Leitura dominical

Turismo nunca mais, a crónica de Alberto Gonçalves no DN.

Talvez por influência da Catalunha, e dos interessantes chalupas que mandam em Barcelona, anda por aí um debate acerca do excesso de turistas sobretudo em Lisboa, um pouco no Porto e não tarda em Salvaterra de Magos. Personalidades de relevo chamam a atenção para a calamidade, com um frenesim proporcional ao relevo que pretendem alcançar. Os media conferem à calamidade a devida histeria. Multidões de anónimos partilham em fóruns (ou fora, para os chatos) testemunhos do horror. Todos juntos procuram responder à decisiva questão: como conseguir menos turismo?

Faz sentido. Numa altura em que todos os indicadores económicos se despenham pelos gráficos abaixo, seria ridículo que um sector destoasse da tendência geral. Enquanto quase pedia desculpa pelo inconveniente, uma secretária de Estado do Turismo já prometeu “afinações” à lei do alojamento local, alegadamente por causa da “preocupação” com a “segurança” e a “higiene”. De facto, as preocupações são outras: tentar levar à falência negócios emergentes e acabar com a vergonha que é ver estrangeiros ocuparem-nos as ruas e deixarem aqui o dinheiro deles.

A intenção é óptima, porém insuficiente. Por muitas taxas, taxinhas e regulamentações que os governantes despejem em cima do assunto, os arrogantes dos estrangeiros não cessam de aterrar por cá, alheios ao carisma do comércio tradicional ou sedentos de descaracterizar o comércio tradicional (vai dar ao mesmo). Para cúmulo, continuam a irritar a irmã de Paulo Portas. A menos que, logo na fronteira, se impusesse um imposto de seis mil euros por cada turista excedentário que ouse pretender entrar no país, a coisa não vai lá por decreto. Sobra a sociedade civil.

A sociedade civil pode fazer imenso pela causa. A começar pelos choferes de praça no aeroporto, que até agora apenas são acusados de acrescentar umas voltinhas ao percurso requisitado. De agora em diante, compete-lhes manter as voltinhas adicionais para os primeiros turistas do dia (o contingente adequado, portanto) e acrescentar voltas de 300 quilómetros para os restantes, os quais, após o percurso Portela-Belém com escala na Figueira da Foz, ficariam sem orçamento para as férias e regressariam de imediato aos países de origem. À Uber sugiro que largue as mariquices e abrace este verdadeiro desígnio nacional.

Aos responsáveis da hotelaria cabe admitir somente uma percentagem escassa de turistas (definida previamente em sede de concertação social) e negar com rudeza quarto (ou ceder um canto nos fundos da lavandaria) à percentagem indesejável. Já os proprietários dos restaurantes têm, literal e metaforicamente, a faca e o queijo na mão: basta servirem sem problemas a quantidade decente de forasteiros e presentearem a quantidade indecente com salmoneloses, bruceloses e botulismos em abundância.

E os cidadãos comuns não ajudam? É só quererem. O que custa ao transeunte fornecer simpaticamente informações a meia dúzia de turistas e correr dúzias com indicações falsas (“A noite em Gondomar é um encanto, principalmente depois das duas da manhã…”) ou meros insultos (“Olha-me este… Vai para a tua terra, boche de um raio!”)? O que custa ao automobilista atropelar ocasionalmente um ou cinco espanhóis de chinelos e mapa perante a indiferença da polícia? E o que custa à polícia inventar transgressões suficientes para destruir as férias de uma família japonesa?

Não custa nada, excepto alguns milhares de milhões de euros que pelos vistos destoavam na nossa gloriosa caminhada rumo à bancarrota. Num instante atingiremos o número perfeito de turistas, que presumo similar ao da Coreia do Norte. E enfim seremos felizes: na Coreia do Norte a felicidade é obrigatória.

6 pensamentos sobre “Leitura dominical

  1. Já aqui tenho abordado o assunto, mas graças a Deus os articulistas da casa não me ligam népia. Por se falar de taxas e taxinhas, como português sinto uma frustração enorme ter de pagar UM EURO DE TAXA se quiser ou SE PRECISAR de ir a LISBOA, conforme ordens da macacada da CML…. LISBOA ESTÁ INFESTADA com gente altamente estúpida, egoista e anormal. Começaram a limitar as idas à antiquada capital do reino e agora querem limitar o turismo. PQP a camara e o governo….

  2. André Miguel

    Joaquim, são vícios antigos, já Eça os descrevia, leia A Capital e vai perceber como os lisboetas há muito são uma espécie aparte na fauna lusa e que muito contribuem para o descalabro na nação.

  3. E a palermice do castelo de são Jorge. Se morar em Oeiras pago 7 euros se morar eem Alcântara nada pago.agora vamos aplicar o mesmo princípio às praias da Caparica ou outro qualquer bem público e o PIB aumentava logo exponencialmente.nem sei como é que a Mortágua ainda não se lembrou disso. Como contribuinte nacional só espero que nem um chavo do orçamento do estado seja aplicado no castelo de são Jorge. Por fim só para lembrar que as receitas da bilheteira são propriedade da egeac para financiar a paneleiragem de Lisboa. Será que é por este facto que a boa imprensa não acha estranho esta discriminação dos portugueses? Alo Raton temos um problema.

  4. Verdade, André, o problema é gente a mais, norte e centro a descontar para a kapital. Uma cidade suja, cada vez mais reles que captou os centros de decisão.
    Curiosamente muitos desses centros já foram para Madrid e outras cidades europeias. Resta à Kapital ficar “apenas” com o nosso dinheiro.

  5. Numa coisa o AG (que não mora em Lisboa, um importante detalhe) tem toda a razão: de facto, não custa nada ao automobilista “atropelar ocasionalmente um ou cinco turistas de mapa” (de smartphone ou tablet, AG, actualize-se!), no meio da rua, de costas para o trânsito, perambulando como se toda a Lisboa fosse uma zona pedonal, sem reparar no carro encostado a eles, a circular como se integrasse um cortejo funerário. O que custa MESMO é evitar atropelá-los (e não me estou a referi à manobra, mas ao controlo do impulso de acelerar).

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