Por um fio

Alguém devia enviar ao Sr. Fergus McCormick a declaração ontem proferida pela D. Ana Catarina Mendes, estabelecendo peremptoriamente que para o ano é que é «o país está (…) a voltar a um ciclo de crescimento após um longo ciclo de políticas erráticas e de austeridade», e isto tudo a propósito dos dados mais recentes da economia portuguesa.

O Sr. McCormick, para quem não esteja a par, é o vice-presidente da DBRS e responsável directo pela área da avaliação de risco dos soberanos.

A DBRS é a única das quatro agências de rating que avaliam periodicamente Portugal que conserva uma notação para dívida pública portuguesa acima do «lixo».

No caso de a DBRS se juntar às outras três, o BCE, quer dizer, o Banco de Portugal por sua conta e risco exclusivos deixa de poder continuar a comprar as montanhas de dívida pública portuguesa que vem comprando, as taxas de juros disparam, o governo converte-se à austeridade, a geringonça muito provavelmente estala, nós muito provavelmente somos ejectados dos (odiados) mercados e, com sorte, somos resgatados, eventualmente por uma troika que, legitimamente desconfiada deste manicómio que não se governa nem deixa governar de Portugal, só avança com a massa contra uma revisão constitucional que permita pôr termo ao deboche financeiro em que vivemos há 43 aninhos fazer consolidação orçamental a sério. «Ai sim? Quem manda aí são vocês? Pois ide ao Totta».

Vejo já uma série de pessoas honestas e verdadeiramente patrióticas a esfregar as mãos, a torcer para que venha a troika. A sério: duvido que o sistema político aguente um novo resgate. Mas passemos.

E a que propósito vem a DBRS numa tarde amena de Agosto?

Vem, porque o Sr. McCormick quis ser amigo de Portugal e decidiu avisar que «os dados do PIB do segundo trimestre revelados na sexta-feira aumentaram a nossa preocupação relativamente às perspectivas de crescimento, que parece continuar a abrandar no terceiro trimestre».

Ora, a dívida pública portuguesa está de momento com um outlook estável, «mas», com o crescimento a desaparecer, «estão a aumentar as pressões vindas de várias frentes».

Várias, além da falta de crescimento em si?

A 21 de Outubro, lembra o Sr. McCormick, a DBRS reverá a sua avaliação de risco à dívida pública portuguesa e, não por acaso, isso acontecerá seis dias após o prazo para Portugal apresentar a Bruxelas medidas adicionais de consolidação no valor de 460 milhões de euros (0,25% do PIB), capazes de garantir uma «correcção duradoura do défice excessivo». Esse compasso de espera será suficiente para a DBRS avaliar a natureza das medidas apresentadas e o impacto da sua adopção na geringonça.

Saber-se-á por essa altura também já se os contribuintes portugueses serão chamados arcar com os custos de novos reforços de capital na banca, incluindo o anunciado mas ainda não explicado aumento de capital previsto para a CGD.

Apoiarão os partidos da extrema-esquerda essas duas iniciativas? – interroga-se o Sr. McCormick. Não é claro, responde.

Várias, portanto.

Por partes: primeiro as primeiras coisas. E para resolver o primeiro dos problemas que afligem o Sr. McCormick – o do crescimento – talvez pudesse servir a declaração da D. Ana Catarina, onde ela, esquivando, é certo, o problema de fundo, garante, porém, que pode não haver crescimento, mas a taxa de desemprego está muito baixa, não há investimento, mas vai haver, a economia não mexe, com diz o PR na sua linguagem patusca, mas o povo está carregadinho de confiança e a única pessoa que destoa é Passos. (Para os mais cépticos, que julgarão que eu estou a inventar, é abrirem o link lá em cima e lerem a declaração do PS apresentada pela D. Catarina.)

O resto logo se verá, que isto não há como um dia atrás do outro com uma noite pelo meio. E se o Outono que aí vem for quente de escaldar, já estamos prevenidos. Melhora? Não. Mas é o que se pode.

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8 pensamentos sobre “Por um fio

  1. JP-A

    A resposta do PM aos problemas referidos pelo líder da oposição que ganhou as eleições, dada ontem com o habitual sorriso imbecil, foi assim:

    “é o vira o disco e toca o mesmo”

    Este facto surrealista pode ser analisado de vários prismas, incluindo à luz das táticas chico-espertas e da psiquiatria. Honestamente, as características e as abordagens infatiloides deste pseudo-PM começam a assustar-me como sócrates me assustou em 2005 quando tomei conhecimento de que se ia candidatar a PM. Este tipo não deve ter a noção do que representa nos dias de hoje a exposição pública de um PM de um país da UE aflito, o que por si só é outro sinal preocupante!

    Mas percebo o funcionamento da criatura: o que há ele de dizer quando patentemente não sabe nem percebe a dimensão e as coisas, e se limita a estar e a querer manter uma pose de estado que não tem? Mas a culpa não é dele. É de todos aqueles que lhe construiram uma imagem de homem de estado que não será nunca porque concentra tudo o que de pior há numa carreira feita onde a fez.

    Que Deus tenha piedade desta pobre terra.

  2. Tretas

    A DBRS não vai tocar no rating de Portugal, faça o que fizer o governo. Tudo se manterá igual. Esta agência tem a mesma credibilidade para os grandes investidores como a barraca das bifanas da festa da Aldeia. O core business dela são os restos, basta ver a lista do rating. Como o mercado lhe chama, open door rating. Esta entrevista dada salvo erro à Reuters é apenas uma justificação nos juros para a factura que eles vão emitir para o Estado pagar. Já estou a ver o maquinista da geringonça a apresentar mais uma vitória desta vez no rating. Estamos em tempos de sniper e não de atirar em tudo o que mexe. Não meter a oposição a carregar em algo que já há muito foi descarregado.

  3. JP-A

    “No ps anda tudo doido varrido. Mas que raio de pó andarão aquelas alminhas a tomar?????”

    A esquerda desdobra-se em declarações e primeiras páginas de jornal, muito preocupados com o mau desempenho do PSD e de Passos Coelho 🙂

  4. Quereis dinheiro? “Ide ao Totta!”
    Mas isso era dantes. Agora é ao contrário, é o Totta que recebe dinheiro, mesmo muitos milhões de euros, consubstanciados na oferta do BANIF.

  5. Ricciardi

    Estou convencido de que para 2017 o rating das outras três agencias de rating vai melhorar, atendendo à boa execução orcamental.

    Lembremo-nos que em quase cinco anos de políticas erradas do governo paf a notação de risco não saiu do lixo.

    Portugal arrisca-se mesmo a ter o menor défice de que há memória já em 2016 para desgraça das teses pafianas.

    Aproveito o tempo de antena para perguntar aos pafianos de serviço onde esconderam o PSD.

    Seria bom libertar o partido. Como diria o Mario Soares: oh senhor coelho saia da frente. E, já, agora constitua o seu próprio partido.
    .
    Rb

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