Atlas

“A Comissão Europeia autorizou o Governo de Itália a dar 150 mil milhões de avales à banca, no passado domingo. As garantias estatais são dadas como medida de precaução para apoiar os bancos transalpinos. Um porta-voz da União Europeia assegurou ao Wall Street Journal que o programa foi aprovado no âmbito das ‘normas extraordinárias para a ajuda de Estados’. A notícia está a ser avançada pelo site El Economista que cita o jornal norte-americano.” no Económico online.

Há cerca de três meses, o primeiro-ministro António Costa fez as manchetes de domingo ao anunciar a necessidade de estabelecer em Portugal um veículo financeiro que permitisse absorver o crédito mal parado existente no balanço dos bancos nacionais. Fê-lo, contudo, sem especificar detalhes, dando azo a todo o tipo de especulação (sobretudo do Bloco e do PCP que de imediato rejeitaram qualquer ajuda à banca…excepto talvez à CGD que, à luz do que hoje se discute sobre a sua recapitalização, pois claro, é diferente de todos os outros!). Mas ouvindo então as palavras de Costa o modelo de referência era claramente o italiano, que então já se esboçava. E disso dei eu conta no próprio dia num comentário no Jornal 2 da RTP (a partir do minuto 15 do video). A ideia era a seguinte: a) criar uma empresa (o tal veículo) que fosse capitalizada com uma pequena fracção do valor em mal parado nos bancos, fazendo-o com recurso a investidores privados (e, portanto, sem injectar de forma directa dinheiro público no mesmo); b) uma capitalização que permitisse a essa empresa instrumental a tomada de participações no capital de bancos sob stress e, mais importante ainda, a emissão de dívida própria que depois fosse utilizada para adquirir carteiras de mal parado aos bancos, sendo que c) essa dívida teria de beneficiar de uma garantia soberana (colocando assim, ainda que de forma indirecta, “tax payer money” em jogo) a fim de chamar todos à mesa.

No papel, esta construção conceptual parecia ter muitas vantagens. Por um lado, daria conforto aos investidores accionistas do veículo, e também alguma munição imediata para safar um ou outro banco mais pequeno e mais necessitado de capital. Por outro lado, no que seria a sua principal vantagem, concederia ao veículo a capacidade de alavancagem através da emissão de dívida própria a um custo razoável (e tão próximo quanto possível do custo da dívida pública italiana). Dívida esta que possivelmente pudesse também ser aceite pelo BCE como colateral de operações de financiamento; por outras palavras, dívida que fosse transaccionável. Infelizmente, a ideia do veículo italiano tem também grandes problemas. Primeiro, o maior problema de todos, é que além de pôr “tax payer money” em risco, aproximaria o risco soberano ao risco dos bancos, contrariando assim as orientações internacionais que nos últimos anos têm vindo a ser implementadas especificamente com o objectivo de separar riscos soberanos e bancários. E segundo, o efeito anterior seria tanto mais intenso quanto maior fosse o preço pago pelo veículo aos bancos pela aquisição das carteiras de mal parado, porquanto tratar-se-ia de incorrer, potencialmente, no risco de subsidiação dos bancos, a expensas de perdas futuras impostas aos contribuintes. E, perguntar-se-á, que contribuintes? Aos da Itália? Ou aos dos outros países europeus também? A estas perguntas respondeu o governador do Banco de Portugal em artigo recentemente publicado no Jornal de Negócios (31 de Maio), onde defendia o seguinte:

“(…) Uma das medidas essenciais para repor a rentabilidade é extrair do balanço os ativos não produtivos através da venda a terceiros ou da transferência para um veículo que assuma a gestão e a recuperação do respetivo valor. (…) Para cobrir os custos de transferência dos ativos não produtivos, o sistema bancário precisa de capital adicional. Na falta de investidores privados e dada a natureza sistémica do problema dos ativos não produtivos, será necessário um esquema público nacional e europeu que garanta a cobertura das necessidades de capital e que as minimize. Esse esquema poderá ser uma garantia do soberano e uma contragarantia do Mecanismo Europeu de Estabilidade.”

Ou seja, uma garantia pública que, por sua vez, seria garantida por uma garantia europeia, por conseguinte, mutualizando dívida pública nacional. Ora, é precisamente nesta passagem que a coisa parece ter encrencado, pois este é o passo que a Comissão Europeia (leia-se a Alemanha) para já rejeitou. Quanto à garantia pública, pelo contrário, parece-me que a notícia citada no início deste post será já um primeiro sinal de que sendo a Itália a Itália, a Comissão Europeia já terá aprovado o “waiver” necessário à ajuda de Estado (que a notícia diz ser dirigida aos bancos comerciais, mas que na minha opinião provavelmente será dirigida ao veículo). E assim, outros, a começar por Portugal, se seguirão. Mesmo que não se conheça ainda o mecanismo de “pricing” mediante o qual os bancos venderão as suas carteiras de crédito mal parado ao tais veículos. Trata-se aqui de um detalhe crucial e que não pode ser de maneira alguma menosprezado porque, como bem destacou o governador Carlos Costa no seu artigo no Negócios, a venda das carteiras de crédito mal parado por parte dos bancos “[implica] aceitar um desconto relativamente ao valor de balanço líquido de imparidades”. Enfim, cá estaremos para ver isso, não vá acontecer o que por estas bandas sucedeu no passado recente e que obrigou à atenção (porventura insuficiente) do regulador.

Entretanto, o veículo italiano já foi criado. Chama-se Atlante e começou em Abril passado com um capital de 5 bis, numa subscrição de capital liderada por um dos maiores bancos italianos, o Intesa San Paolo. Desde então, o Atlante já safou dois bancos regionais (o Banca Populare di Vicenza e, ontem mesmo, o Veneto Banca). Só que com estas duas intervenções o veículo já esgotou metade do capital inicial… Voltando a Portugal, se o modelo análogo for o italiano tal traduzir-se-á na criação de um equivalente veículo “Atlas”, dotado de sensivelmente 300 milhões de euros de capital próprio (para um universo de crédito mal parado que, oficialmente, ronda os 20 bis). Estes 300 milhões de euros seriam em tese subscritos pelos principais players em Portugal, tendo o conforto de um aval do Estado português de 8 a 9 bis (assumindo que no modelo análogo é o veículo, e não os próprios bancos, a poder beneficiar do aval público, o que não é ainda claro a avaliar pelas notícias).

E aqui chegados, restam três interrogações finais. Primeiro, que “firepower” terá o nosso Atlas tendo em conta que Portugal é…Portugal? Segundo, como é que o aval será tratado em sede de contas públicas e que impacto terá (sobretudo sem contragarantia europeia) sobre o custo de financiamento da República Portuguesa e por arrastamento de todos os demais agentes económicos? E terceiro, quem é que vai meter a massa inicial? Esta última interrogação é existencial e concorrente à criação do Atlas, porque ao contrário de Itália, onde os bancos mais frágeis são em geral os mais pequenos, em Portugal os mais frágeis são os maiores. Precisamente aqueles que deveriam tomar a liderança na subscrição do capital inicial do veículo…

Ps: Sobre a concentração bancária que os responsáveis da banca nacional dizem ser necessária, de facto, há potencial e vantagem num movimento de concentração. Mas, claramente, não é entre os maiores. É entre os mais pequenos.

12 pensamentos sobre “Atlas

  1. Anticapitalista

    E que viva o capitalismo!!!!

    Entretanto, enquanto o autor do post escreveu tudo isto, quantas crianças morreram de fome?????

    Que importam coisas como morte de crianças, se o que urge é salvar o sistema capitalista?l?l?…

    Só que, teorias novas para debilitar de vez esta crise que assola o mundo capitalista desde 2007, não surgem, pelo que continuamos no reino das experimentações, e se não resultarem, sabemos quem vai ter de suportar ps prejuízos – o Zèpovinho, com certeza!!!!…

    Então que viva!…porque sempre houve, há e haverá quem se salve,porque além do Zèpovinho, existem os donos disto tudo e os escribas da corte!….

  2. Não é o capitalismo que está a ser salvo mas sim o socialismo , que manipula ou tenta manipular tudo e todos incluindo o sistema financeiro.
    No capitalismo , quem gere mal sujeita-se á bancarrota . Quem não é competitivo e credível falha e desaparece deixando espaço para outros mais eficientes.
    Fruto da grande desinformação /contrainformação dos media ao serviço dos seus donos , a maioria das pessoas , tal como o sr do 1º comentario , pensam que isto é capitalismo .

  3. Ricciardi

    As necessidades detectadas prlo bp em 2011 para recapitalizaçoes bancárias em Portugal era de 50 mil milhões.
    .
    Se a cgd representa cerca de 30% dos sistema seria de esperar necessidades de cerca de 15 mil milhões.
    .
    Vendo a coisa na optica das necessidades pelas imparidades totais o sistema registadas, que andam pelos 25 mil milhõesa, cgd precisaria de cerca de 7 mil milhões.
    .
    Em suma, se já recebeu uma recapitalização em 2012 no valor de 1,5 mil milhões (creio), o valor de 5 mil milhões que agora se fala não é muito descabido. Já devia ter sido recapitalizada há muito mais tempo. A cgd e todos o outos bancos. Principalmente sabendo que o programa de ajustamento iria arrasar o sistema financeiro devido ao facto de ter precipitado as falências, o desemprego que atingiu 17%, e consequentemente o incumprimento.
    .
    Rb

  4. JoaoMiranda

    RICCIARDI,

    Alguns dos bancos portugueses fizeram aumento de capital em bolsa. Quanto é que investiu?

  5. oscar maximo

    Será que vou ter de concordar com o anticapitalista ? Não sou anticapitalista, sou o mais liberal possível, e acho que se a actividade bancária em geral só dará prejuízo devido á falta de crescimento, é acabar com os truques de engenharia financeira, destinados a adiar o colapso do sistema idealizado pelos economistas dos séculos anteriores. Como sempre, adiamentos só servem para aumentar a bola de neve. É deixar falir os bancos á vontade.

  6. André Miguel

    Pessoas como o 1° comentador não devem estar na posse de todas as faculdades mentais. Basta ver como os anticapitalistas todos os dias salvam criancinhas da fome na Venezuela, Cuba ou Coreia do Norte.
    Os bancos são salvos pelos socialistas, que precisam de quem financie os seus desmandos para a compra de votos.

  7. ANTICAPITALISTA : “quantas crianças morreram de fome?????”

    Toda a gente sabe que a fome que mata no mundo não é uma consequência do capitalismo mas antes da insuficiência e da falta dele, é uma tara do socialismo !!

    ANTICAPITALISTA : “sabemos quem vai ter de suportar ps prejuízos – o Zèpovinho, com certeza!!!!…”

    O “Zépovinho” já tem vindo a suportar os prejuizos dos excessos de Estado nas nossas economias.
    O que os “anticapitalistas” de serviço querem é uma estatização ainda maior à custa do “Zépovinho”.
    Por exemplo, no que se refere à Banca, que é já um dos sectores de actividade mais (talvez mesmo o mais, se excluirmos os monopólios publicos)regulamentado e intervencionado, preferem a nacionalização, que é um prejuizo total e continuado para os contribuintes e os portugueses em geral, do que empréstimos reembolsáveis às condições mais favoráveis do que as do mercado.

  8. André Miguel

    Fernando, você está a falar chinês para o anticapitalista. Eles só entendem a linguagem primitiva dos comunas: morte aos ricos, aos traidores, abaixo o capital e merdas do género. Eles não sabem o que é a razão, o raciocínio dedutivo e a lógica.

  9. Ricciardi,

    «Principalmente sabendo que o programa de ajustamento iria arrasar o sistema financeiro devido ao facto de ter precipitado as falências, o desemprego que atingiu 17%, e consequentemente o incumprimento.»

    Sem programa de ajustamento estávamos melhor, era? Não íamos ter falências, nem desemprego, nem incumprimento, nem, por arrasto, destruição do sistema financeiro? (O tal sistema que emprestava 100% do valor de 1 T2 em Lisboa a um trolha e que agora tem de ser salvo em nome de… de…).

    Ricciardi, por que acha que os imóveis em Lisboa, de 1998 a 2008 aumentaram de preço como aumentaram? Se calhar por haver uma banca irresponsável que emprestava tudo e mais alguma coisa. Não fosse essa banca e a sua irresponsabilidade e os preços teriam reflectido a capacidade de endividamento das pessoas. E depois desta irresponsabilidade vão ser capitalizados à força por todos nós? Para “evitar males maiores”, é? Ou para voltar a estimular a irresponsabilidade? Por mim iam pelo cano. Da próxima a lição estava aprendida.

  10. André,
    Tem toda a razão …
    Mas, na verdade, eu até nem falo para o ANTICAPITALISTA …
    Quando muito procuro falar para alguns daqueles que podem ser eventualmente levados pela conversa da treta e pela demagogia manipuladora dos “anticapitalistas” de serviço !

  11. RICCIARDI : “sabendo que o programa de ajustamento iria arrasar o sistema financeiro devido ao facto de ter precipitado as falências, o desemprego que atingiu 17%, e consequentemente o incumprimento.»

    Sem o programa de ajustamento é que teria havido incumprimento e, consequentemente, o afundamento da economia e o colapso do sistema financeiro.
    Sem o programa de ajustamento, o que significaria que continuavamos a querer gastar demasiado e produzir mal, ninguém estaria disponivel para nos emprestar o dinheiro indispensável para evitar o incumprimento e tudo o mais.
    Não se pode querer ter ao mesmo tempo sol no terraço (consumo e investimento não produtivo elevados) e chuva na horta (financiamento) !!

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