A próxima aventura de António Costa

O meu artigo hoje no Diário Económico. António Costa não anda nisto para ser primeiro-ministro por poucos meses. Será ele a ditar se, quando e como é que o governo cai. Até lá o objectivo é aumentar os índices de popularidade e esperar pelo momento oportuno para saltar do barco. Antes que afunde, claro está. Até porque Costa não é teimoso como Sócrates e apenas por pudor apelido de aventura o que o actual primeiro-ministro pode fazer.

A próxima aventura de António Costa

O Plano Nacional de Reformas (PNR) e o Pacto de Estabilidade (PE) que o Governo apresentou permitem-nos concluir que António Costa não pensa cumprir a legislatura. Mais: que o primeiro-ministro visa ser popular para, na altura certa, e perante um motivo devidamente encenado, se demita e concorra a novas eleições que espera finalmente ganhar. Digo isto porque se analisarmos o PNR este não menciona nenhuma reforma digna desse nome. Apenas deliberações, como as de renovação urbana que já estão a ser levadas a cabo pelos privados depois da alteração da lei das rendas. O mais cinge-se a uma repartição de medidas avulsas que de tão esmiuçadas fazem parecer algo grandioso. Os problemas sérios, tais como a sustentabilidade da Segurança Social, o financiamento do Serviço Nacional de Saúde ou o futuro do sistema educativo são esquecidos para não borrar o plano.

O mesmo se passa com o PE. Há algo de estranho neste documento: como é que sendo mais pessimista quanto ao crescimento económico, as projecções para o défice são melhores? Há pormenores que nos ajudam a compreender o porquê disto tudo. O Conselho de Finanças Públicas, por exemplo, lamentou que o Governo não tenha revisto em baixa a taxa de crescimento para 2016, mas já o faça para os anos seguintes. Realçou ainda outro ponto: para o Governo, o consumo privado mantém-se em alta este ano, mas desce nos posteriores, sendo que os números do crescimento serão mantidos por via do aumento do investimento público.

Ou seja, António Costa não espera governar o país com este PE. Na verdade, este plano visa apenas que a geringonça continue até que Costa se demita. Para tal, Costa precisa de algo para mostrar a Bruxelas, mas que não coloque o BE e o PCP em xeque. Assim, este PE prevê a redução do défice (como Bruxelas quer) mas não o corte dos salários e das pensões (como pretendem PCP e BE). Como é que se consegue isto tudo? Não interessa, porque António Costa já não será primeiro-ministro nesta legislatura.

O que não quer dizer que não seja primeiro-ministro. É precisamente a minudências deste género que temos de prestar atenção quando falamos deste primeiro-ministro. Ou será que ainda julgamos que Costa anda nisto apenas pelo capricho de ser chefe de governo durante alguns meses? Claro que não. Costa sabe que o caminho que escolheu não tem pernas para andar. Costa não é teimoso como Sócrates. É apenas manhoso. E é a sua astúcia política que vai ditar o futuro do país.

Enganam-se, pois, os que julgam que este governo cairá quando os números ditarem a sua sorte, ou o BE ou PCP o deixarem de apoiar. Estes partidos tiveram bons resultados em 2015 e não querem eleições. O Governo cai quando Costa se demitir numa encenação à altura das suas capacidades políticas. Nesse momento, no auge da sua popularidade, apresenta-se a eleições para ganhar a legitimidade de governar um país com um Estado falido. Falido, não por sua culpa, mas por uma causa qualquer, não sabemos ainda qual, mas que, certamente, alterará o cenário político que conhecemos hoje. Uma coisa é certa: o jogo político que Costa iniciou em Outubro ainda não terminou.

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5 thoughts on “A próxima aventura de António Costa

  1. Carlos

    Oh André, ao fim de 8 meses já apanhou a coisa… vá lá de si já não se pode dizer o que um proeminente social-democrata disse do ex- primeiro “é pouco ágil”…

  2. tina

    André, se o mandato do PS não durar até ao fim, Costa vai para a rua. Não há nenhuma razão para manter lá alguém que 1) nunca ganhou eleições e 2) posto à prova nem sequer consegue acabar um mandato.

  3. JMS

    Tina,

    “Este” PS está minado.

    Entendo a ideia do André e, se se concretizar o exposto (o André não é o único a pensar assim), o vigarista do Costa arrisca-se a ganhar as eleições à custa da “distração” da maioria dos portugueses e dos favores entretanto feitos aos sindicatos mais reivindicativos (transportes, função pública e educação – os eternos privilegiados).

    Não creio, portanto, que seja tão lógico e linear o futuro dessa desgraça que se abateu sobre o país, chamada António Costa.

  4. Cavaleiro de triste figura Um Quixote na pele de um Sancho Pança.
    Um senhor Feliz e outro senhor Contente
    Se preferirem um Bucha e um Estica
    Costa e Centeno = verso e reverso da mesma moeda

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