Social-democracia? Nem sempre.

Social-Democracia: ideologia política que advoga a transição gradual e pacífica de uma sociedade capitalista para o socialismo, utilizando os processos políticos estabelecidos.(…) A social-democracia partilha as raízes ideológicas do comunismo, mas rejeita a militância e totalitarismo.
Fonte: Enciclopédia Britânica

ng1394011Não há como rejeitar: esta é a definição de social-democracia e encaixa perfeitamente nos partidos de esquerda portugueses, com excepção do Partido Comunista. Tanto Bloco de Esquerda como o Partido Socialista defendem uma transição para uma sociedade socialista através de processos políticos estabelecidos em vez da via revolucionária. A maioria dos deputados de ambos os partidos admitirão sem grandes problemas serem sociais-democratas.

Em 1974, fazia sentido a alguém reformista e liberal como Sá Carneiro ser social-democrata por três motivos. Primeiro porque o país estava suficientemente longe do socialismo para poder ser positivo dar uns passos naquele sentido (desde que não se chegasse ao destino). O Estado tinha pouco peso na economia, na educação ou na saúde, pelo que aumentar esse peso não era algo necessariamente prejudicial. Em segundo lugar porque a alternativa mais imediata era caminhar para o socialismo por via revolucionária (o comunismo). A única alternativa politicamente viável ao socialismo revolucionário, era a social-democracia. Finalmente, porque, pragmaticamente, todos nós sabemos o que acontecia nessa altura a quem não defendesse o socialismo como seu objectivo final. Não sendo possível fazer política com uma bala alojada no crânio, qualquer liberal e reformista, teria que adoptar a social-democracia com alternativa política (e mesmo assim Sá Carneiro acabou a sua carreira da forma que todos sabemos).

Entretanto passaram mais de 40 anos. O estado, que pesava menos de 20% na economia hoje tem um peso acima de 50%. A economia está regulada até ao tutano, ao ponto de existir um serviço de transportes de maior qualidade a preços mais baixos (o objectivo normal da regulação) que é proibido. Os partidos de centro-esquerda europeus (muitos dos quais designados de social-democratas) já desistiram da via do socialismo, escolhendo uma terceira via entre o socialismo e o capitalismo.

Neste contexto, faz sentido a um partido que pretende ser alternativa reformista de direita se continuar a declarar social-democrata? Alguém acredita que se surgisse um Sá Carneiro hoje, com o mesmo espírito liberal e reformista de 74 seria social-democrata em toda a sua plenitude? Depois da falência do país, do sofrimento subsequente, do peso do estado na economia, alguém acredita que o que precisamos é caminhar para o socialismo e não fugir dele a 7 pés? Alguém acredita verdadeiramente que Sá Carneiro defenderia hoje que continuassemos a caminhar para o socialismo?

Uma alternativa ao socialismo não se pode chamar social-democrata. Ou se quisermos que se chame por motivos afectivos e emocionais, então é preciso dar-lhe outro significado qualquer, para que ninguém venha ao engano. Para que ninguém julgue que faz parte da alternativa, quando na realidade é adepto do problema.

Sá Carneiro seria hoje um liberal. Seria hoje aquilo que muitos à esquerda gostam de chamar “direita radical”. Aliás, era disso que o acusavam em 1980.

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11 pensamentos sobre “Social-democracia? Nem sempre.

  1. Os tempos mudaram, as definições também. As musas do passado agora vestem Prada usam IPhone e não trocam isso por “sovietes”. Esqueça os fantasmas apocalípticos da esquerda. Esse discurso já não fatura.

  2. Como caso prático da “migração” para a direita, o partido social liberal na Dinamarca chama-se “Radikale Venstre”, literalmente esquerda radical.

  3. oscar maximo

    Continua tudo na mesma, querem-nos convencer que existe um problema de dívida privada, em vez dos politicos tratarem da dívida que lhes compete tratar. Muita da dívida privada resulta da sofreguidão do Estado em enxugar tudo o que mexe e apresenta liquidez.

  4. ecozeus

    Convém recordar que o “PSD”, no tempo de Sá Carneiro, se chamava “PPD” (partido popular democrático) e que foi com essa designação que o partido genuinamente se afirmou e implantou junto do povo português.

  5. ECOZEUS : “Convém recordar que o “PSD”, no tempo de Sá Carneiro, se chamava “PPD””

    Mas foi também no tempo de Sá Carneiro, em Outubro de 1976, que o nome foi mudado para “PSD”.

    De notar que há documentação pública do PSD que refere a existência, entre outras, de “uma linha Social-Liberal, ligada à Social-Democracia” mas que tem especificidades “que o distingue[m] relativamente aos partidos socialistas ou social-democratas europeus de inspiração socialista.”
    Entre essas especificidades, é referido “que, sendo social-democrata, valoriza o liberalismo político e a livre iniciativa caraterizadora de uma economia aberta de mercado” e que assume que “[] o Estado não deve chamar a si aquilo que os indivíduos estão vocacionados para fazer – ou que podem fazer – garantindo dessa forma um amplo espaço de liberdade à iniciativa e criatividade das organizações da sociedade civil”.

    Eu também acho que seria mais adequado um nome diferente para um partido que tem outras sensibilidades e que na prática politica e no discurso está bem mais próximo de outros partidos “populares” europeus do que dos partidos “sociais-democratas/socialistas”.
    Por exemplo, até o nome anterior, “PPD”, que de resto permaneceu durante muito tempo acoplado com o novo nome (suponho que o partido manteve o direito exclusivo à utilização desse nome inicial), era bem mais apropriado e esclarecedor.
    Mas, dito isto, e enquanto existir no actual PSD e no seu eleitorado fiel e potencial um numero significativo de pessoas que se reclama da “social-democracia” ou sente confortável com o nome actual, compreendo que uma discussão e uma decisão sobre a mudança de nome não seja vista como oportuna e prioritária.

  6. Pingback: Francisco Sá Carneiro – O Insurgente

  7. Luís Lavoura

    Alguém acredita verdadeiramente que Sá Carneiro defenderia hoje que continuassemos a caminhar para o socialismo?

    Mas o que raio é que interessa o que Sá Carneiro defenderia hoje?

    É tão ridículo discutir isso como discutir o que Lenine pensaria hoje, o que Churchill quereria hoje, ou o que Reagan pensaria hoje.

    Todos eles estão mortos e enterrados.

  8. “Todos eles estão mortos e enterrados.”
    .
    Não; muitos ressuscitaram. O Lenine e o Stalin andam por aí. Até o Adolfo e mesmo o Pol-Pot e o Mao ainda mexem e de que maneira…
    E o Fidel? E o Maduro? O Chavez até tem uma placa recente numa preceta da Amadora. E o mais que se verá!… Não, não morreram não. Apenas se transfiguraram.

  9. Renato Souza

    Tem toda razão.
    A imensa maioria dos esquerdistas, embora xinguem a mãe de Stalin da boca para fora, se ajoelhariam diante dele se o vissem vivo, e se disporiam a massacrar tantas pessoas quantas ele lhes pedisse.

  10. História alternativa. – Após atritos e muito desconforto, o PSD acabou por dar origem ao Partido Liberal Republicano. No PSD das raízes ficaram os “velhos do Restelo”, a “brigada cinzenta”, os sociais democratas, a Manuela Ferreira Leite, o Rio e o Pacheco. O novo partido, liberal e moderno, encheu-se de gente nova, criativa e “prá-frente”. Os investidores apoiam, o “circulo” dos media sob a batuta do Fernandes faz as notícias, os “fakes” das redes sociais estão ao rubro e tudo corre pelo melhor. Aliás, como previsto! Previsões da equipa do Gaspar, que conforme é sabido nunca falhou um “target”…
    Finalmente Portugal tem um partido que entende a História, a natureza humana (na sensibilidade fina da Ayn Rand), a livre iniciativa, o valor residual do Estado e a descrença na coisa pública (como nos ensinou o Friedman, a quem o Carneiro nunca ligou puto…). Finalmente, casa arrumada, a social democracia foi pela janela… E tudo correu bem até hoje, dia das eleições. Infelizmente, os burros piegas dos eleitores não entenderam… Ignoraram a mensagem. Continuaram a votar no partido velho e deixaram-nos dois pontos acima do PNR… Grandes bestas…

  11. É um exercício recorrente aqui do Insurgente. Imbuídos por notáveis capacidades mediúnicas, os seus autores dedicam-se a “canalizar” os mortos para concluir que, se fosse vivo, Francisco Sá Carneiro seria um fervoroso neoliberal. Houve um tempo em que até os mortos votavam. Hoje, pelos vistos, fazem campanha pela direita.

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