o PIB, o deflator, o défice e a dívida

Há cerca de mês e meio publiquei no ECO – Economia Online um artigo de opinião relativo à proposta do OE2017 ao qual chamei “Um orçamento habilidoso”. Nele identificava um conjunto de riscos, em particular a estimativa avançada pelo Governo para o PIB nominal. Desde então, confirmou-se o que previa: a única entidade dita oficial cuja taxa de crescimento do PIB para 2017 estava então ainda acima da estimativa avançada pelo Governo, a Comissão Europeia de Monsieur Moscovici, reviu-a em baixa (de 1,7% para 1,2%) e para abaixo do previsto pour son ami Mariô Centenô (1,5%).

Hoje foi a vez da OCDE fazer semelhante. Baixou a sua estimativa para 2017, embora apenas muito ligeiramente, de 1,3% para 1,2%. E baixou também o valor projectado para o deflator do PIB (de 1,0% para 0,9%). O deflator é importante porque tem influência directa sobre as estimativas das receitas fiscais, que são apuradas com base no PIB nominal (volume+deflator). E neste momento quer a OCDE quer a CE apontam para crescimentos do PIB nominal (de 2,1% e 2,5%, respectivamente) inferiores ao que é previsto pelo Governo português (3,0%). Sem surpresa, as projecções para o défice, induzidas pelo lado das receitas, também diferem das do ministério das Finanças. Para pior. E falta o lado das despesas…!

Evidentemente, o défice pode muito bem ser o que cada Governo quiser. Os malabarismos orçamentais deste ano são disso reveladores. Entre os pagamentos em atraso aos fornecedores do Estado, a retracção do investimento público enquanto variável chave de consolidação orçamental, e as cativações permanentes (vulgo cortes ou austeridade) que o Governo divulgou apenas no ocaso do ano (e apenas em inglês), o plano b que o spin do Governo garante nunca ter existido, chegaremos ao final de 2016 com o menor défice orçamental, mas a maior dívida pública, dos últimos 42 anos! C’est magnifique. Aguardemos, pois, por 2017. Provavelmente com défice um bocadinho maior e uma dívida pública maior ainda. Monsieur Moscovici? Oh mon Dieu! Monsieur Costa? (mestre do contra factual) “Se não tivéssemos tido de implementar os vossos cortes é que teria sido!”

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One thought on “o PIB, o deflator, o défice e a dívida

  1. Se o défice é o que o governo quiser, o governo que quase nos arrastou para um procedimento por défice excessivo em 2015 era completamente incompetente.

    Ou então não queria cumprir a meta do défice, e andou a mentir a toda a gente.

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