A “Uber” e a revolução digital – Visão de insider

Quem tiver prestado atenção à discussão pública sobre a Uber terá percebido que a tecnologia que esta e outras plataformas estão a usar não é complexa nem exclusiva e está ao dispor do tradicional “serviço ao táxi”. Acrescento, estas tecnologias têm sido apresentadas por mais do que um fornecedor nos últimos anos às várias centrais, empresas e associações de táxis há pelo menos 6 anos. Digo com esta certeza porque estive em muitas destas apresentações e consequentes testes e implementações. Foram implementadas várias soluções em Portugal que facilmente poderiam ter todas as funcionalidades que a Uber tem. De facto em alguns casos estas funcionalidades estariam na aplicação original e foram retiradas a pedido do cliente central de táxi tradicional(a Uber é uma central de táxis digital). Ao contrário do que se possa pensar o sector em Portugal é muito aberto a tecnologias e tem uma história de aposta em soluções informáticas e de telecomunicações. O problema não é serem retrógrados ou avessos à inovação. O problema é viverem em um sector altamente regulado, com regras que foram construídas  ao longo dos anos para garantir rendas em um mercado controlado e protegido. A não implementação destas funcionalidades fazia sentido em um mundo sem Uber. Em um mundo em que conseguiam bloquear a inovação com a ajuda do Estado.

As quatro principais funcionalidades permitidas pela tecnologia há pelo menos 6 anos onde existia resistência por parte do sector eram (1) a atribuição automática do serviço ao táxi disponível mais próximo, (2) o conhecimento pelo cliente não só do número do táxi mas também o motorista e uma estimativa do custo da viajem, (3) a emissão de facturas electrónicas automáticas e por fim (4)a classificação do condutor e da viatura para futura consulta. As razões (1), (2) e (4) são explicadas pela passagem de poder de decisão da central para os clientes. Os (2) e (4) têm a ver com razões de ordem prática a que se soma a discricionariedade que os taxistas perderiam para “maximizar o valor da corrida” ou para “minimizar o custo fiscal”.

O sector do serviço ao táxi aguentou pelo menos 6 anos o avanço das possibilidades da tecnologia que aumentam o poder do consumidor. Dado tudo o que se passou no último ano com a perda sistemática de apoio popular e institucional deveriam estar a pensar em como é que se vão adaptar com o mínimo de dores possível.

A adaptação será dolorosa. O valor que o controlo do mercado tinha é fácil de quantificar. Um alvará para a zona de Lisboa comprado por centenas de euros era transacionado por mais de 100.000 Euros. A renda dada pelo Estado a esta indústria em Lisboa valia por licença mais de 100.000 Euros! Um industrial que tenha 50 alvarás está preparar-se para perder 5 milhões de Euros. Tiveram décadas em um mercado protegido com rendas garantidas pelo município com a concorrência limitada e não vão desistir dele sem dar luta. Pelos acontecimentos e discursos recentes, luta no sentido literal.

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3 pensamentos sobre “A “Uber” e a revolução digital – Visão de insider

  1. Luís Lavoura

    O que o Ricardo Francisco nos está a dizer é que a Uber poderia ter sido criada em Portugal e não foi.
    Ou seja, Portugal poderia hoje em dia ter (mais) uma poderosa start-up, e não tem.

  2. tiagomgcorreia

    Exatamente. Tivesse sido criada à 6 anos atrás e poderiam já ter tentado internacionalizar tornando-se assim concorrência aquela que agora tentam tirar do mercado.
    Chamo a isto ironia do destino

  3. Ricardo G. Francisco

    Caro Lavoura,

    Já sentia falta da sua genialidade interpretativa.

    Tiago Correia,

    As indústrias protegidas em um mercado nunca são competitivas em outros mercados. As variáveis em que têm de apostar não interessam para outros mercados. A rentabilidade da indústria do serviço ao taxi em Portugal dependia da gestão do Estado. E foram excelentes nisso. Esta excelência não é exportável. É o drama da nossa economia. Se o Estado manda em tudo a skill fundamental é conseguir lidar bem com o Estado. Uma skill que vale zero fora de Portugal.

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