Da Onça, Lda

Era uma vez o senhor Horácio, que após anos de trabalho juntou algumas poupanças. Um amigo do senhor Horácio trouxe-lhe uma ideia de negócio para as investir. A ideia de negócio pareceu-lhe interessante e decidiu abrir uma empresa, colocando o seu amigo a geri-la. Nasce assim a Da Onça, Lda. Ao fim de alguns meses, o amigo veio-lhe pedir mais dinheiro para investir na empresa: “É para fazer crescer a tua empresa! Estás a investir no que é teu”, diz o amigo. Mais um ano, e ainda sem ver retornos desse investimento, o seu amigo diz-lhe que o negócio está a crescer. Para aguentar o ritmo de crescimento precisa de contratar duas pessoas (por coincidência, a mulher e o cunhado do amigo do senhor Horácio são as pessoas mais bem preparadas para o cargo). E dada a excelente performance, o amigo ainda se atribui um fantástico bónus. O amigo lembra-lhe que a empresa é 100% detida por ele: “É o melhor investimento que podes fazer. Estás a investir no que é teu!”. Passam mais dois anos e o amigo traz más notícias: afinal nem tudo está a correr bem. Vai ter que despedir as duas pessoas que contratou. Sem dinheiro em caixa e a precisar de pagar indemnizações à mulher e ao cunhado o amigo volta-se novamente para o senhor Horácio, mas não sem antes relembrar-lhe: “Esta empresa é tua. Não estás a perder dinheiro: estás apenas a investir no que é teu.”.

Por esta altura o leitor já deve ter descoberto que o amigo do senhor Horácio é um aldrabão e o senhor Horácio um enorme otário por se deixar levar na conversa do amigo e continuar a investir na “sua” empresa. Agora volte atrás na história e substitua “Da Onça” por “Caixa Geral de Depósitos” e o senhor Horácio por contribuinte.

Screen Shot 2016-09-05 at 12.14.49 PM

12 pensamentos sobre “Da Onça, Lda

  1. Parece que a Caixa teve anos em que deu lucro.
    Já é uma diferença dos bancos privados que não são do contribuinte. São os acionistas privados que embolsam os lucros, quando os há, e é o contribuinte que lá põe o dinheiro quando falem.
    Já prenderam alguém no caso BES ou ainda estamos na fase da grande indignação?

  2. JMS

    Eheheheh. Excelente.

    Mas, de acordo com as sondagens, uma parte significativa dos portugueses, além de otarios, ainda têm orgulho nisso.

    Cá estará depois, a maioria da população, para pagar a ignorância e cegueira ideológica de uma minoria, como é hábito.

    E não saímos deste “loop”.

  3. Parece que há pessoas que gostam de pagar pelos erros dos outros (estado).
    Um banco do estado não passa de um instrumento político. Mas às pessoas vai-se dizendo que é para poder controlar o grande capital e outras tretas.

    Se o estado (os governos) não tentasse controlar a economia, não se metia em negociatas com bancos e depois já não seríamos chamados a pagar falências. Portanto, o problema está nos governos que tentam controlar e tirar proveito político do sector financeiro. A cgd é o último exemplo.

    Outro exemplo foi dado por este pm, acosta, que se meteu no negócio do bcp/bpi e a partir da sua intromissão o bcp desvalorizou imenso. Outro exemplo de acosta é o banif. O homem não tem emenda. É um espertalhão mentiroso.

  4. JP-A

    Daqui a não muito tempo a nossa opinião não contará quase nada e teremos saudades os tais quatro anos de austeridade. O caminho até ao precipício vai-se fazendo.

  5. Jo, veja lá que, mesmo com os lucros que a CGD teve, com esta recapitalização a CGD será o banco que mais dinheiro custou aos contribuintes, incluindo BPNs e BES. É digno de nota artística, não é?

  6. ecozeus

    Os contribuintes portugueses, na CGD e em tudo o que é Estado, estão infelizmente rodeados por “amigos da (gering) onça”!

  7. rrocha

    Sim uma ideia inteligente deixar a CGD ir a falência sem duvida a melhor maneira para colocar portugal na maior crise de sempre.
    Ate a tão adorada por estes lados Irlanda fez uma capitalizaçao dos bancos PRIVADOS de 35 Mil Milhoes de euros.

  8. RROCHA : “Ate a tão adorada por estes lados Irlanda fez uma capitalizaçao dos bancos PRIVADOS …”

    Eu também não penso que seria sensato que os governos deixassem de repente e sistemáticamente de socorrer toda a banca, seja ela privada, em caso de risco sério de falência.
    Não nos esqueçamos que a falência de um ou mais bancos importantes, ditos “sistémicos”, para além de poder gerar e alimentar ondas de pânico que se generalizariam a outras instituições com consequências graves para as economias, afectaria ainda directamente milhares ou milhões de depositantes.
    O que se podem discutir são as modalidades dos resgates e os graus de repartição dos fardos.
    Pelo menos tem sido assim e continuará a ser assim enquanto o sistema financeiro e bancário continuar a ser o sector da economia com mais regulação e intervencionismo estatal em absoluto.
    Não nos esqueçamos que uma das principais causas da crise iniciada em 2008 foi precisamente o intervencionismo e a (má) regulação estatal (dos Bancos Centrais e dos governos).
    Não nos esqueçamos ainda que uma causa próxima das dificuldades com que se defrontam actualmente muitos dos bancos (sobretudo na Europa) tem a ver com regras bancárias mais rigidas e restritivas impostas pelas entidades reguladoras (o BCE e a UE).
    É certamente desejável que tudo isto evolua no futuro, que a regulação do sector seja menos tentacular mas de melhor qualidade e, sobretudo, que os governos intervenham muito menos na economia e na finança.
    Num quadro geral deste tipo, os bancos e as entidades financeiras teriam mais liberdade de acção e, em correspondência, os agentes económicos, todos eles, dos investidores aos bancos passando pelos clientes e depositantes, estariam à partida prevenidos e cientes das respectivas responsabilidades pelo que a vida e a morte dos bancos já não estariam tão condicionadas e dependentes de intervenções e resgates com dinheiros públicos.
    Mas, actualmente, o histórico anterior de regulação excessiva e de má qualidade e de intervencionismo estatal abusivo faz com que não se possa prescindir de uma fase de transição que pode ainda estender-se durante muitos anos.
    Entretanto, podem continuar a ser necessárias intervenções pontuais dos reguladores e governos para estabilizar o sistema financeiro e bancário.
    Inclusivé num banco publico como a CGD.
    A anomalia na CGD não é a necessidade de uma capitalização.
    Nisto, a CGD não é menos (leia-se “melhor”) do que os bancos privados que têm vindo a ser intervencionados e resgatados (vendo os montantes nela já enterrados e a mobilizar é mesmo “pior”).
    A anomalia da CGD é ser ainda um banco que é detido a 100% pelo Estado, um dos pouquissimos na Europa e nas economias mais desenvolvidas,
    O que é desejável é que a CGD seja privatizada tão cedo e tão depressa quanto possivel, porventura através de modalidades de capitalização que recorram a cada vez mais capitais privados e cada vez menos aos contribuintes.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.