Uma homenagem a Pacheco Pereira. O de 2005

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Endereço-me a Pacheco Pereira. A Pacheco Pereira de 2016. Para ser mais preciso, Pacheco Pereira de 1 de Maio de 2016, que amanhã não saberemos que versão de Pacheco Pereira será. Se Pacheco Pereira vintage, idos anos 70, que se envolvia em arrufos e calduços em florestas, quando as contendas entre radicais de esquerda eram verdadeiros duelos, e não remoques enviados via iPhone ao sabor de um gin, 12€ o copo; se Pacheco Pereira versão 2005, «perigoso neoliberal» de «direita radical», que rogava por «mais liberalismo, mais liberdade económica, mais espírito empresarial», e que se queixava do «modelo social insustentável». Dado que o modelo social não mudou assim tanto em 10 anos e Portugal não se tornou mais liberal presumo que as críticas se mantenham — quem mudou foi Pacheco Pereira. Recordemos, pois, Pacheco 2005.

Em retrospectiva, Pacheco Pereira de 2005 era um visionário. Com a excepção de duas ou três pessoas, ninguém em Portugal falava de liberalismo, quanto mais assumir-se liberal. E, porém, já nessa altura Pacheco Pereira clamava por uma cura — «mais liberalismo, mais liberdade económica» — para a maleita que assola Portugal já lá vão — e aqui Pacheco pecou por defeito na sua crónica do Público — bem mais do que 40 anos, o socialismo.

Na verdade, é possível encontrar laivos de socialismo que precedem a 3ª República. Já na 1ª República se começa a instalar a estatização e o socialismo económico — a lei do congelamento das rendas, ao contrário do que geralmente se apregoa, surge nesta altura. O enlevamento com o socialismo remonta mesmo às invasões napoleónicas, à revolução «liberal» e à crescente influência da maçonaria e dos jacobinos em Portugal, e sedimenta-se com o Estado Novo — o condicionamento industrial, o proteccionismo económico, o planeamento central, a Câmara Corporativa. Enfim, a estatização da economia, prática comum a quase todos os regimes ditatoriais, da esquerda à direita. Aliás, é durante o Marcellismo que se instala o Estado-providência, que depois acaba por dar origem ao Estado-social moderno. O socialismo atinge depois o seu ponto mais alto, e também de inflexão, com o PREC, levando o país à falência, renovada a cada par de décadas. Pacheco Pereira de 2005 sabe tudo isto.

De maoísta a social-democrata, de social-democrata a liberal, de liberal a socialista, perdão, social-democrata, Pacheco Pereira de 2016, espírito jacobino, montagnard, descreve inimigos e conspirações em todo o lado. Toda e qualquer opinião que saia fora do perímetro estabelecido pela esquerda pensante é, máxima sentenciada, crime de lesa-pátria. E Pacheco Pereira 2016 incorpora esse modus operandus, que procura e automaticamente encontra e crucifica dissidência intelectual.

Vejamos. A «deriva» do PSD e do CDS a que Pacheco de 2016 frequentemente alude, que mais não foi do que a observância, quiçá temporária, de princípios elementares de bom senso — um país falido não tem dinheiro; quando não temos dinheiro temos de «apertar o cinto», já dizia Manuela Ferreira Leite — é vista como um afastamento do socialismo que tantas coisas boas trouxe a Portugal, cuja lista se exaure com 3 bancarrotas em 40 anos e a humilhação de assistir a ex-repúblicas da União Soviética, ainda em pós-convulsão da debacle comunista, a ultrapassarem-nos. Apupemos, portanto, a esses perigosos neoliberais, apoiantes da austeridade que mata, já dizia o Papa Francisco, que ousam saltar fora da cartilha socialista que rege Portugal. Apupemos, pois, a Pacheco Pereira de 2005.

Essa sempre foi, note-se, a especialidade da extrema-esquerda, realidade que Pacheco Pereira dos anos 70 conhece bem: afogar qualquer dissidência intelectual. Recordemos um episódio irónico: quando Zeca Afonso, próximo do LUAR, vai a Grândola cantar «Grândola, Vila Morena», é apupado por militantes do PCP e obrigado a abandonar o palco. Pacheco Pereira vintage, anos 70, então militante do PCP(m-l), grupo dissidente do PCP, que plasmava as tensões estalinistas e maoístas, saberia bem o que é ser-se sectário, ao mesmo tempo que lutaria contra o sectarismo, tudo em prol de um proletariado unido. Não por acaso, cabe hoje ao PCTP-MRPP acusar o PCP de ser um movimento revisionista por ter aderido ao «sistema» e à «brincadeira burguesa» que é o Parlamento, e com isto desistido da revolução. Muitas cambalhotas dadas, cabe, pois, a Pacheco Pereira de 2016 a tarefa de acusar o PSD e o CDS de serem um pouco menos socialistas, quando ele próprio, tempos idos de 2005, desejava o mesmo. Verdade seja dita, todo o espectro fugiu da extrema-esquerda e se recentrou. Que o PS do Tempo Novo tente acantonar-se com a extrema-esquerda é mero lapso anacrónico, que durará tanto tempo quanto o tempo de vida da geringonça, e cairá de podre. Mas, sobre a radicalização do PS, Pacheco Pereira de 2016 não parece ver qualquer problema. Pelo contrário, ai de quem ouse criticar o BE ou o PCP, estandartes do ideário venezuelano.

Pacheco Pereira 2016 vive então atormentado com o pensar diferente, ou melhor, com o pensar diferente do espartilho socialista, que com as diferenças no seio da geringonça parece conviver bem. Crónicas e crónicas afins onde repetidamente se refere a bloggers — essencialmente ao Insurgente e ao Blasfémias — sem nunca ter a coragem de dar nomes, acusando-os de serem «radicais de direita», «perigosos neoliberais», crucificando-os por, lá está, não seguirem a cartilha socialista. Omite os nomes para não os promover, arguirá. Depois, precisamente porque não personaliza a crítica que é, mais do que ideológica, ad hominem, pega num conjunto avulso e distorcido de posições, baralha bem, e chama àquilo de «direita radical». Ficamos a saber que os «perigosos radicais de direita» idolatram Putin, Trump, o MPLA e o Partido Comunista Chinês. A persona está construída, só falta dar nomes. Que liberais apoiam Putin, Trump, o MPLA ou o PCC? Desconheço. Mas isso não coíbe Pacheco Pereira de 2016 de os ver em todo o lado.

E, no entanto, era tão simples traçar o perfil intelectual desses «perigosos neoliberais de direita». Basta, por instantes, que Pacheco Pereira de 2016 se recorde de Pacheco Pereira de 2005: precisamos de mais liberalismo, de mais liberdade, de menor interferência do Estado. Queremos mais liberdade na educação, queremos um Estado social mais justo — que ajude aqueles que efectivamente precisam e deixe os restantes em paz. Queremos um Estado sustentável, que não gasta mais do que obtém em receitas; e queremos que os cidadãos não sejam afogados em impostos, para que possa sobrar algum para o tal «espírito empresarial». Pacheco Pereira 2005 clamava por tudo isto. Que falta fazem a Portugal os conselhos de Pacheco Pereira de 2005.

18 pensamentos sobre “Uma homenagem a Pacheco Pereira. O de 2005

  1. tina

    Muito bem, Mário, uma boa lição de História e princípios. A luz e esperança contra o declínio e morte.

  2. O Paxeco das Peras é sempre igual, isto é sempre diferente como o vinagre. O vinagre tem muitos nomes que vão da pêra à maçã e calcule-se de vinho também se faz vinagre.
    Este Paxeco é igual, com pêra ou sem pêra; antes ou depois, agora ou logo é sempre do CONTRA.
    Está-lhe na massa do sangue e marca o único neurónio que ainda funciona.
    Se alguém diz sim, ele diz não;
    Se alguém diz é verdade, ele diz é mentira.
    Se alguém diz é poucochinho, ele diz é bastante
    Se alguém diz, vira-se à esquerda ele diz vira-se à direita.
    Mesmo quando tomava a medicamentação a tempo e horas era do CONTRA

  3. Mário Amorim Lopes : “… queremos um Estado social mais justo — que ajude aqueles que efectivamente precisam e deixe os restantes em paz. Queremos um Estado sustentável,…”

    Pode-se discutir sobre o tipo e o grau de “liberalismo” de uma afirmação como esta (com a qual eu até estou perfeitamente de acordo) …
    Agora, “radical neo-liberal” (que na terminologia anti-liberal significa “ultra liberal”)” é que não é certamente !

    Faz parte dos métodos de propaganda da esquerda, e até de uma certa direita “idiota”, procurar apresentar uma direita politicamente “moderada” (até por congregar transversalmente diferentes sensibilidades, nem sequer predominantemente “liberais”) mas no momento mais empenhada no rigor das contas públicas e nalgumas reformas liberalizadoras … como sendo radicalmente ultra liberal, isto é, extremista.
    Mas não creio que as pessoas de esquerda mais conscientes acreditem verdadeiramente no que dizem e escrevem e não saibam perfeitamente que é apenas a dose de desinformação e demagogia que convém para procurar desacreditar os adversários junto da opinião pública !

  4. Oliveira

    creio que o tipo de Estado que o Mário refere ser desejável como projecto político num curto ou médio prazo só é possível com um Estado mínimo, que é um conceito bastante liberal. A ineficiência do Estado Social justifica-se exactamente pelo tamanho do Estado, que se comporta hoje de forma quase análoga às instituições too big to fail. Ao querer “ajudar” a tudo e todos, nomeadamente a interesses corporativos instalados na máquina estatal, acaba por não ajudar de forma justa e eficiente aqueles que realmente precisam dessa ajuda.

  5. lucklucky

    “Que o PS do Tempo Novo tente acantonar-se com a extrema-esquerda é mero lapso anacrónico, que durará tanto tempo quanto o tempo de vida da geringonça, e cairá de podre. ”

    Completamente Errado. Cultura é a palavra que interessa.

    A União PS e a Extrema Esquerda está para ficar porque é essa a cultura do jornalismo Ocidental.

    O anti semitismo do Partido Trabalhista é resultado do The Guardian, do The Independent, da BBC etc.
    Em Portugal temos membros do PSD a elogiarem Bernie Sanders em artigos de jornal porque é o produto dos Publicos, Expressos, RTP’s SICs e TVI’s…

    Sim vão andar à chapada, mas no que interessa – acabar coma Liberdade que resta – vão se unir para levarem sempre o país para a Extrema Esquerda.

    Que é onde está o jornalismo.

  6. OLIVEIRA : “creio que o tipo de Estado que o Mário refere ser desejável como projecto político num curto ou médio prazo só é possível com um Estado mínimo, que é um conceito bastante liberal.”

    A questão é a de saber se o Estado “minimo” inclui ou não o “social”.
    Há quem pense e espera que não, que o papel do Estado deve ser exclusivamente regaliano e exclui funções “sociais”.
    E há quem pense que, no mundo de hoje, um projecto liberal, embora visando um Estado magro e pouco custoso, “minimo” em termos do que é necessário, não exclui o “Estado Social”.
    Na sua luta ideológica contra o liberalismo, a esquerda tende precisamente a acusar os liberais de quererem acabar com o “Estado Social” deixando desprotegidos aqueles que mais precisam.
    Eu penso que esta acusação não tem fundamento e que os liberais não devem cair na ratoeira recusando doutrinalmente a ideia de “Estado Social”.
    Os liberais devem antes defender que o Estado pode exercer funções socias de modo diferente, com mais liberdade de escolha para a generalidade dos cidadãos e concentrando as ajudas apenas naqueles que mais precisam.

  7. Oliveira

    Caro Fernando, estou completamente de acordo. Mas penso que também concorda que, na atual conjuntura nacional, um projecto liberal teria de ser realizado de forma gradual e sustentada. E é desse ponto de vista que digo que uma ruptura abrupta com este tipo de Estado Social deve ser discutida. Mas é necessário sem dúvida transformá-lo. Além de que, claro, é preciso acreditarmos na capacidade da sociedade de, por si, assumir as funções sociais do Estado, de forma não-coerciva.

  8. Caro Oliveira,
    Concordo consigo quando diz que “este tipo de Estado Social” deve ser “transformado” na sua estrutura.
    De algum modo, é efectivamente uma “ruptura” com o que existe actualmente (que é universal, obrigatório e quase exclusivamente público).
    Dito isto, e como o Oliveira também reconhece, esta ruptura deve ser “realizada de forma gradual e sustentada”.
    Dai que eu prefira não utilizar o termo “abrupta” (que seria, por exemplo, uma mudança de sistema de um dia para o outro e sem transição).
    Por exemplo, a transformação do actual sistema de pensões, de base distributiva e estatal, para um sistema de capitalização maioritáriamente privado, não deve ser feita num momento único, ao mesmo tempo e do mesmo modo para todos, mas antes através da introdução progressiva e discriminada (por exemplo, em função de categorias étárias ; pode correr ao longo de 2 ou 3 ou mais gerações) de uma componente de capitalização individual e privada cada vez mais importante
    Também concordo consigo quando diz que a “função social” não deve caber unicamente e principalmente ao Estado e deve antes poder ser assegurada pela sociedade civil numa base de voluntariado.
    Mas, atenção, penso que o Estado terá sempre de ter uma função social, eventualmente e preferivelmente apoiando-se o mais possivel em estruturas privadas e associativas (contratos e parcerias), dirigida para aqueles que, pelas vicicitudes da vida, ficam completamente fora do mercado e incapazes de se sustentarem adequadamente a si proprios (com o tempo será cada vez mais uma pequena minoria da população – hoje seria talvez cerca de 1/4 – mas mesmo aqui com diferentes niveis e tipos de necessidades).
    (Tenho consciência de que o que temos vindo a dizer aqui em cima é muito genérico e abstrato mas de vez em quando também é preciso, naturalmente sem prejuizo de ulteriores e desejáveis desenvolvimentos mais detalhados.)

  9. Coitado do Pacheco. Com a velhice vem a desilusão de uma vida falhada a quem estava destinado ao sucesso mas que acaba, com tristeza espelhada no rosto, numa espécie de bibliografo do comunismo marxista em todo o seu esplendor. Com a velhice acontece o regresso ao passado, aos sonhos da infância.

  10. Gostei do post, mas gabo.lhe a paciencia de se preocupar quem , julgo eu, nem merece dois minutos de atenção, a tanta contradição.

  11. Pingback: Abstruso no Divã – a farpa

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