a virtude violada

“A municipalização da Carris e o recorde na dívida pública dizem-nos muito sobre a última década. A dívida gere-se, não se paga. A economia é comezinha. O primado da política, sempre.”

Destaque do meu artigo de hoje no ECO – Economia Online.

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19 thoughts on “a virtude violada

  1. mariofig

    Excelente artigo, Ricardo Arroja.

    De pouco ou nada servirá ao poder institucionalizado, porque este é contrário aos seus interesses de inverter a relação principal-agente. E a grande parte da população que já aprendeu a viver sem qualquer espírito crítico. Presa que está a esta forma de governação, que considera normal e até defende numa manifestação coletiva de um qualquer Síndroma de Estocolmo.

    Mas mantém clara a ideia que nem todos se deixam levar. E que existirá sempre um sector da sociedade que olha para o Estado como agente sem qualquer poder autónomo.

    Há poucos dias, lembrou-se aqui no Insurgente as palavras de um certo Sr. Mamede: “O Socialismo é a única forma de impedir a barbárie”. Não entendem os socialistas que o bárbaro nunca se julga bárbaro. A domus socialista é o tipo de barbárie que tem impedido o estado mínimo e a condução das populações à sua condição de principal na relação com o estado. Mas novo ventos estão a chegar. Anda um cheiro a mudança no ar… Talvez já não seja para mim. Talvez para os meus filhos, mas acredito que um pouco por todo o mundo as populações começam a despertar de quase dois séculos de feudalismo encapotado como forma de governação.

  2. André Miguel

    “Anda um cheiro a mudança no ar”

    Anda sim, mas não em Portugal certamente.
    Sempre que aí vou nas férias só vejo o zé tuga a bater palmas à geringonça e a maldizer os anos da troika. Portugal é um país socialista até à medula, com a agravante de ser ignorante, analfabeto funcional e sem espírito critico.

  3. Alguém sabe explicar como é que a Carris que prestava serviços a concelhos limítrofes de Lisboa vai continuar a prestá-los sendo da Câmara de Lisboa?

  4. Não é o primado da política.
    Será simplesmente não disfarçar soluções políticas de falsas inevitabilidades económicas para fugir à discussão de idéias.

  5. Luís Lavoura

    A dívida gere-se, não se paga.

    Ainda no outro dia ouvi na rádio o diretor financeiro do Benfica a dizer, basicamente, isso mesmo: que, embora o Benfica pudesse amortizar boa parte da sua dívida, não está interessado em fazê-lo, apenas pretende garantir que a consegue gerir (e ir amortizando lentamente).

  6. Luis Lavoura,
    “Amortizar” é pagar !…
    O problema é voltar a contrair novos empréstimos para substituir o que se vai pagando.
    Melhor, o verdadeiro problema é a divida manter-se elevada.
    Sendo elevada implica um custo financeiro que pesa negativamente sobre o orçamento.
    O que acaba por ter um impacto negativo na economia e, consequentemente, na capacidade do pais poder vir a pagar no futuro o que deve.
    É um ciclo vicioso.
    Que determina um aumento das taxas de juros.
    E o ciclo torna-se ainda mais vicioso.
    A divida portuguesa pode ser gerida com o nivel actual.
    Mas para isso é preciso que os juros não aumentem
    Isto é, é preciso que os investidores, os mercados, acreditem na eficácia da politica do governo para ir controlando as contas públicas e, até para este efeito, para ir criando condições para que a economia cresça.
    O que é preocupante é que em um pouco mais de 1 ano de “nova” politica, e apesar de um contexto externo relativamente favorável (politica do BCE, preço do petróleo, crescimento médio dos paises da UE, etc), a taxa de juro da divida portuguesa a 10 anos tem vindo a aumentar regularmente (mais do que duplicou).
    É o sinal de que os mercados têm cada vez mais dúvidas quanto à capacidade do nosso pais para “ir gerindo” a divida de modo a não vir a estar a prazo numa situação de não poder continuar a “ir pagando” o que deve pagar.

  7. Jo,
    Portanto, a “solução politica” é manter no sector publico a gestão de empresas de transporte sobre-endividadas e com prejuizos crónicos ?!…
    É uma “ideia” genial !!! 😉

  8. JP-A

    Quando o boneco que gere isto tudo critica risonho na TV os que andaram a maldizer que o governo adiaria pagamentos quando foi o próprio governo que no início da legislatura o anunciou, não há muito para dizer. Portugal corre sérios riscos de se tornar igual ao governo, um país-palhaço. Cereja em cima do bolo: a justificação inicial era para aplicar na CGD, que parece que já não vai a tempo. É juntar as peças.

    Ref. Janeiro 2016: “Governo adia pagamento de quatro mil milhões de euros ao FMI. A imprensa avança que a liquidação só será feita em 2019 e em 2020, já com um novo Governo em funções”

  9. JP-A

    Não digam nada a ninguém, mas os concelhos do Grande Porto estão a dar coices nos que julgavam que iam viver à custa dos arredores.

  10. Muitos portugueses estão a ser magistralmente levados por uma politica que consiste em ir dando a conta gotas e selectivamente algumas benesses ao mesmo tempo que se vai empurrando para a frente a tomada de medidas necessárias para resolver os problemas de fundo do pais !…
    É verdade que “enquanto o pau vai e vem folgam as costas” mas um dia o pau acaba por vir e tudo isto nos vai rebentar nas mãos.
    Como já rebentou em 1978, em 1983, e em 2011 !…

  11. mariofig

    @Luís Lavoura,

    Compreendo como o argumento de “a dívida não se paga, gere-se” possa ser estimulante. E ainda mais estimulante se de seguida decidir seguir o raciocínio que começa a ser defendido por algum setor socialista de que “a dívida não é passivo, mas sim ativo”.

    Se realmente está interessado em estudar os efeitos da dívida pública com mais atenção, aconselho-o seriamente a começar por ler com muita atenção o post do Fernando S. em resposta a si aqui mesmo. Acompanhe cada parágrafo com uma pesquisa aprofundada na internet, ou, melhor ainda, compre um bom livro de economia.

    Vai perceber que a forma como a dívida é gerida pelos credores é ideologicamente neutra. Não é nem de esquerda, nem de direita. Que as taxas de juro, o dinheiro disponível para emprestar ou os serviços para efetuar, e os indicadores de confiança dos credores, são completamente transversais a qualquer ideologia partidária.

    Vai também perceber que a dívida não se paga mas sim gere-se apenas em economias fortes e ricas com melhor capacidade para responder a crises financeiras ou económicas. E é deles que surge essa ideia. Já os países pobres têm de saldar as suas contas e manter a sua dívida pública bastante reduzida porque correm um risco muito maior de entrarem em default e consequente resgate, uma vez que não dispõem de uma economia interna capaz de gerar riqueza suficiente para responder e acalmar credores da mesma forma que os países ricos.

    Vai finalmente também perceber o que significa “exposição”. Que um país mais pobre está mais exposto porque pequenas variações nos níveis de confiança dos mercados afetam com mais força, enquanto que países ricos só ficam expostos em casos de crises mais profundas. E a exposição também aumenta mais rapidamente para países mais pobres quando aumentam a sua dívida. Já um país rico pode aumentar a sua dívida em percentagens mais elevadas sem que isso aumente a sua exposição, conseguindo com mais facilidade manter taxas de juro mais reduzidas e a confiança dos credores.

    Portanto, a dívida gere-se se tem dinheiro para a gerir. Nós não temos. Não somos um país rico. Não siga o raciocínio minimalista e vil de quem anda à muito tempo a tentar convencê-lo que a forma como têm conduzido o país é a melhor. Você já viu com os seus olhos e sentiu com o seu corpo o que é que “a divida gere-se” fez ao país. 3 resgates que nos deixaram na penúria, sem salários e cada vez mais pobres! E os desgraçados que vêm nos tirar do resgate é que são os maus? E são também os maus a Troika? Por favor, já chega de ignorar a irresponsabilidade que se chama Portugal. Nem em sua casa você aceitaria alguma vez gerir as suas dívidas como o estado português tem feito.

  12. Luís Lavoura

    Fernando S.

    “Amortizar” é pagar

    Eu sei.

    O problema é voltar a contrair novos empréstimos para substituir o que se vai pagando.

    É o que o Benfica tem feito e pretende continuar a fazer. Sò pretende amorizar poucochinho em cada ano.

    o verdadeiro problema é a divida manter-se elevada.
    Sendo elevada implica um custo financeiro que pesa negativamente sobre o orçamento.

    Vá explicar isso ao Luís Filipe Vieira.

    É um ciclo vicioso.
    Que determina um aumento das taxas de juros.

    As taxas de juro das diversas obrigações do Benfica têm-se mantido estáveis de emissão para emissão.

    A divida pode ser gerida com o nivel actual.
    Mas para isso é preciso que os juros não aumentem
    Isto é, é preciso que os investidores, os mercados, acreditem na eficácia da politica

    Pelos vistos, os investidores no Benfica acreditam na eficácia da política seguida por Luís Filipe Vieira.

  13. André Miguel

    “Será simplesmente não disfarçar soluções políticas de falsas inevitabilidades económicas para fugir à discussão de idéias.”

    Cantas bem, mas não me alegras. A solução política é sempre a mesma: apresentar a factura ao contribuinte. Dispenso.

  14. Renato Souza

    Luis Lavoura

    Já lhe ocorreu que os diretores do Benfica são mais confiáveis, aos olhos dos credores, que os governantes de Portugal?

  15. Luís Lavoura

    Renato Souza

    Já lhe ocorreu que os diretores do Benfica são mais confiáveis, aos olhos dos credores, que os governantes de Portugal?

    Já me ocorreu, sim. Embora eu não saiba se isso é verdade, pois as obrigações do Benfica continuam a pagar mais juro do que as da República.

    De qualquer forma, não é isso que eu coloquei em discussão. O que discuti foi a questão de que a dívida não se paga, gere-se. E observei que é precisamente isso que o Benfica faz: gere a dívida, não a amortiza. Foi o próprio diretor financeiro do Benfica quem o afirmou, bem claro, numa entrevista na rádio.

  16. LUIS LAVOURA : ” O que discuti foi a questão de que a dívida não se paga, gere-se. E observei que é precisamente isso que o Benfica faz: gere a dívida, não a amortiza.”

    Bom … Num comentário em cima, o Luis disse que o Benfica geria a sua divida “amortizando lentamente”, o que percebi como significando que a reduz aos poucos.
    Agora diz que não, que “não a amortiza” !…
    Não conheço as finanças do Benfica, mas admitamos.
    Se o Benfica paga juros elevados então é porque os credores consideram a situação patrimonial e potencial do clube frágil e não têm uma grande confiança nos gestores do Benfica para a controlar e melhorar.
    E se os juros se têm mantido estáveis é porque os credores não vêm alterações naquela situação nem nenhuma evolução significativa na credibilidade dos gestores, para melhor ou para pior.

    No caso da Républica portuguesa (que não se confunde completamente com um mero clube de futebol, por maior que seja), o facto dos juros da divida publica terem vindo a subir regularmente desde que se percebeu que haveria uma mudança de governo e de politica na sequência das eleições politicas de Outubro de 2015 mostra que os credores consideram que a situação do pais piorou e que a credibilidade do governo baixou relativamente ao que acontecia antes, com o anterior governo.

    Quando uma divida não é excessiva relativamente à capacidade do devedor para ir gerando os rendimentos que permitem ir pagando as prestações devidas, então é até possivel geri-la sem a reduzir e sem ser penalizado nos juros.
    Não é o caso da divida da Républica portuguesa : a divida é demasiado elevada relativamente à economia e ao seu potencial.
    Por esta razão é que é indispensável que os governos tenham politicas que visem alterar esta situação, quer apontando para uma progressiva amortização (redução) da divida quer procurando melhorar o potencial da economia.
    Ou seja, neste caso, gerir bem a divida implica, num primeiro tempo, governar de modo a não a agravar e, num segundo tempo, procurar reduzi-la.
    Pelos vistos, vendo a evolução da taxa de juro da divida publica a prazo, os credores têm cada vez mais dúvidas e receios quanto à capacidade do governo actual em fazer uma politica adequada para o efeito.
    O que se compreende fácilmente, mesmo não sendo credor e investidor.
    Como o governo actual se limita a fazer uma espécie de “serviço minimo” de mera gestão da divida publica, basta que se verifique um precalso de percurso (uma alteração de politicas monetárias, uma crise e recessão, um choque energético, uma guerra, etc) para que o pais se encontre mais uma vez numa situação critica !
    Gerir bem é também, e sobretudo, precaver o futuro !!

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