Eminem ou Philip Roth. Qual é a dúvida?

el-burro-y-al-familiaHá tipos que escrevem maravilhosamente (Lobo Antunes). Outros que são grandes contadores de histórias (Eça), outros ainda (tantos) que juntam as duas coisas (Tolkien, Roth, Borges, Vargas Llosa, Auster, Waugh, Allende, Amado, Sena, Garcia Marquez, Twain). Depois há os que não sabem escrever (tantos) mas que se desenrascam e vendem. Há poetas que cantam (Dylan, Morrison, Van Morrison, Borland, Morrissey, Curtis, Cohen, Waters, The White Buffalo) e letristas que poetisam (Tê). Há ainda outros que nem sabem escrever nem contar histórias (Saramago, Pinter, Júlio Magalhães, eu) Mas a Grande Literatura (assim, com maiúscula) é uma constante da humanidade há milhares de anos. Há hoje, em 2016, escritores que serão os clássicos do futuro e não deixa de ter a sua piada que exactamente 100 anos (nem mais um ano nem menos um) após o nascimento do dadaísmo em 1916 no Cabaret Voltaire em Zurique, a Academia Sueca o tenha adoptado.
Quando leio, há uma de duas coisas que me fascinam, ou a escrita ou a história (quando se juntam ambas entro num Mundo que não se explica, vive-se). Há livros que me “colam” só pela escrita, em alguns casos tão bem escritos que me dá vontade de chorar só pela beleza da composição das frases (um grande, grande escritor em português, para mim, é o Francisco José Viegas). Quanto à língua só leio duas e ler Roth, Twain ou Auster no original é um fascínio dificilmente ultrapassável, só comparável a Sena ou Pessoa no domínio da coisa. Como contadores de histórias, Tolkien e os russos, que considero imbatíveis e tenho pena de só conseguir ler as traduções, e há-de nascer quem os bata a contar uma história (um dia destes aprendo russo só para poder ler Tolstoi ou Dostoievski no original). Dito isto, se 100 anos depois o dadaísmo é tendência na Academia Sueca, sugiro Eminem, um letrista fantástico (10-0 ao Dylan), Ice Cube ou Kendrick Lamar. No limite, sugiro darem-me o Nobel pelos meus “tuítes” ou posts no Facebook, mais dadaísta é difícil. De resto os grandes letristas do rock já morreram todos, se não eu abdicava.

3 pensamentos sobre “Eminem ou Philip Roth. Qual é a dúvida?

  1. O Lobo Antunes pode escrever maravilhosamente bem, mas a falar ao vivo é uma autentica coscuvilheira!!! Nunca mais me vou esquecer, que num programa de cozinhados na TV, que passou num canal do cabo, apresentado por um tipo que fala asquerosamente mal em termos asneirentos, mas quando quer, e à borla, come do mais maravilhoso que existe no planeta, chamado Tony Bourdain, esse Antunes, à volta de um papo seco com uma bifana de porco e mostarda, acompanhado de fino, do que se lembrou, foi de dizer ao americano mal do exército português. porque tinham utilizado Napalm em África… O Bourdain, que ao que parecia, estava a adorar a bifana, mas como representante dum exército que trata o Napalm e as bombas atómicas por tu, ficou com vontade vomitar…
    Vir a Portugal por uma bifana é lixado…

  2. mariofig

    O que mais custa nesta decisão é olhar para a literatura Americana com nomes como Philip Roth ou Don DeLillo e observar abismado como estes pelos vistos são menos merecedores de um Nobel da Literatura do que um cantor folk que nem sequer tem sido muito consistente na sua carreira.

    Percebe-se que a Academia Nobel não gosta da literatura Norte Americana. Basta olhar para os últimos 30 anos. Mas dar um Nobel da Literatura a um ao Bob Dylan, escritor e compositor de canções populares, é como estão a dizer muitos Americanos, “adding insult to injury”.

    E depois ouvem-se assim umas vozes estranhas tipo o Miguel de Esteves Cardoso chamar os vários estilos literários de “categoriazinhas de merda” (palavras dele, não minhas). Percebe-se que para o MEC, que já escreveu uns quantos livros de grande sucesso, tudo isto da literatura lhe pareça muito complicado e lhe faça doer a cabeça. Para ele é mais fácil “voltar a confundir tudo” (palavras dele, não minhas) e o melhor mesmo é “regressar à literatura oral” (palavras dele, não minhas).

    Pois é! Na Academia respira-se o tipo de relativismo da cultura pop moderna que o MEC defende, sem valores ou barreiras, onde as denominações perdem o seu valor e as palavras o seu sentido. É assim que passaremos a ter Óscares da Academia para apresentadores no YouTube e Prémios Pulitzer de Fotografia para memes na internet (e melhor se forem gifs animados, porque assim também podem concorrer nos mais prestigiados festivais internacionais de animação).

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