Portugal: a trabalhar muito, bom, barato – e com deduções no IRC

Um dos problemas mais graves que Portugal assiste com a Geringonça é a total descoordenação de medidas e anúncios do Governo, que afirmam tudo e o seu contrário, rebentando com a credibilidade e a confiança de quem quer investir. Senão vejam: depois de aprovar uma medida de redução do horário de trabalho para uma parte dos portugueses – os que são pagos directamente pelo Orçamento de um Estado que continua a acumular défices, ano após ano, e que vive um processo de reversão de reformas – o Ministro das Finanças, perante uma plateia de empresários, enaltece os trabalhadores portugueses, que trabalham muito, e são baratos (trabalhando, segundo Centeno, “mais 25% de horas do que os noruegueses e de que os alemães; e sendo, em número de horas de trabalho, concorrentes com o Japão e os EUA”).

Na gíria popular, chama-se a isto “gozar com o pagode”: o Ministro das Finanças assume, assim, sem qualquer problema, que o país deficitário – o público, que ele gere – pode viver à custa de uma mão de obra barata e muito trabalhadora, convidando os empresários a aproveitá-la (ficamos a aguardar sentados às críticas do PCP e dos sindicatos a este apelo à exploração do proletariado trabalhador e “baratinho”).

Pelo caminho, depois de várias vezes se anunciar a subida do IRC, para financiar a Segurança Social, o Ministro das Finanças reconhece que as empresas têm um grave problema de capitalização, defendendo medidas de desagravamento fiscal: “instrumentos orientados para o reforço do capital e quase capital das empresas, (…) importantes incentivos ao recurso aos capitais próprios – como a dedutibilidade destas despesas nos impostos“.

No meio desta total loucura, não há uma alma nos media deste país, ou entre os letrados económicos, que se levante e diga – o rei vai nu, tenha a decência de se tapar, por favor. Há muita anestesia na sociedade portuguesa, que prefere continuar a fingir que não vê o caminho que estamos a traçar. Muito mais haveria a dizer, mas, por hoje, fico-me por aqui. Amanhã há mais.

2 pensamentos sobre “Portugal: a trabalhar muito, bom, barato – e com deduções no IRC

  1. JoaoMiranda

    Ontem anunciaram o aumento do IRS para o alojamento local depois de terem anunciado medidas para promover a reconstrução urbana e de desviarem o fundo da SS para essa área.

  2. Pingback: Portugal bom e barato – O Insurgente

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