O que é ser liberal – em Portugal ou em qualquer lado do mundo?

Para mim ser liberal sempre foi mais uma atitude do que uma prescrição inequívoca de um dado resultado. Foi e é ser fiel a uma tradição de pensamento com múltiplas raízes, no tempo e no espaço. Tão-pouco gosto de ver confundido o Liberalismo com o Utilitarismo, nem discuti-lo à luz de meros juízos de eficiência (a eficiência é para mim muito mais uma consequência e não tanto uma condição): ser liberal será na minha forma de ver muito mais uma vinculação a valores fundamentais (como a liberdade ou a propriedade) do que deixar-se enredar em discussões maniqueístas. Por esta ordem de razões é que as correntes liberais e os seus pensadores sempre estiveram muito mais focadas no processo do que preocupadas com o resultado. O Liberalismo é por tudo isto muito mais uma forma de ver um mundo em constante movimento – uma janela para o mundo -, uma escatologia aberta, do que propriamente uma ideologia que produz pensamentos e soluções fechadas sobre uma realidade imutável.

É também por tudo isto que, respeitando as diferenças de opinião, tenho alguma dificuldade em rever-me num liberalismo tão rico em soluções inequívocas como aquele que nos apresenta o Luis Francisco Sousa no jornal Público, um liberalismo que circunscreve as opções liberais a uma série de posições em matéria de costumes que, na forma como nos são apresentadas, deixariam Sir Isaiah Berlin com vergonha alheia: é que não me parece muito curial da memória de tão simpática personagem defender-se numa enunciação quase evangélica o conceito de “liberdade negativa” para, logo de seguida, e na mesma linha de pensamento, se prescrever uma cartilha fechada de soluções que em nada diferem, no seu processo de formação, de doutrinas inimigas da liberdade. É que não há uma única posição liberal sobre, v.g., o burkini, a legalização da marijuana, ou o casamento homossexual, sendo muito mais relevante, numa perspectiva liberal, a fundamentação da posição, do que propriamente a posição em si. As posições liberais são também por esta razão menos apelativas e interessantes em sociedades populistas que não valorizam a discussão fundamentada, algo que sacrificam em detrimento de soluções simples e de cartilha. Ser liberal, entre outras coisas, a mim, tem-me dado muito trabalho.

3 pensamentos sobre “O que é ser liberal – em Portugal ou em qualquer lado do mundo?

  1. É dureza ser liberal, e não estou a ser irónico. Viver sem uma cartilha é insuportável para muita gente. E muita dessa gente é insuportável mais a sua cartilha.

  2. A dificuldade em assumir-se “liberal” e a “cartilha” :
    – a mais importante e politicamente nefasta : os ili/anti-berais consideram que ser “liberal” é forçosamente seguir uma “cartilha” “neo” e “ultra” (ou seja, por definição, não há “liberais” diversos e “moderados”) !…
    – a mais irritante mesmo sendo politicamente insignificante : os “verdadeiros” “liberais” (como parece pensar que é este Luis Francisco Sousa género “é-proibido-proibir”) consideram que só é “liberal” quem segue a “cartilha” “doc.” dos guardiões do templo (ou seja, por decreto, os outros são todos “socialistas”, sem transição nem exclusão) !…

  3. Nuno

    Excelente post.
    É de facto difícil ser-se liberal. Manifestar-se contra o salário mínimo, contra a segurança social, contra a “Escola e Saúde Pública”, contra os sindicatos, etc. – para referir apenas os polémicos – e passar por fascista ou insensível social quando nada há a ganhar a não ser no plano das ideias é de valor. Mas não é para qualquer um nem com qualquer interlocutor.

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