoso para a Democracia.

  6. JP-A

    Pela bazófia oca e ordinária do debate quinzenal, ao nível de uma discussão manhosa de café, já se pode imaginar como isto vai acabar.

  7. JP-A

    Para memória futura:

    Este só não faz coincidir todas as legislativas com os seis meses de restrições do presidente se não puder.

  8. A farsa em curso, incluindo os personagens mais caricatos, tais como o bonzinho e o habilidoso foi programada há dois anos na Austria. O bonzinho era para ser o rio, foi ultrapassado, até porque lhe falta aquela aduela podre característica dos aldrabões natos.
    No meio disto tudo, o ppc, mão limpas dos bilderbergers, ficou a ver navios. Se um dia a luz permear a escuridão, entenderemos os jogos, toparemos os esquemas e os personagens.
    Ainda falta algum tempo.

  9. Quanto tempo falta, Helder? Isto está a tornar-se um daqueles sites patuscos de previsões do fim do mundo e tal. É sempre para o ano.

  10. Lucklucky, o que teria sido coisa boa seria ter agido com responsabilidade e tentado impedir que a maior crise financeira global dos últimos 80 anos levasse à venda dos principais activos portugueses, públicos e privados, ao preço da uva mijona, a especuladores e estados estrangeiros. Nem a oposição da altura nem os Bancos Centrais estiveram para isso.

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