E se pais tivessem ADSE?

É hoje destaque no Jornal de Notícias caso de negligência médica no Hospital Padre Américo, em Penafiel. Ou uma série de erros humanos (sim, médicos não são perfeitos!).

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Durante 3 anos (entre 2010 e 2013) os pais de uma jovem levaram-na às urgências do hospital em 11 (onze!!!) ocasiões. Apesar de recorrentes queixas de dor de cabeça, sete diferentes médicos diagnosticaram ansiedade, nervos ou falsa gravidez, nunca tendo acedido aos pedidos da mãe para realização de exames adicionais, como TAC/RM ao cérebro. Sara faleceu de um tumor na cabeça a 10 de Janeiro de 2013, aos 19 anos de idade.

Fica aqui a questão que já nada resolve neste caso, mas pode ajudar muitos outros portugueses: e se os pais da Sara tivessem a liberdade de escolha permitida pela ADSE?

43 pensamentos sobre “E se pais tivessem ADSE?

  1. tina

    É claro que o cancro teria sido diagnosticado, pois tal como uma médica do SNS me disse, os médicos do privado preocupam-se com a reputação que dão á clínica. Imagine-se que isto se teria passado numa clínica CUF qualquer e a notícia tivesse saído cá para fora, essa clínica ficaria com má reputação por muito tempo.

  2. JP-A

    Se não tivesse começado em 2010 aposto que apareciam logo criaturas a relacionar com os cortes na saúde 🙂

  3. Dervich

    E se os médicos do SNS não tivessem de fazer 50 requerimentos com justificações de cada exame que pedem, mesmo assumindo desse modo a sua baixa produtividade economicista?…

    “Imagine-se que isto se teria passado numa clínica CUF ”

    Melhor que imaginar, há 2 anos fui parar às urgências com a tensão arterial a 25/18 por prescrição desregulada de medicamentos feita por uma médica de uma clínica CUF.
    O médico da urgência resolveu o assunto em 3 tempos e, desde aí, a médica de consulta externa de um hospital do SNS resolve o assunto com uma consulta de 10 min, de 8 em 8 meses.

    É apenas um caso entre muitos outros que não prova nada, assim como o contrário também é verdade.

  4. Tina: posso discordar. Na actividade médica, privada ou estatal, os médicos preocupam-se consigo, em primeiro lugar (mas sempre haverá parvos). Da sua boa actividade depende o seu sossego e o seu trabalho/emprego. Se as falhas forem do «patrão» ficarão sempre mais descansados; sobretudo quando o patrão é o estado. Os empregos podem até ser mal pagos mas o sossego não tem preço.

  5. Ricardo

    Quase sempre concordo e me identifico com as opiniões dos artigos do Observador. Contudo, neste caso parece-me redutor relacionar este(s) mau(s) diagnóstico(s) estritamente com o prestador.

    Num hospital privado poderia haver mais meios, mais recursos, mais incentivo a fazer mais exames, mas é assim tão óbvio que teria feito o diagnóstico correcto?

    Eu, que só percebo de medicina na óptica do utilizador, não consigo fazer essa associação tão directa.

  6. Vasco

    Os privados por buscarem o lucro,
    E talvez porque a doença é lucro
    E talvez tivessem encontrado o Tumor?!
    O SNS publico não ganha mais por encontrar um tumor?!!

    Neste caso o moralmente errado (nas palavras da esquerda: a saúde não é negócio) salvava uma vida.

  7. tina

    “Melhor que imaginar, há 2 anos fui parar às urgências com a tensão arterial a 25/18 por prescrição desregulada de medicamentos feita por uma médica de uma clínica CUF.”

    A minha mãe também andava sempre com pressões desreguladas e a médica dela era do SNS. Está a comparar banalidades com casos de negligência médica gravíssima.

  8. “É apenas um caso entre muitos outros que não prova nada, assim como o contrário também é verdade.”

    Aquilo que vos custa sempre muito justificar é porque é que existindo opção, as pessoas – esses bandidos! – optam sempre pelo privado.

    Essa é que dói fundo…

  9. Conservador

    Que baixo aproveitamento da morte de uma criança para propaganda política… Este post está ao nível de um artigo do Cm.

  10. Dervich

    “Aquilo que vos custa sempre muito justificar”

    Vos custa a quem?!…

    “é porque é que existindo opção, as pessoas – esses bandidos! – optam sempre pelo privado.”

    Não tenho que justificar nada, mas acabei de dar um exemplo perfeitamente contrário, não reparou?!…

  11. João Carneiro

    Um primo meu no mesmo hospital foi diagnosticado como sendo ansiedade, e menos de um ano depois morreu de cancro no estômago no hospital de São João, apesar, se me recordo bem, era difícil de diagnosticar com uma endoscopia.

  12. lucklucky

    O que parece não ter reparado no que escreveu Dervich é que elogiou o Mercado.

    Elogiou a segunda escolha que fez. Coisa que ao mesmo tempo critica.

    A redundãncia, a recompensa a quem faz melhor existe com o Mercado.

    O SNS é uma tentativa de monopólio pelo Socialismo. felizmente incompleto.

  13. Ricardo,
    1. notícia é do Jornal de Notícias, não do Observador.

    2. crítica não é ser o hospital público (também há erros no privado). É os pais desta jovem não terem a liberdade de escolha equivalente à disponível para os funcionários públicos

  14. lucklucky

    Uma das razões para o elogio do privado para lá da inicial- que é liberdade de criar- é liberdade do outro escolher.

  15. Luís Lavoura

    e se os pais da Sara tivessem a liberdade de escolha permitida pela ADSE?

    Que eu saiba, a ADSE não paga exames que não sejam receitados por um médico. Ou seja, se os pais da Sara tivessem decidido fazer-lhe uma RMN ao cérebro, teriam tido que a pagar na mesma do seu bolso.

  16. Luís Lavoura

    Uma RMN custa da ordem de 200 euros. É dificilmente justificável que os pais da Sara não tenham decidido gastar esse dinheiro do seu próprio bolso, se na verdade suspeitavam de uma doença da filha.

  17. jo

    As pessoas são livres de fazerem mais exames do que os previstos nos hospitais privados desde que paguem do seu bolso. É exatamente a mesma política que as seguradoras privadas seguem.
    Na ADSE, e em qualquer sistema de saúde por seguros não lhe deixam fazer os exames que quiser.
    Vá com um seguro médico, com uma tarifa comportável, pedir exames, para além dos prescritos pelo médico, peça comparticipação e veja a resposta que ouve.

  18. Luís Lavoura, os impostos pagos pelos pais da jovem obrigaram a recorrerem àquele hospital. Quem tem ADSE pode escolher não só o hospital como também médico de família. Vê a diferença?

  19. jo, a questão é que se pais tivessem ADSE podiam mudar de hospital/médico se qualidade do serviço não lhes agradava (como nos é informado na notícia).

  20. Luís Lavoura

    BZ,
    qualquer médico de família ou qualquer hospital privado poderia ter feito exatamente o mesmo erro que o hospital público fez. Mesmo que a Sara tivesse a liberdade de recorrer a um hospital privado, poderia ter tido o mesmo azar que teve no hospital público. Há montes de hospitais privados que fazem erros gravíssimos (eu conheço uma rapariga cuja mãe morreu porque foi fazer o parto num hospital privado).

  21. Luís Lavoura

    BZ, repito, uma ressonância magnética custa poucas centenas de euros. Nada justifica que os pais da Sara, se tinham fortes suspeitas de doença na filha, não tenham decidido fazer uma ressonância paga do seu próprio bolso. Não vamos falar de um problema de liberdade de escolha quando aquilo que está em causa são 200 ou 300 euros, que é o preço de uma RMN.

  22. Bruno Igreja, ADSE é financiada pelos contribuintes, via salários dos funcionários públicos comparativamente mais altos que no sector privado. Antes de reestruturação exigida pela troika (aumento das contribuições dos FP) também era financiada por suplementos do Orçamento de Estado.

  23. Luís Lavoura, como disse (e volto a repetir!), a crítica é à falta de liberdade de escolha, não à possibilidade de erro humano.

    E, quanto ao custo maior ou menor duma ressonância magnética para os pais, não tem relevância para o que aqui se discute. Cabe à classe médica avaliar os exames necessários para realizar um diagnóstico. E, para os pacientes que têm ADSE, caberá a liberdade de escolher o médico/hospital. Os pais da Sara claramente não tiveram essa opção.

  24. “Não tenho que justificar nada, mas acabei de dar um exemplo perfeitamente contrário, não reparou?!…”

    Não, não reparei.
    Aquilo em que reparei (tal como o Lucklucky) é que, quando foi chamado a fazer a opção, você optou… pelo privado!

    – “há 2 anos fui parar às urgências [por causa de uma] prescrição desregulada de medicamentos feita por uma médica de uma clínica CUF.”

    Julgo que a consulta em que foi feita a prescrição não foi realizada contra a sua vontade…

    PS.

    “Nada justifica que os pais […] não tenham decidido fazer uma ressonância paga do seu próprio bolso […] o que está em causa são 200 ou 300 euros”.

    Então e a austeridade que mata!?! Então os velhinhos com pensões de fome e as pessoas a buscarem comida nos caixotes de lixo?…

    Agora, sem conhecermos as pessoas ou a sua condição economico-social, “nada justifica” que não tenham disposto de “200 ou 300 euros”?

    Então não tínhamos gigantescas fatias da população a viver na miséria ou à borda dela, em função do vergonhoso neoliberalismo e dos mercados canalhas?…

    Já acabou tudo isso?

    Ah, espera, foi em 2010, ainda não havia pobreza…

  25. lucklucky

    Terry não foi isso que disse e o Dervich diz que escolheu o publico em vez do privado em segunda escolha.

    Dervich tentou desvalorizar o Privado dizendo que todos erram, quando o Privado deve ser valorizado não é porque é perfeito mas porque há liberdade de escolha.

    O que o Dervich não percebeu é que recorreu a essa palavra abominável: Escolha.

    Escolha é a palavra que os apoiantes do Publico querem impedir que exista.

  26. Miguel

    Uma pequena curiosidade…
    É o terceiro caso de negligência que eu conheço envolvendo Saras no Hospital de Penafiel.

    Mas importante mesmo era as pessoas poderem escolher. É que nesse estabelecimento é demasiado recorrente os erros de diagnóstico e tratamento.
    Não desejo nem ao meu pior inimigo ter o azar de ir lá parar.

    Ps: Parece que para os médicos desse hospital ansiedade e histeria são os diagnósticos preferenciais.

  27. “Terry não foi isso que disse e o Dervich diz que escolheu o publico em vez do privado em segunda escolha.”

    Eu sei. Você valorizou a escolha múltipla (ou sequencial) e apontou a incongruência entre essa possibilidade (concretizada) de escolher e a defesa de um monolitismo estatista que a anula.

    Mas eu reagia a uma segunda incongruência que resultava desta troca de argumentos:

    “existindo opção, as pessoas – esses bandidos! – optam sempre pelo privado.”

    “acabei de dar um exemplo perfeitamente contrário, não reparou?!”

    Ora, a verdade é que ele escolheu… o privado. Essa foi a escolha inicial. A 1ª opção. Como é costume. A escolha pelo SNS foi uma 2ª e posterior opção.

    PS.
    É claro que onde está “optam sempre pelo privado” deveria estar “optam quase sempre pelo privado”.

  28. chipamanine, até pode ser que recorrendo a outro serviço de saúde tivessem semelhante diagnóstico (como disse acima, o erro humano não é exclusivo do sector público) mas a questão principal é os portugueses que não são funcionários públicos (com acesso à ADSE) terem impossibilitada a liberdade de escolha quando acreditem não estar a ser bem servidos no SNS.

  29. asCético

    Quer então dizer que os médicos poderiam ter feito mais e melhor nesta situação e só não o fizeram por estarem a trabalhar num hospital público? Neste caso a negligência é duplamente mais grave!

  30. asCetico, não é isso o significado do post. Apenas que a liberdade de escolha semelhante à ADSE dá alternativas aos utentes quando não estão satisfeitos com um serviço. Mas o diagnóstico até podia ser o mesmo…

  31. A liberdade de escolha não pode ser invocada neste caso. O Américo Amorim que é o homem mais rico do país foi operado no hospital de Gaia, o Horácio roque faleceu no são José e não estava aqui em causa a condição de recursos nem seguros de saúde ou afins. O diagnóstico foi mal feito e o erro foi recorrente nos onze médicos deste processo. Faltou alguém pensar fora da caixa e não assumir o banco pintado de fresco metafóricamente falando.no fim coitada da miúda e da família que vivera sempre com esta angústia.

  32. chipamanine, na notícia li que a mãe (especialmente) não estava satisfeita com diagnósticos apresentados. Mas SNS não permite aos utentes escolher outro fornecedor de cuidados médicos. Os exemplos que dás são de pessoas que têm dinheiro suficiente para fazer essas escolhas. O resto (que não são funcionários públicos) que se lixe?

  33. Fernand Personne

    “O diagnóstico foi mal feito e o erro foi recorrente nos onze médicos deste processo. Faltou alguém pensar fora da caixa”

    Não foram 11 médicos, foram 11 deslocações ao hospital – a Sara pode ter sido vista pelos mesmos médicos ou outros.
    Quanto ao resto, talvez os médicos apenas lessem o que colega anterior escreveu no ficheiro clínica da Sara.
    Muita falta de interesse na situação recorrente da doente.
    Por quê tanta resistência do hospital em fazer um TAC/RM?
    Se fosse um aborto era mais fácil…

  34. Médico

    A injustiça de quem não pode fazer as opções dos beneficiários da ADSE é obscena, no mínimo por implicar a existência de um sistema pago também com os impostos de quem não o pode usar. Mas há um lado perverso; a liberdade de escolha tende a “produzir” cidadãos auto-convencidos de doenças várias, que consultam apenas especialistas a bel-prazer e capazes de passar anos a fio ao lado dos problemas reais. A falta de controlo da actividade médica na ADSE agrava ainda mais esta vertente consumista do sistema. No final, após ler a notícia, fico com uma dúvida: em 6 anos, a culpa não pode ser da urgência, mas sim do médico assistente; será que foi consultado?

  35. 2/2

    «BZ,
    qualquer médico de família ou qualquer hospital privado poderia ter feito exatamente o mesmo erro que o hospital público fez. Mesmo que a Sara tivesse a liberdade de recorrer a um hospital privado, poderia ter tido o mesmo azar que teve no hospital público. Há montes de hospitais privados que fazem erros gravíssimos (eu conheço uma rapariga cuja mãe morreu porque foi fazer o parto num hospital privado).»

    Ter o mesmo azar onze vezes seguidas num hospital particular? Os hospitais particulares vivem da reputação. Sem ela acabam. Os públicos vivem de quê? Ah!… Se os hospitais públicos são tão bons por que é que há tanta gente da ADSE a escolher o médico do hospital privado? É um enigma, de facto… Eu sei que há coisas que só se fazem nos hospitais públicos, e em geral a qualidade dos nossos hospitais é alta. Mas há coisas, também, que eu não faço num hospital público. Já fiz uma endoscopia e uma colonoscopia e não escolhi o público, escolhi o privado. Eu bem sei porquê.

    Ainda quanto a ter o mesmo azar no público ou no privado, sabe… há uma coisa chamada psicologia das organizações que estuda certos fenómenos patológicos nas organizações. Há escolas doentes, há hospitais doentes, há famílias doentes, há empresas doentes. Destas realidades, só conheço a das escolas. Conheço escolas públicas e privadas. Nas públicas (tudo infra-licenciatura, claro) os professores andam frequentemente doentes; nas privadas é raro! Nos hospitais não sei, mas já ouvi médicos (não sei se do público se do privado; vi na tv e não guardei memória sobre isso) a queixarem-se de certas aberrações nos protocolos, que às vezes desvirtuam as legis artis, em vez de as tornar praticáveis e eficazes. Não sei se o hospital em causa tem sérios problemas com questões protocolares, comunicacionais, relacionais. Não sei. Fica-me a dúvida. Inclinada para que sim… Mas aguardemos.

    «BZ, repito, uma ressonância magnética custa poucas centenas de euros. Nada justifica que os pais da Sara, se tinham fortes suspeitas de doença na filha, não tenham decidido fazer uma ressonância paga do seu próprio bolso. Não vamos falar de um problema de liberdade de escolha quando aquilo que está em causa são 200 ou 300 euros, que é o preço de uma RMN.»

    Se houver alguém verdadeiramente pobre que precise de 200 ou 300 euros para fazer uma RM, TAC, ou o que for, eu ajudo na medida das minhas possibilidades.
    Agora não quer que sejam os pais da paciente a ser mais inteligentes do que os médicos que estudaram uma carrada de anos, ou quer?!?!?!?!?!?!?!?! É normal que os pais da paciente perguntassem aos médicos “E uma TAC, Sr. Dr.?” “Bem, não vejo necessidade disso”. As coisas passam, e é depois quando se agravam que volta a mesma pergunta. Se a resposta for a mesma, o que é que acha que gente pouco instruída faz? ACREDITA QUE O MÉDICO É QUE SABE!

    Caramba, já só falta pôr a culpa na família da paciente! Só falta dizer que de Medicina eles é que deviam perceber!

    Só uma coisa, se não for indiscrição: o Sr. Luís Lavoura é o Prof. Luís Lavoura físico teórico doutorado no IST?

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