mudou a táctica

“O governo prometeu por o investimento [público] a crescer 4,9% e está a cair…5,2%. Não nos vamos deter nos méritos e deméritos do investimento público. Mas há uma interrogação que fica: como é que três partidos, fervorosos defensores do investimento público, se calam perante uma queda de 11,5% se incluirmos despesas de capital?”, Camilo Lourenço, no Negócios de hoje 29/08/2016.

Analisados os últimos números da execução orçamental, reitero o que aqui tenho vindo a afirmar nos últimos meses: as receitas estão francamente abaixo do esperado (e a sinalizar um crescimento de 0,8% a 1,0% para o conjunto de 2016) e é, sobretudo, a redução observada no investimento público (e de uma forma mais abrangente na despesa de capital) que está a produzir a redução do défice público. Na realidade, a despesa corrente das administrações públicas, em particular a da administração central (e dentro desta a do subsector Estado), vai exibindo um grau de execução compatível para esta altura, se bem que exibindo já desvios orçamentais relevantes, em particular na despesa com pessoal (+3,4% versus previsão de +2,3%) e, acima de tudo, nos gastos com juros (+7,6% versus +4,5%). Pela positiva, sublinha-se na Segurança Social a redução das prestações de desemprego (-14,8% versus -7,0%), facto corroborado pelo menor número de inscritos nos centros de emprego. (Mas, abro um parêntesis neste ponto, há que questionar um aspecto crucial: quantas pessoas deixam de estar inscritas, ou simplesmente não se inscrevem, quando não têm direito a subsídio de desemprego?)

Ora, no presente exercício orçamental, afigura-se evidente que o investimento público faz parte – certamente tem feito parte – da estratégia de consolidação das contas públicas o que, dados os partidos que suportam o Governo em 2016, não deixa de constituir o maior cinismo político e uma terrível ironia do destino. Mas face ao demais só assim se sairá do procedimento por défice excessivo este ano, o que será feito à tangente e com o inconveniente de não reduzir o défice estrutural conforme exigido por Bruxelas, apenas adiando despesa que, mais cedo ou mais tarde, acabará por surgir nos livros do Estado (e criando condições para novo PDE logo depois). Resta saber se a contracção do investimento público este ano, e com ela os resultados até agora obtidos, é deliberada (para obter os números estabelecidos em Bruxelas) ou se é acidental (porque não há ainda fundos do PT2020 a chegar ao terreno). E qual o impacto final no crescimento da economia e na estratégia macro do executivo. A propósito deste enigma, não deixa de ser curioso que nas últimas semanas o sempre tão palavroso ministro do Planeamento (adoro esta designação!) e das Infra-Estruturas, responsável pelos fundos comunitários e apontado nos bastidores como o sucessor do actual ministro da Economia, tenha andado tão arredado da lide pública…Sabe-se que a taxa de compromisso dos fundos do PT2020 está a avançar a bom ritmo. Mas como estão as taxas de execução, de realização e de pagamento??

Regressando ao exercício orçamental, o mais interessante é analisar a forma como a táctica se vai adaptando às críticas dos observadores, bem como as consequências que vai produzindo no próprio exercício. Durante o primeiro semestre acumularam-se atrasos nos pagamentos aos fornecedores do Estado, quebrando uma tendência plurianual que só ficava bem ao País. O Governo foi fortemente criticado por isso e ainda bem. Agora que toda a gente já viu isso – e o condena –, a táctica passou a ser outra: vai-se acumulando dívida, pagando com dívida. E, de facto, de todos os dados que saíram em Agosto em matérias de finanças públicas o mais relevante foi o agravamento da dívida pública. Segundo o IGCP, o endividamento da República Portuguesa (quer a bruta quer a líquida de depósitos…depósitos feitos de dívida!) aumentou para um novo máximo histórico, situando-se agora em 131,6% do PIB. Mais: o custo de financiamento associado à emissão de dívida pública está a aumentar face a 2015 e, mais ainda, o peso de investidores residentes no seu financiamento também tem vindo a aumentar. Coincidência ou não, entre Maio e Junho deste ano o endividamento da administração central aumentou em mais de 2500 milhões de euros. Sem surpresa, o País está novamente no radar pelos maus motivos. E a avaliar pelos sinais que BE e PCP vão dando em relação ao OE2017, ainda que porventura tétricos, a situação não está para melhorar.

17 pensamentos sobre “mudou a táctica

  1. rrocha

    Sem por em causa os dados do Seu post mas nao posso deixar de chamar atençao a esta parte :
    “(Mas, abro um parêntesis neste ponto, há que questionar um aspecto crucial: quantas pessoas deixam de estar inscritas, ou simplesmente não se inscrevem, quando não têm direito a subsídio de desemprego?)”

    No tempo da Paf todo aquele que se referisse com este tipo de duvidas sobre os numeros de IEFP era logo chamados de “escumalha vermelha” mas agora ate o Sr. Ricardo Aroja tem duvidas.

    Sera o Sr. Ricardo Aroja “vermelho” ?

  2. Nos tempos da PAF tambem existia o “desemprego real”, que chegou a ser estimado em 25% da populacao activa, bem superior ao que era estimado pelo INE.

    Agora o “desemprego real” desapareceu e as estatisticas do INE voltaram a ser aceites como validas. Misterios……

  3. rrocha

    Mistérios e copos ora “meios cheios” ora “meios vazios” a muitos

    Nao foi só a esquerda que mudou o discurso a direita também o mudou

  4. André Miguel

    Está aqui o artigo original para quem quiser perceber o que nos espera no final do ano:

    http://www.eleconomista.es/firmas/noticias/7787876/08/16/Portugal-ejemplo-de-politicas-populistas.html

    Destaco esta passagem demolidora:

    “¿Pueden los adalides de las medidas populistas explicar lo que ocurre en Grecia y Portugal? Por supuesto: conspiración europea orquestada por Alemania, por la derecha. Jamás los populistas nos hablan de avanzar en la senda del crecimiento, de la creación de empresas y puestos de trabajo, de cuentas públicas saneadas, de lo posible económicamente y no de lo imposible. ¿Cuántos ejemplos más para que la opinión pública se de cuenta de lo que significa: “Estado, tú pagas”?

  5. RRocha,

    Nao se trata de mudanca de discursos. Aquando o anterior governo, o desemprego efectivamente desceu. O PS e companhia em vez de tentar perceber porque, saiu-se com “desemprego real”, emigracao, etc….

    Agora que o PS esta’ no governo, o desemprego maravilhosamente e’ o que o INE diz. Isto e’ desonestidade pura e simples.

    Quanto a’ direita ter mudado de discurso, o “desemprego real” supostamente incluia tambem quem desistiu de procurar emprego, quem estava descontente com o emprego que tinha entre outras consideracoes. E isto foi criticado porque e’ dificil de medir e extremamente subjectivo.

  6. As minhas dúvidas: mesmo para quem não está inscrito como desempregado no fundo de desemprego, não tem o Estado via de controlar a situação via Finanças, IRS e número de contribuinte ou por passagem à situação de reforma?
    Não terá o Estado também possibilidades de descobrir quem ganha 1000 e só desconta sobre 600?

  7. O RRocha escreveu “mistérios e copos ora “meios cheios” ora “meios vazios” a muitos” e escreveu mal. Aquele a escreve-se com agá, assim: há.

  8. rrocha

    “O PSD considerou esta quinta-feira como “maus” os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) que indiciam uma manutenção em maio da taxa de desemprego nos 11,6% e desafiou o Governo a inverter “rapidamente” a sua estratégia económica.

    Esta posição foi transmitida pelo vice-presidente da bancada social-democrata Adão Silva, depois de o INE ter divulgado na sua estimativa provisória que a taxa de desemprego em maio, face a abril, terá ficado inalterada nos 11,6%, recuando 0,8 pontos percentuais relativamente ao período homólogo.

    Perante os jornalistas, o dirigente do Grupo Parlamentar do PSD classificou como “maus” os dados do INE sobre a evolução do emprego em Portugal.”

    Faço notar :“maus” “estimativa provisória” “recuando 0,8 pontos”

    “A taxa de desemprego fixou-se em 10,8% no segundo trimestre, de acordo com valores estimados pelo Instituto Nacional de Estatísticas (INE). Este valor traduz uma descida em relação ao trimestre anterior de 1,6 pontos percentuais e uma redução de 1,1 pontos percentuais face ao mesmo trimestre do ano passado.”

    Faço notar “descida” “1,6 pontos percentuais”

    fico a espera que o Sr. Adão Silva venha a publico corrigir as suas declarações anteriores só para ser diferente da “mudança de discurso”

    http://observador.pt/2016/08/10/taxa-de-desemprego-baixa-para-o-valor-mais-baixo-desde-o-primeiro-trimestre-de-2011/

    http://observador.pt/2016/06/30/psd-considera-maus-os-numeros-do-desemprego-em-portugal/

  9. Desta vez estou de acordo com o Governo do Costa: reduziu a despesa pública. Sendo um corte no investimento é menos Estado na economia.

    É mais uma mentira da geringonça mas, neste caso, ainda bem que não cumprem essa promessa.

  10. lucklucky

    “Mas há uma interrogação que fica: como é que três partidos, fervorosos defensores do investimento público, se calam perante uma queda de 11,5% se incluirmos despesas de capital?”

    A interrogação que fica não é três partidos Socialistas e Comunistas estarem calados sobre a “Austeridade” que fazem é os jornalistas com excepção do autor estarem.

    São os Jornalistas que supostamente informam.

  11. Bom post para apontar à geringonça uma das razões para o menor crescimento observado, da próxima vez que eles vierem culpar Angola ou China.

  12. OBSERVADOR citado por RROCHA : ““O PSD considerou esta quinta-feira como “maus” os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) que indiciam uma manutenção em maio da taxa de desemprego nos 11,6% e desafiou o Governo a inverter “rapidamente” a sua estratégia económica.”

    O desemprego vinha baixando regularmente desde meados de 2013.
    Em parte graças à emigração.
    Mas também e sobretudo graças à criação de emprego.
    Com pequenas oscilações, esta tendência está hoje práticamente estagnada.
    E a criação liquida de emprego até passou entretanto a ser negativa.
    Não admira : com o novo governo a confiança dos investidores na economia é hoje menor e o investimento voltou a decrescer.
    Não é por acaso que a taxa de crescimento da economia portuguesa é hoje inferior à média europeia (que já é baixa) e, na melhor das hipóteses, metade do que era com o governo anterior.
    E foi a mudança de governo e de politica justificada como sendo o que iria permitir que a economia portuguesa crescesse mais e com menos desemprego !!!…
    Está a acontecer exactamente o contrário … e, infelizmente, o pior ainda está para vir !!!!

  13. rrocha

    Sr Fernando S

    A 1ª noticia e referente a uma estimativa

    “INE ter divulgado na sua estimativa provisória que a taxa de desemprego em maio”

    o valor que o INE divulga em Agosto são os valores finais com uma redução

    “Este valor traduz uma descida em relação ao trimestre anterior de 1,6 pontos percentuais e uma redução de 1,1 pontos percentuais face ao mesmo trimestre do ano passado.”

  14. Pingback: O plano B é meter na gaveta o plano A! – O Insurgente

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