Nem foi Trump que ganhou, nem a globalização que perdeu

obama-supporters-turn-against-himDe tantas vezes repetida, a teoria já ganhou laivos de verdade absoluta: Trump ganhou graças a uma classe trabalhadora branca e analfabeta que ficou a perder com a globalização. Esta teoria tem vários problemas:

Clinton ganhou entre as classes mais baixas e Trump entre as mais altas
Os grupos de trabalhadores mais afectados pela globalização foram os negros e latinos, que têm qualificações mais baixas e taxas de desemprego mais altas. Estes não votaram em Trump.
– Trump teve mais ou menos o mesmo número de votos que Romney em 2012 e McCain em 2008, dois candidatos que perderam de forma expressiva as suas eleições

Trump ficou à frente porque, apesar de todos os seus problemas, conseguiu manter o eleitorado McCain/Romney (eventualmente com alguns ganhos e perdas cruzadas), enquanto Clinton perdeu 10 milhões de votos em relação à primeira eleição de Obama. Portanto arrisco-me a dar uma razão para este resultado menos politicamente correcta e que, por isso, não verão repetida em mais lado nenhum: a base sociológica que elegeu Obama não se deu ao trabalho de ir votar para eleger uma mulher branca.

Anúncios

13 thoughts on “Nem foi Trump que ganhou, nem a globalização que perdeu

  1. De qualquer forma, a respeito dessa análise por grupos sociais (e já agora, imagino que com “analfabeta” o CGP queira dizer “sem formação universitária”, que é o que quase toda a gente quer dizer quando, a respeito dos EUA, fala em “working class”) convém ter em mente uma coisa – não interessa para nada como é que os negros no Alabama, os latinos em Nova Iorque ou os ventures capitalists na Califórnia votaram (mais ou menos um voto nesses Estados não conta para nada).

    O que interessa é a votação nos estados industrias do Midwest/Rusbelt (porque foram esses que decidiram a eleição), e aí penso que a classe operária branca é um grupo demográfico com muito mais peso do que no conjunto dos EUA.

  2. Já agora, repito aqui o comentário que fiz ali acima no post sobre a exit polls (se calhar até é mais relevante para aqui):

    ———————————————

    Vendo as sondagens, parecem dar a razão aos que dizem que o grande efeito Trump foi ganhar votos entre aquilo a que chamam “classe trabalhadora branca”. Os dois maiores saltos face às eleições anteriores foram mais 14 pontos entre os “brancos sem formação universitária” e mais 16 pontos entre quem ganha menos que 30.000 euros (bem, neste ponto não serão só brancos…).

    Agora vejo é pelo menos 3 spins diferentes que possam ser dados a isso:

    Apoiante de Clinton desde as primárias – “Trump ganhou com os votos dos setores menos esclarecidos e mais tradicionalistas da sociedade americana”

    Apoiante de Sanders nas primárias – “Os Democratas não conseguiram apresentar um programa capaz de apelar aos interesses de quem devia ser o seu eleitorado – os sectores mais desfavorecidos”

    Apoiante de Trump desde as primárias – “É uma revolta do povo e da verdadeira América contra a elite globalista”

  3. So duas pequenas notas de rodapé

    Afinal na democracia quem tem mais votos e que ganha e tem “direito” de governar?

    Um ex-Democrata / ex-Republicano / ex-Liberal agora com uma nova cara de Proteccionista , fica o mundo a espera quando vai mudar novamente de cara.

  4. “a base sociológica que elegeu Obama não se deu ao trabalho de ir votar para eleger uma mulher branca.”

    Que bem visto, que brilhante, parabéns!

  5. “Um ex-Democrata / ex-Republicano / ex-Liberal agora com uma nova cara de Proteccionista , fica o mundo a espera quando vai mudar novamente de cara.”

    Essa ideia de que o Trump mudou muitas vezes de posição político acho que é um bocado distorcedora – pelo que tenho lido das posições dele ao longo do tempo, desde os anos 80 até agora, creio que ele sempre defendeu posições de lei-e-ordem e de nacionalismo económico (em tempos contra o Japão, agora contra a China e o México). Ele pode ter mudado algumas vezes em questões como o aborto ou as armas, mas tudo indica que essas questões não são muito importantes para ele – nas questões que ele parece ter centrado a sua campanha, tem tido um posicionamento consistente (se alguém fosse ver as opiniões que eu tivesse, ao longo da vida, expressado acerca de assuntos como, sei lá, porcelana birmanesa, provavelmente também haveria muitas incoerências).

    Isto é, acho que a aparente “cameleonice” de Trump é mais os resultado de ele ter prioridades diferentes das que eram dominantes entra a classe política do que propriamente de incoerência.

  6. Carlos Guimarães Pinto

    Lew Perry, Trump virou Michigan e Ohio porque os eleitores de Obama não apareceram. Trump teve mais 100 mil votos no Ohio do que McCain. Hillary teve menos 600 mil do que Obama em 2008. Assumindo que destes 600 mil viraram 100 mil para Trump, ainda quer dizer que ficaram 500 mil em casa. No Michigan Hillary também perdeu 600 mil votos em relação a Obama2008. Destes, só 200 mil foram para Trump. Os restantes 400 mil teria dado vitória a hillary.

  7. Carlos Guimarães Pinto

    Miguel, é impossível saber que trocas de eleitorado houve, mas a verdade é que mesmo no Midwest/Rustbelt, Trump não obteve muitos mais votos que McCain/Romney. Aliás não obteve votos suficientes para derrotar Obama em qualquer uma das anteriores eleições. Todos esses efeitos do voto branco sem qualificações são esmagados pelo efeito abandono dos Democratas em relação a Cinton.

  8. Carlos Guimarães Pinto

    Miguel, a confirmar-se, sim. Teria que rever a questão. Mas não me oarece pelo texto que isso seja certo.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s