Comensalismo político

comensalismo Por razões sobre as quais não vale agora a pena elaborar, tenho gasto algum tempo a ler sobre o comensalismo, a classe de relações entre animais de espécies diferentes – como os tubarões e as rémoras, por exemplo – em que os indivíduos da espécie mais pequena se “sentam à mesma mesa” de um indivíduo de uma espécie maior, obtendo deste último o abrigo, alimento ou facilidade de locomoção de que precisa para sobreviver, beneficiando assim dessa relação mas deixando o “hóspede” em larga medida sem ser afectado, quer positiva quer negativamente. Enquanto o fazia, ocorreu-me que, no fundo, é esse o tipo de relação que o PS pretende ter com o Bloco de Esquerda e o PCP no governo por si formado e com o apoio destes últimos.

Depois de nas eleições de Outubro passado a coligação PSD/CDS ter perdido a sua maioria absoluta mas sem que o PS tivesse conquistado a sua ou sequer ter tido mais que os seus acasalados rivais, António Costa parece ter achado que que o PS “perdeu as eleições” pelo simples facto de não estar ainda no Governo, que “os portugueses” tinham preferido votar no diabo que conheciam em vez de no novo que lhes prometia o Paraíso mas não podia dar garantias de que lá se chegaria, que o PS lhes surgira como uma enorme incógnita enquanto o governo de então, por muito desprezado que fosse, trazia alguma previsibilidade e por isso segurança; e que, se o PS perdera as eleições por não estar ainda no governo, lhe bastaria chegar a São Bento para que o efeito psicológico que impedira muita gente de votar em Costa em 2015 passasse a beneficiar os socialistas numa futura eleição, fosse ela quando fosse. E assim, procurou ser uma espécie de “hóspede” para os “comensais” PCP e BE, sentando-os “à mesa” do Orçamento, acreditando que sairia dessa relação sem qualquer prejuízo junto do eleitorado que, uma vez olhando para Costa como o “diabo já conhecido”, não hesitaria em lhe “dar” a maioria absoluta. Afinal, a convicção de Costa até era plausível: no fundo, foi isso que ele conseguiu em Lisboa, e era apenas e só natural que ele acreditasse que poderia fazer o mesmo no país.

Infelizmente para o Primeiro-Ministro (e, como se verá, também para todos nós), as coisas não são bem assim. Quanto mais não seja, porque as expectativas dos “comensais” não são as mesmas do “hóspede”, e em certo sentido, o estatuto de “comensal” nem sequer é o que aspiram a deter. O Bloco, por exemplo, parece querer que a sua relação com o PS seja de carácter “amensalista“, em que o “hóspede” é prejudicado e o organismo mais pequeno sai incólume: como até é fácil de perceber pela forma como o BE insiste em se pôr em bicos de pés e roubar a iniciativa ao governo (como no caso do “imposto Mortágua”), os bloquistas pretendem que o seu acordo com os socialistas consiga simultaneamente “puxar” estes últimos para “a esquerda” e garantir que toda e qualquer medida encarada pelo eleitorado como popular seja atribuída à “frescura” do Bloco, enquanto toda e qualquer medida que seja impopular seja considerada da responsabilidade do “conservadorismo” e “timidez” do PS. O resultado esperado seria um enfraquecimento eleitoral do PS suficientemente ligeiro para não dar uma maioria a PSD e CDS, mas suficientemente pesado para tornar os socialistas dependentes de um Bloco cada vez mais forte para se manterem no Governo. Mas tal como o PS parece estar a ser excessivamente optimista quanto ao comensalismo político que espera ser a sua relação com o PCP e BE, também o Bloco pode muito bem estar errado ao pensar que ela corresponderá a uma espécie de amensalismo. Na realidade, o “governo da iniciativa do PS” assemelha-se mais a uma relação parasítica, da qual a longo prazo só o PCP sairá beneficiado.

Por não perceberem a natureza dos problemas do país, PS e Bloco estimam mal as consequências do seu arranjo. Ao permitir a comunistas e bloquistas banquetearem-se com uma parcela do festim orçamental, o PS dá-lhes uma oportunidade de saciarem as suas respectivas clientelas, ao mesmo tempo que o apoio parlamentar de BE e PCP aos socialistas estarem no poder e assim contentarem as suas. Mas para o fazerem, têm de manter o Estado e o seu aparelho intacto e inalterado, nem sequer podendo sonhar em fazer qualquer reforma que, mesmo melhorando a relação do Estado com os cidadãos e melhorando as vidas destes últimos, afectasse os interesses estabelecidos de quem está integrado no sistema vigente com o “estado de coisas” tão do agrado de tudo o que é partido político (incluindo, à sua maneira, PSD e CDS). Mas se os portugueses – ou, pelo menos, uma parte significativa deles – não parecem estar muito interessados nessas tais reformas pelas quais os partidos mostram ter ainda menor entusiasmo, não deixam de ficar descontentes com os resultados da sua não-realização; por muito que sonhem com um impossível estatismo de abundância, não deixam de se revoltar com as consequências que decorrem dessa mesma impossibilidade, nem de apontar essa revolta para quem quer que esteja no poder. Como o PS só poderá obter uma maioria absoluta se conseguir o apoio dos eleitores “flutuantes” que oram votam PSD, ora votam PS, ora se abstêm, todo e qualquer sucesso que consigam obter da compra de votos a que entusiasmadamente se têm entregado nos últimos tempos será meramente temporária, uma fugaz glória que se dissipará à medida em que até as clientelas beneficiadas pela sua política eleitoralista comecem a ter de pagar o preço do estatismo irreformado; e o BE, com um eleitorado extremamente volátil, que não só alterna o seu voto entre o BE, o PS e a abstenção, mas também entre o Bloco e o PSD, também acabará por sofrer do mesmo mal.

Já o PCP, para o (seu) bem e para o (seu) mal, vive num mundo à parte. O seu eleitorado pode ser envelhecido, mas é muito mais fiel do que o de qualquer outro partido. Essencialmente identitário, não se deixa levar pelo “ar do tempo” nem por “estados de alma”. As suas clientelas (e a sua força) vivem do poder que a sua implantação no aparelho de Estado (central e autárquico) e nos sindicatos – que a política governamental tem favorecido incansavelmente – lhes dá para distribuir benesses nos seus bastiões. E se em última análise o eleitorado comunista também sofrerá pessoalmente com as inevitáveis consequências do imobilismo reformista, será o único a ter o comportamento que o BE esperaria do seu: atribuirá o mais singelo benefício aos esforços “do partido” (o Comunista, claro está), e toda e qualquer dificuldade ao PS e a sua “traição” à “política de esquerda”. O PCP sairá desta experiência com o mesmo peso eleitoral que vai tendo há largos anos, mas naquilo que lhe interessa (sindicatos, ocupação do Estado, autarquias) sairá reforçado, enquanto que, naquilo que lhes interessa (conquistas eleitorais), PS e BE acabarão por, mais tarde ou mais cedo, sair prejudicados da aventura em que se meteram.

Resta que o verdadeiro prejudicado pelo parasitismo político travestido de comensalismo do “governo da iniciativa do PS” será o conjunto (ainda assim, largo) de portugueses que não tem a sorte de fazer parte de quem (não apenas no funcionalismo, mas entre os muitos “empreendedores” do sector “privado” cuja actividade é na realidade a obtenção de subsídios para “negócios” sem procura que os justifique) vive do Estado e do que ele extrai em impostos ao país. Esses verão, ano após ano, os seus rendimentos diminuírem, sugados por uma máquina fiscal cada vez mais voraz, autoritária e criminosa, com o propósito de dar ao poder político do momento a riqueza que precisam de redistribuir pelas clientelas que dele dependem, e das quais ele depende ainda mais, e, simultaneamente, de manterem junto dos mercados financeiros o crédito suficiente para endividarem o Estado a preços minimamente comportáveis, e com esse propósito, cumprirem as exigências orçamentais que possibilitem a permanência no Euro que dá a Portugal as taxas de juro baixas ou relativamente baixas de que vai gozando, para terem com que poder continuar a fazer essa redistribuição. No fundo, nada de muito diferente do que tem acontecido até aqui. Apenas cada vez pior.

3 pensamentos sobre “Comensalismo político

  1. Basta que haja uma pequena recessão para este arranjo todo se esboroar. Isso acabará por acontecer, ninguém sabe é quando.

  2. Esse raciocínio aplica-se a qualquer organização partidária ou a qualquer coligação.
    Se reparar na anterior coligação a comensalidade foi tal que quase derrubaram o governo na sua luta por lugares de influência. Lembra-se da crise do irrevogável?
    A crise do irrevogável resolveu-se com uma cola chamada poder, aguentou mais três anos. Não vejo razão para a mesma cola, por si só, não suportar a geringonça a legislatura toda.

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