Os impostos na Suécia são mesmo mais elevados do que em Portugal?

O argumento que esgrime o cleptomaníaco fiscal a favor de um aumento de impostos em Portugal é sempre o mesmo: “Vejam, nos países nórdicos pagam mais”. A discussão geralmente perde-se aí, porque a comparação é depois feita comparando taxas marginais e escalões, e nunca o esforço fiscal, medida efectivamente importante. Dito por outras palavras, o mesmo rendimento (p.ex. 3500€), convertido para o poder de compra na Súecia (3500€ na Suécia compram menos bens do que em Portugal porque o preço desses bens é mais elevado lá), paga mais ou menos impostos do que em Portugal?

O Celso Pinto, que tem um background extenso e experiência profissional em fiscalidade, adquirido numa empresa que fundou no UK para tratar da contabilidade fiscal das pessoas, responde a esta questão de uma forma muito simples. A resposta é que paga mais em Portugal. Bem mais. No caso de quem ganha 3500€, que quando convertido em coroas suecas e em PPP equivale a cerca de 45.675 SEK, paga quase o dobro de impostos do que um sueco.

Os detalhes estão aqui.

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21 pensamentos sobre “Os impostos na Suécia são mesmo mais elevados do que em Portugal?

  1. André Miguel

    O que importa não é a carga fiscal, mas o esforço fiscal. E estes imbecis que nos pastoreiam sabem disso, mas omitem propositadamente e o povo engole a patranha. Não nos venham com conversa de merda sobre impostos nórdicos, pois toda a gente sabe (ou devia saber!) que custa bem mais pagar 20% a quem ganha 1000, do que 40% a quem ganha 5000!! E já nem toco na liberdade económica dos nórdicos, senão aí temos de entrar no insulto porque já nos estão a fazer mesmo de parvos…

  2. Se eu receber 3.000€ de ordenado e pagar de impostos 50%, fico com 1.500€.
    Se receber 1.000€ e pagar 28%, fico com 720€. Se os valores dos produtos básicos forem apenas um pouco mais caros no país onde os impostos são mais elevados, vive~-se melhor onde se paga mais impostos, não pela taxa mas pelo rendimento que sobra. O resto, são tontices para entreter os pobres explorados, porque a realidade é o que fica líquido para o contribuinte.
    Com certas leituras, o ideal, o paraíso, seriam os países, onde a miséria é tanta que 90% da população não é colectada.
    As percentagens de cobrança de impostos não podem ser feitas de maneira aérea e de acordo com os interesses momentâneos. A vidinha na Portulândia continua a expandir-se no máximo esplendor.

  3. Há outro factor que não se fala nunca e que é : O que é que os impostos andam a pagar. Melhores agentes de segurança ? Equipamento para os mesmos ? Melhor Saude ? Melhor educação ? Melhores estradas ? Melhores transportes públicos ? ou simplesmente dividas da banca ? buracos orçamentais ? renovações de gabinetes ministreais ? palacios, palacetes e ajudas de custo exorbitantes para governantes ? Ordenados e regalias principescas para os mesmos ? Porque é que se avalia apenas a carga fiscal ? E o resto ? E a forma de viver das pessoas e o seu civismo ? Claro que também existe corrupção e criminalidade e caos social mas garanto que é muito mais contido que por cá.

  4. A PPP não pode ser usada dessa forma. Se deflaciona os salários através de uma PPP, também tem de deflacionar o montante de imposto arrecadado (e, ao fazê-lo, a PPP passa a entrar no numerador e denominador e os dois anuam-se)

  5. Nuno

    As contas do Celso têm bastantes simplificações e assumpções problemáticas, e não me parece que a PPP esteja bem aplicada. Mas também não percebo o comentário do Pedro Romano. A meu ver, a forma como a PPP está aplicada (aos ordenados brutos) quando muito prejudica o argumento do Celso.

    Quando o objectivo é descobrir em que escalão se inserem rendimentos “comparáveis”, não me parece que as coisas se “anulem”, como diz o Pedro. Pode esclarecer melhor?

  6. Nuno

    De qualquer forma, o argumento do Celso também não é grande coisa. O problema de Portugal não são as taxas, ou para onde vai o dinheiro. O dinheiro dos impostos vai para várias coisas. Por exemplo, coisas que custam o mesmo aqui que na Suécia (energia, medicamentos, etc). Também vai para pensões (miseráveis) e para ordenados de funcionários (também baixinhos, quando comparados com os suecos).

    O problema de Portugal é ser um país pobre que gosta(va) de viver como rico, sem ter qualquer tipo de plano para se tornar um país rico. Num país pobre não podemos pagar o mesmo que pagam os ricos, nem podemos ter as coisas todas que os países ricos têm. Isto devia ser uma tautologia, mas parece que não é.

  7. Pedro, o que o Celso faz é pegar num qualquer salário em Portugal e converte-lo, em PPP, para um montante equivalente na Suécia. Depois, vai perceber quanto é que aquele valor absoluto paga em média de imposto em Portugal e na Suécia. Não há nada de errado neste raciocínio.

  8. Importa referir que a Suécia, por exemplo, foi dos países com economia mais livre, portanto mais capitalista, ao longo de metade do séc XIX a meados do séc XX, ou seja vivem da riqueza acumulada nesse periodo. Poupa um bom poupador para um grande gastador ! A ver vamos o que acontece à social democracia nos países nórdicos quando o dinheiro dos outros começar a escassear ! Irão perder a vergonha certamente, como a outra….

  9. E é preciso ver o que os suecos e nós temos em troca do que pagamos. Eu sei que desde há muito ninguém coloca a questão nesses termos, mas essa é a génese da existência de impostos. E por cá temos cada vez menos a troco de cada vez mais.

  10. Do artigo do Celso: “…o melhor que poderia acontecer a Portugal seria a UE decidir acabar com a brincadeira e instalar um governador, preferencialmente um do norte da Europa…”
    De acordo!

  11. – Mário Amorim Lopes considera que o argumento dos cleptomaníacos fiscais carece de fundamentação sólida.
    – Celso Pinto faz uma análise mais robusta que contraria este argumento.
    – Mário Amorim Lopes faz referência a esta análise, mas não resiste a deixar o seu próprio soundbite: “quem ganha 3500€… paga quase o dobro de impostos do que um sueco”.

    42,97 (PT) – 28,9 (SWE) = 14,07 pp (diferença real entre PT-SWE)
    28.9 x 2 = 57,8 (o dobro do que um sueco paga)
    57,8 – 42,97 = 14,83 pp (diferença implícita na frase de Mário Amorim Lopes)

    Ou seja, se um qqer leigo fiscal dissesse que, por hipótese, Portugal e Suécia pagam o mesmo imposto (para 3500€) estaria ainda assim, apesar de errado, a cometer um erro menor do que Mário Amorim Lopes na sua ânsia de contrariar o cleptomaníaco.

    Fico surpreendido por ver alguém c/ formação nas ciências exactas a “forçar” desta forma os números só para ter uma conclusão mais apelativa, mas, sobretudo, fico desiludido por ver de um académico um comentário final com tão pouco rigor (estive para dizer com tão pouca seriedade, mas não tenho a certeza se houve dolo, pode ser simplesmente displicência…). Saudades do tempo em que os académicos eram real e devidamente respeitados, precisamente por não se subjugarem ao imperativo mediático, e por prezarem a prudência, o bom-senso e o rigor nas suas intervenções públicas!

    Mário Amorim Lopes poderia simplesmente ter concluído que, ao contrário da “crença geral”, em Pt se paga um imposto substancialmente maior do que para o mesmo valor em coroas suecas e em PPP, e estaria absolutamente correcto, mas suponho que isso não fosse suficiente. Sinal dos tempos… :/ Tentar contrariar demagogia (dos “cleptomaníacos fiscais”) com imprecisão (do MAL) nunca funcionou, e só gera mais ruído. E se este flagelo se circunscrevia aos políticos e à comunicação social, aparentemente agora afecta também a sociedade civil e até a comunidade académica. These should know better…

    Anyway, obrigado pela partilha do artigo do Celso, bastante útil!

    ps – tb me parece que o próprio Celso se “embrulha” um bocadinho nesta questão: em lado algum há dados que sustentem a sua conclusão de que os portugueses pagam quase “3xs mais impostos” que os suecos em equivalente PPP (fez confusão quando fez o salto de “Portanto, recebendo 3x menos paga o mesmo imposto” para “paga 3xs mais imposto”, afirmações que não são, de todo, interconversíveis!)

  12. Caro Jose Quintas, eu disse «quase o dobro». Quase o dobro não é o dobro. É quase. Quanto é quase? Depende. Para mim é o suficiente para justificar um desvio de 14pp. Acresce que isto não é um artigo científico, onde os revisores vão, e bem, ao detalhe da terceira casa decimal.

  13. Jose Quintas

    Caro Mário Amorim Lopes,
    Claro q há sempre subjectividade no “quase”, mas neste caso é tão larga que se torna absolutamente irrealista. Pelo seu critério de “quase” então, por uma questão de honestidade intelectual, também teria que considerar aceitável a afirmação de que as taxas de imposto são “quase” iguais nos 2 países (o erro seria dos mesmos 14 pp), o que não faz sentido absolutamente nenhum… Ou a subjectividade do quase só vale para um dos sentidos (neste caso, para o da hiperbolização)?

    De qqer modo, subjectividades à parte, continua a ser surpreendente que uma pessoa com a diferenciação que acredito que o Mário tenha seja capaz de admitir um desvio de 14 pp em matéria fiscal (!) como sendo desprezável. Acho que qqer pessoa sente a diferença de ser taxado a 43%, 57% ou 29%, além de que um desvio de 14pp corresponde “só” a uma variação de praticamente 33% da taxa original (e o Mário sabe perfeitamente que um desvio desta magnitude é enorme)… Mas enfim, vamos todos fazer o esforço de acreditar que o Mário de facto acha que 43% é quase o dobro de 29%.

    Só para terminar, concordo consigo qdo diz que isto não é um artigo científico, e que naturalmente o insurgente não exige o detalhe de um peer review. Mas é precisamente neste ponto que eu esperaria que a comunidade académica marcasse a diferença em relação aos meros comentadores ou aos políticos tantas vezes irresponsáveis e incompetentes que temos; dos académicos espera-se que mantenham um certo rigor qdo falam de temas da sua área de diferenciação, mesmo que em contextos informais, porque é essa a imagem (de excelência, rigor, expertise) que a sociedade guarda da academia. O Mário pertence a uma elite intelectual, as pessoas lêem-no com especial interesse e muitas vezes reproduzirão as suas opiniões acriticamente ou tomá-las-ão em grande consideração para formar as suas próprias (precisamente por confiarem nos académicos), e esta visibilidade pública acarreta naturalmente uma responsabilidade adicional. E se num político profissional já estou habituado a que um “quase” abarque tudo (e por isso é que depois “quase” que cumprimos a metas orçamentais), espero sinceramente que os universitários não nivelem a bitola por baixo e não sigam o mesmo exemplo. O sentido do post anterior era só este: um apelo a que o Mário, no papel de académico tido como diferenciado e respeitado na análise económica que normalmente nos traz, não entre no mesmo tipo de afirmações infundadas, pouco rigorosas ou imprecisas de que acusa “o outro lado”. A curto prazo, aquilo que era uma tentativa de esclarecimento acaba por criar confusão adicional na opinião pública; a longo prazo, as pessoas passam a ter dificuldade em distingui-lo de um “político dos quase”, o que é deletério para a academia e, em última análise, para si. Mas pronto, reitero o agradecimento pela partilha do link, e continuação de um bom trabalho aqui n’o insurgente!

  14. Caro Jose Quintas, agradeço-lhe os seus abastados juízos sobre a minha pessoa e o que deverá ser a minha pessoa, especialmente com base no uso que dei ao advérbio quase. Diria que são muitas conclusões e inferências para tão pouca substância. Por fim, porque o advérbio quase não justifica isto, os números efectivos estão lá, pelo que quem estiver descontente com o meu “quase” só tem de consultar os números com precisão de 2 casas decimais. Olhe, mais exactos do que os gráficos que o PM, e não um pequeno post num blog, apresenta na AR.

  15. Miguel Camacho

    Este artigo já peca por demagogo pela conversão de euros em coroas! 3500 euros equivale a +/- 33.500 coroas e nao os 45.000 que apresentam. Vivi na Suécia e paga-se muitos impostos lá, até mais! A diferença é que se ganha muito mais e a segurança social é muito melhor, mas também o prazo maximo de fundo de desemprego é de 4 meses também! Deixem de falar tanto mal de Portugal e achar que os outros é que são melhores…

  16. Luis Martins

    Pergunta de um cidadão português, com interesse em ir trabalhar para a Suécia:

    5500 € ou 6000 € brutos na Suécia, serão suficientes?

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