Será cada vez mais difícil sobreviver à destruição que o QE está a causar

812.475 milhões de euros de QE depois (PSPP, Public Sector Purchase Programme, anuanciado a 22 de janeiro de 2015), deveríamos interrogar-nos se a orgia de compras de títulos de dívida pública a que o Eurossistema se entregou produziu, como deveria ter produzido em conformidade com os seus pressupostos, algum efeito.

Inflação euro

Se houve algum, é consideravelmente mais difícil de encontrar do que o Wally. A inflação (Índice Harmonizado de Preços no Consumidor) total era (homóloga) 0,2% há um ano, é hoje -0,1%. Sem energia e bens alimentares não processados (com preços muito voláteis), obtém-se a inflação core, a tendência subjacente à evolução dos preços, e neste caso era 0,8% há um ano, subiu depois ligeiramente e voltou à casa de partida.

Tendo o efeito na inflação corrente sido nulo, devemos perguntar-nos se as expectativas quando ao futuro mudaram. Para os banqueiros centrais, o que os agentes económicos esperam no médio/longo prazo é mais importante do que a inflação corrente.

Se as expectativas estiverem alinhadas com o objectivo para a inflação, isso significa que estão «ancoradas», que os agentes económicos acreditam que a inflação depende e está sob controlo do banco central, e não de «surpresas».

Se estiver, estando a inflação presentemente desviada do objectivo da estabilidade de preços visado pela autoridade monetária (neste caso, ligeiramente abaixo dos 2% ao ano), isso passa a ter pouco significado, é considerado o produto de uma «surpresa», mas os mercados nem por isso deixaram de acreditar na eficácia do banco central.

A partir de 2014, essas expectativas vieram por aí abaixo, e esse facto terá pesado fortemente na decisão do BCE de avançar com a orgia em curso. De modo que é importante saber se as expectativas quanto ao médio/longo prazo melhoraram.

Expectations

Nicles. Ali pela segunda parte de 2015 parecia ainda haver um esboço muito incipiente de inversão das expectativas, mas rapidamente se desvaneceu. Em dezembro, o BCE comunicou que iria intensificar a orgia, e em março cumpriu. Aparentemente, o facto de as expectativas não terem respondido às compras massivas dever-se-ia, na óptica dos banqueiros, à modéstia do programa. O volume mensal de compras passou de um pouco mais de 50 mil milhões para 80 mil milhões, a estação de compras foi alargada em seis meses, devendo terminar (se terminar) em março de 2017, a elegibilidade foi alargada, não fosse a operação esbarrar contra a falta de títulos disponíveis, e eis-nos embarcados num programa ainda mais esmagador de compras de dívida pública… com as expectativas, as sagradas expectativas agora abaixo de 1,5%, o que deve deixar os banqueiros centrais sob a batuta da dupla Draghi/Constâncio insones.

A eficácia do QE aparenta, pois, ser nula. E é aqui que as coisas começam a ganhar foros ameaçadores. É que se a eficácia é nula, como muita gente de bom-senso e sabedoria avisou, os efeitos negativos, corrosivos, deletérios são propriamente – brutais.

Não vou enumerá-los, até porque um deles é de tal modo momentoso que chega. Refiro-me à dilapidação em curso do que foi adquirido em alguns anos de efectiva consolidação orçamental, com a destruição correspondente de reputação, bem patente na evolução do prémio de risco associado à dívida pública portuguesa, desta vez em descompasso completo não só face à Alemanha, mas também à generalidade dos periféricos presentes no mercado. Estamos finalmente mesmo sós (comparar com o salto do princípio do ano passado).

Prémio de risco

Não só o QE não está ter qualquer efeito visível na redução do nível das nossas taxas de juro de longo prazo, como se suporia e, de resto, sucede aos outros, dadas as compras massivas de dívida portuguesa, que já somam nada menos do que 17.700 milhões de euros, como – afirmo, garanto, não tenho qualquer dúvida – está, no nosso caso, a ter o efeito precisamente contrário, ou melhor, e mais rigorosamente: por proteger a exposição do soberano aos efeitos completos da apreciação dos mercados e impedir assim formação normal do prémio de risco, incentiva o laxismo orçamental e até mesmo a bravata da geringonça, que se dá ao luxo de submeter a Bruxelas um Programa de Estabilidade, que assume explicitamente a intenção de violar todos os anos até 2020 o Pacto Orçamental.

Regressar rapidamente à normalidade seria, no nosso caso por certo, da maior importância, para reduzir drasticamente o espaço de manobra do governo. Com os mercados a funcionar normalmente, sem o BCE a distorcer a formação das taxas de juro, pura e simplesmente nada do que se está a passar seria possível.

É fácil imaginar o que nos sucederá, assim que termine o QE, dado o balanço que já levamos em direcção a níveis gregos de taxas de juro. Quanto mais cedo terminar, menos avarias pode a geringonça cometer. Quanto mais se prolongar, mais difícil será superar a prova do fim do QE e da sua possível reversão (revenda dos títulos acumulados), mais tempo a geringonça tem para destruir e mais distante fica a hipótese de conseguirmos evitar no termo disto tudo a morte súbita de um novo encerramento dos mercados para Portugal.

E se o BCE se lembra de voltar a adiar o fim do QE, por entender que a ausência dos resultados visados recomenda apenas a subida de parada? Não é impossível, embora se vá tornando cada vez mais difícil (matéria para outro post).

Estará o BCE convertido em inimigo público n.º 1?

Metralhas 2

8 pensamentos sobre “Será cada vez mais difícil sobreviver à destruição que o QE está a causar

  1. tina

    Que bom post!… É uma situação tão grave e tão pouca gente alerta para o problema. Só serão apontados dedos ao BCE quando já for tarde demais.

  2. > «E se o BCE se lembra de voltar a adiar o fim do QE, por entender que a ausência dos resultados visados recomenda apenas a subida de parada?»

    Thomas Sowell:

    «Quando o Sistema de Reserva Federal começou a criar centenas de bilhões de dólares do ar, eles chamaram de ‘quantitative easing’ da oferta de moeda.
    Quando isso não funcionou, eles criaram mais dinheiro e chamou-lhe ‘quantitative easing 2’ ou ‘QE2’,” em vez de dizer: “Vamos imprimir mais dólares – e espero que funcione desta vez”. Mas já há muito de dinheiro sentados ao redor ocioso em bancos e empresas…

    A religião econômica keynesiana dos velhos tempos sempre diz que a única razão pela qual a criação de mais dinheiro não funcionou é porque ainda não foi dinheiro suficiente criado. Para eles, se QE2 não funcionou, então precisamos QE3. E se isso não funcionar, então teremos QE4, etc. »

  3. jjmalmeida

    Euroland GDP: 13.5 trillion $US
    BCE’s QE: 80 billion eur/mês,
    i.e. 1 trillion $US/ano,
    i.e. 7.5% of GDP / ano.

    É como se o Banco de Portugal imprimisse (para dar a quem vende instrumentos de dívida) 13 mil milhões de eur/ano. Isto vai acabar mal…

    http://data.worldbank.org/region/EMU

  4. Luís Lavoura

    O Jorge Costa continua a desprezar o facto de que a imensa maior parte do dinheiro é criado pelos bancos privados, não pelos bancos centrais.
    O Economist desta semana tem um interessante gráfico que mostra que, apesar de todo o QE, a imensa maioria das libras em circulação continua a ser criada pelos bancos privados.
    O QE apenas substitui parcialmente a menor criação de dinheiro efetuada pelos bancos privados. É por isso que persiste a tendência deflacionista.

  5. jjmalmeida

    o dinheiro criado pelos bancos é destruído (menos o juro) quando os empréstimos são devolvidos. O dinheiro criado pelo QE é eterno. Quando tiver quase toda a dívida pública nos seus cofres (comprada com fiat money) o BCE poderá perdoá-la, ou trocá-la por obrigações perpétuas, sem afectar a economia real. E se vier a inflação ainda mais simples será. A finança é coisa mágica

  6. Luís Lavoura

    O dinheiro criado pelo QE é eterno.

    Falso. O Banco Central pode, em princípio, tanto criar como destruir dinheiro. Quando as obrigações governamentais que comprou atingem a maturidade, pode simplemente não comprar mais nenhumas, dessa forma destruindo o dinheiro.

  7. jjmalmeida

    ?! não comprar não destrói dinheiro. E na maturidade Portugal não paga. Ou melhor, contrai mais dívida para pagar a antiga, como tem feito e fará, sem reembolsar o capital. Ou então re-estrutura a dívida com perpetual bonds, em que “Issuer pays coupons forever, and does not have to redeem the principal”. Ou arranja-se outro truque qualquer.
    E o dinheiro criado a partir de nada (i.e. papel e tinta) na compra das OT continuará a circular: eterno se o carrocel girar eternamente. Se parar vai ser interessante! A finança não tem mágica, tem espelhos e ilusionistas.

  8. Pingback: É para quando, o novo colapso? – O Insurgente

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