Summit à portuguesa

O meu artigo no ‘i’ de hoje.

Summit à portuguesa

A Web Summit foi uma oportunidade para quem precisa de um investidor. Mas a sua realização em Lisboa foi utilizada pelo governo para convencer meio mundo de que Portugal é um excelente país para se iniciar um negócio, e Lisboa uma cidade fabulosa para um empreendedor ficar no Bairro Alto até às quatro da manhã, dar um saltinho à Ericeira, onde surfa uma onda, almoçar no Chiado, dar um giro pelo Príncipe Real e ainda passar pela empresa onde, qual passe de mágica, faz um milagre antes de jantar numa esplanada com vista para o Tejo.

Como advogado, conheço vários empreendedores. Não levam esta vida. Trabalham horas e dias e semanas e meses, sem férias, sem descanso, sem parar. Sem parar de trabalhar, de pagar contas, de se preocuparem.

Um empreendedor sofre. Não recebe subsídios estatais, não beneficia de incubadoras, de programas de aceleração de empresas ou startups, fablabs, e outras inúmeras formas de gastar o dinheiro dos outros. Arrisca o que é seu e espera que alguém se junte a ele. Por isso, sofre. Infelizmente para o próprio, gosta desse sofrimento e não sabe viver doutra forma.

O país quer inovação? Esqueça a praia, as esplanadas e as ajudas estatais. Aposte no equilíbrio orçamental, no pagamento da dívida pública, na estabilidade fiscal, na liberalização do arrendamento e do trabalho e apetreche-se com tribunais que dão resposta a tempo e horas. Dá trabalho? Dá. É mais difícil? É. Mas os resultados são melhores que os tidos com experiências de deslumbramento fácil.

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6 thoughts on “Summit à portuguesa

  1. Num país em que o sonho de muitos país e conseguirem que os seus filhos sejam Ronaldos ou modelos nada surpreende nesta postura governamental.no pain no gain.

  2. mariofig

    Trabalha 60 horas por semana, quando as coisas estão a ir bem. Mais, quando não estão. Desconhece feriados e fins-de-semana, e convence a família que é para o bem de todos, por vezes sem muita convicção porque constantemente se questiona a si, o valor do seu projeto ou se se realmente eles um dia virão a beneficiar. A dúvida é a praia do empreendedor, o medo o seu surf. Costa da Caparica? Pois…

    O empreendedor não recebe salário, mas declara-o. Mente e paga impostos sobre um salário que não vê para reduzir os seus custos de investimento. Os seus funcionários recebem mais do que ele até ao dia que o projeto em que estão a trabalhar finalmente chega ao fim e consegue algum espaço no mercado.

    O empreendedor informa-se. Não vai a Web Summits quando já sabe do tremendo negócio que são apenas para quem as organiza e quando já pesquisou o suficiente para saber que os custos associados não compensam. Quando a esmagadora maioria dos participantes não vêm um investidor em todo o evento e as salas onde eles são colocados juntamente com outros 10 empreendedores são minúsculas e as mesas mal dão para por 1 portátil, eliminando qualquer hipótese de fazer uma apresentação digna e merecedora de todo o esforço, lágrimas e suor que colocou no seu projeto.

    O empreendedor pensa muitas vezes ir embora. Irlanda talvez. Ainda é uma zona hot para TIs, ou o eixo Franco-Alemão. Mas não Polónia. Aqueles polacos arrasam nesta área. São bons demais. E pensa também muitas vezes em África onde tudo faz falta e por isso tem mais valor.

    O Sr. PM está enganado. Tal como diz AAA (e bem!), o empreendedor acha tudo isto uma grande merda. Um país parado na sua incapacidade de promover a criação de negócios e o investimento interno que nem sequer é capaz no momento de chamar investidores estrangeiros para tapar o buraco da falta de investidores nacionais. E parado na sua incapacidade de promover TIs, estando dominado por duas grandes empresas que absorvem quase todo o mercado disponível e só dão espaço aos jovens inovadores e rebeldes. Mas nem todo o empreendedor é, pode, ou quer ser inovador. E nem todo o empreendedor com 44 anos, no máximo da sua capacidade produtiva, é, pode ou quer ser rebelde.

  3. Até que enfim, que leio alguém que desmistifica o mito (ou demitifica a mistificação?) do Websummit. Sem lhe tirar o mérito de poder ter facilitado os contactos entre empreendedores, candidatos a empreendedores e investidores, o modo como foi apresentado e endeusado suscitou-me uma profunda desconfiança. Parece que não fui o único.

  4. Subescrevo.

    * MARIOFIG
    “O empreendedor informa-se. Não vai a Web Summits quando já sabe do tremendo negócio que são apenas para quem as organiza e quando já pesquisou o suficiente para saber que os custos associados não compensam”
    Na mouche!

    Profissional liberal desde sempre e surfista há 27anos, fico estupefacto com o folclore montado à volta da WS, vertente surf e políticos presentes incluídos.

  5. Se em vez do Web Summits da vida não obrigassem os empreendedores a responder pessoalmente por dívidas à segurança social dos 3 primeiros anos de uma empresa (altura do vai ou racha) seria melhor. Num país onde cobrar é quase impossível muitas empresas viáveis têm de fechar pois em tempos de aperto de tesouraria o pagamento à SS não pode falhar mesmo que isso implique não pagar os salários. Estas sim são as barreiras ao empreendedorismo e são bem mais fáceis de resolver do que pagar milhoes de euros a empresas de eventos

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