A esquerda não socialista

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Foto: Ed Alcock / M.Y.O.P.

Quem é Emmanuel Macron? O meu artigo no Jornal Económico sobre o candidato de esquerda não socialista às presidenciais francesas, que pode pôr um ponto final nos preconceitos da esquerda.

A esquerda não socialista

‘La bataille qui est la notre, c’est de rendre les individus capables’

Emmanuel Macron, L’Obs, 10/11/2016

Emmanuel Macron é, a par com François Fillon, a figura política francesa mais interessante do momento. Conselheiro de Hollande, ex-ministro da Economia, Macron foi responsável pela lei com o seu nome que visava desregulamentar a lei do trabalho, mas que caiu porque Hollande e Valls não aguentaram a pressão dos sindicatos.

Macron tem 38 anos e, como lembra a cantora Françoise Hardy, além de cortês é alguém de esquerda que se define como não socialista. É o primeiro de muitos que estão para chegar. Em França, Espanha e em Portugal. A esquerda não tem de ser socialista e Macron está a mostrar o que isso significa. Os efeitos na política francesa serão imensos, agora que as sondagens colocam o PS na mão de Arnaud Montebourg, que é contra a globalização, é proteccionista e tem uma visão da economia que se situa entre Donald Trump e Marine Le Pen.

A 10 de Novembro, o L’Obs publicou uma entrevista com Macron em que este elencava as suas propostas para a lei laboral e para o ensino. Criticando o modelo actual, regulamentador, injusto e ineficaz, que favorece os que trabalham no Estado ou nas grandes companhias, em detrimento dos que o fazem por conta própria ou nas pequenas empresas, Macron propõe uma lei laboral que, não esquecendo o que considera ser essencial para a esquerda, difira de sector para sector de acordo com as suas especificidades. Para ele, diálogo social passa por nem tudo ter de ser prescrito por lei. Empresas e trabalhadores devem ter espaço de manobra para acordarem as regras de trabalho que mais lhes aprazem.

O mesmo raciocínio tem relativamente ao ensino. Neste domínio, defende um tratamento diferenciado entre as escolas, com o Estado a compensar financeiramente os professores que queiram leccionar nos estabelecimentos situados em zonas sensíveis. Ao mesmo tempo, suprime a carta escolar e o determinismo que o local de residência tem na escola que um aluno deve frequentar. O direito de escolha dos indivíduos é finalmente aceite por alguém de esquerda.

As presidenciais francesas vão ser muito importantes devido à possibilidade de Marine Le Pen vencer. De acordo com as últimas sondagens, esta dificilmente não passará à segunda volta, a não ser que Emmanuel Macron se consiga explicar. Se o fizer, a esquerda, depois de Hollande, Tsipras, Corbyn e Iglésias, verá, finalmente, uma luz ao fundo do túnel.

Christophe Guilluy é um geógrafo francês que alertou há dias na Le Point para a percepção comum de abandono que trabalhadores, agricultores e empregados de escritório, que tanto votam à esquerda como à direita, têm dos problemas. O sentimento de abandono puxa-os para a extrema-direita. E neste desafio de os fazer regressar, Macron à esquerda, tal como François Fillon à direita, pode ter um papel fulcral. Esperemos que consiga.

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10 thoughts on “A esquerda não socialista

  1. Macron é bem visto sobretudo por eleitores do … centro-direita !
    O grosso do eleitorado da esquerda não vai nunca votar em Macron na primeira volta (os mais “socialistas” vão votar num candidato “frondeur”, tipo Montebourg, e os mais moderado vão votar em Hollande ou, se este não se apresentar, em Valls ; só votariam por Macron numa segunda volta contra um candidato mais à direita, o que sair vencedor das primárias da direita e do centro ou a candidata da Frente Nacional, Marine Le Pen).
    Acontece que, no estado actual da opinião, a probabilidade de Macron poder passar à 2a volta é minima.
    Macron poderá vir a ter alguma hipótese no futuro se aparecer a uma parte significativa do eleitorado tradicional do centro-direita, eventualmente desiludido com a governação da direita “tradicional” (poderá ser o caso daqui a 5 anos se as próximas presidenciais forem ganhas, como é provável, por François Fillon ou Alain Juppé, e as coisas correrem mal, como aconteceu antes com Sarkozy), como uma alternativa válida a um candidato de continuidade dessa mesma área politica.
    No contexto actual, os eleitores da direita e do centro preferem votar num candidato “oficial de direita”, em François Fillon ou em Alain Juppé.
    E, a meu ver, antes assim !

  2. MP

    França precisa de um lider de direita, não de um menos esquerdista ou menos socialista que os outros, os mal “menores” já irritam!

  3. André Miguel

    Menos à esquerda ou menos socialista é conversa para boi dormir. É socialista e ponto final. É menos ladrão quem rouba 100 que quem rouba 1000?

  4. Bom, “menos à esquerda ou menos socialista” sempre é melhor do que “mais à esquerda ou mais socialista” !…
    Um “mal menor” pode ser “irritante” mas, por definição, sempre é melhor do que um “mal maior” (mesmo que este seja um desafio estimulante para os que têm um indole mais combativa e, em desespero de causa, admitam que “quanto pior … melhor” !…).
    Macron, que se assume como “não socialista”, é certamente preferivel a um Hollande ou a um Valls (que até são “moderados” dentro do PS francês) e ainda mais a um Montebourg.
    Mas, existindo um opção “mais à direita E mais liberal”, como será o caso com Fillon ou até com Juppé (ambos defendem reformas económicas que reduzam a dimensão e o intervencionismo estatal ; se e até que ponto as vão fazer efectivamente já é outra conversa), sempre é preferivel !!

  5. MP

    Fernando S, ” é sempre preferivel” a direita liberal e reformista que o menos o socialista Macron, ou deixe-me ver se percebi, prefere o menos “esquerdismo” ao “mais à direita E mais liberal”?

  6. MP,
    Pelos vistos percebeu mal e ao contrário …
    Certamente culpa minha por não ser suficientemente claro no meu comentário acima.
    Repito [e reforço]:
    “existindo um opção “mais à direita E mais liberal” [do que “o menos socialista Macron”], como será o caso com Fillon ou até com Juppé, sempre é preferivel [aquela opção de direita e liberal ao “mal menor” que seria Macron relativamente aos candidatos ainda “mais à esquerda e mais socialistas”] !!
    Espero que agora seja mais claro …

  7. Já sabemos que só o Lucklucky e mais meia dúzia de gatos pingados é que são verdadeiramente “não socialistas” – puros, sem concessões, sem promiscuidade, sem compromissos, sem alianças !!
    Para quando a revolução dos amanhãs que cantam ?!… 😉

  8. Nuno

    Por pouca que seja, a diluição do socialismo francês é importantíssima para Portugal, com a sua síndrome de macaquice de imitação do hexágono.

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