O valor do dinheiro

A maioria dos políticos gostaria que fosse mais fácil criar dinheiro. Porque quanto mais fácil for criar dinheiro, mais liberdade de acção os governos têm. Desde há séculos que um dos grandes objectivos na organização do Estado é a limitação do poder. Ora, o dinheiro é a grande arma dos povos nesta luta. Quanto maior o seu valor, maior as nossas defesas. É por isso que as ideologias que defendem uma maior intervenção do Estado preconizam uma redução do valor do dinheiro, na exacta proporção da liberdade de acção que os governos procuram. Veja-se o socialismo, o comunismo e a extrema-direita. Veja-se o que Mariana Mortágua, Francisco Louçã, João Galamba, Tsipras ou Marine Le Pen  nos dizem da política monetária do BCE: que não chega, porque não desvaloriza suficientemente o dinheiro para que políticos como eles possam agir. Em nosso nome, mas tantas vezes, como tantas vezes sucedeu, contra nós.

O meu artigo hoje no Diário Económico é sobre este tema.

O valor do dinherio

O valor do dinheiro é o escudo que nos protege do poder ilimitado de quem nos governa. E se é com os erros que se aprende, seria bom não os repetir ou, pior ainda, acentuá-los.

Mario Draghi esteve no Conselho de Estado e, apesar de não ser público o que disse, alguns dos presentes deixaram transparecer o que se passou. Ou seja, que Draghi repetiu o que tem dito à maioria dos governos europeus: façam reformas estruturais para terem menos dívida. Francisco Louçã reduziu a presença de Draghi no Conselho de Estado a uma exibição de poder, concluindo que a “austeridade foi um desastre”, apesar da economia portuguesa ter contraído a partir de 2009 e apenas ter revertido essa tendência a partir de 2014, precisamente quando terminou o plano da ‘troika’.

As críticas da esquerda a Draghi explicam-se porque, apesar de o BCE estar a comprar dívida pública, permitindo que Portugal aguente por uns momentos as políticas do actual Governo, o certo é que a economia não arranca porque, tal como alguns economistas liberais alertaram, o dinheiro criado pelas políticas expansionistas defendidas pela esquerda fica na banca e na especulação financeira, e não chega ao bolso das famílias. Permitem que o país aguente um acréscimo de gastos, um ligeiro acréscimo do livre arbítrio do poder político, mas não o suficiente para que volte a ser absoluto como no passado.

Assim, a esquerda tem andado a pensar numa alternativa a que se dá o nome de ‘helicopter money’. O conceito passa pelo BCE criar dinheiro e entregá-lo aos Estados cujos governos reduziriam os impostos sem que houvesse acréscimo de dívida. Seria o Céu na Terra. Pelo menos para os governos que teriam rédea solta para governar sem restrições. Imagine o leitor os saltinhos de contentamento que António Costa e demais parceiros não dariam em São Bento e no Rato.

No entanto, a satisfação ficar-se-ia por aqui. É que não só o dinheiro perderia valor, porque dado em vez de ganho, com as conhecidas repercussões na inflação e no sentido de justiça que advém do trabalho e do esforço, como os governos governariam sem limites, sem qualquer controlo e escrutínio. É que o esforço liberal, que começou em Inglaterra e se estendeu a França e à Europa, passa pela separação dos poderes, mas também pela compreensão do valor do dinheiro na protecção dos cidadãos contra o exercício discricionário do poder político.

Aliás, é precisamente por isso que o ódio ao dinheiro é mais forte entre partidos extremistas, sejam de direita ou de esquerda. Veja-se o Fascismo, o Nazismo e o Comunismo. Ideologias que desprezam o dinheiro. Naturalmente que não dizem que é por este não lhes permitir governar sem restrições, mas por ser maléfico. Rebaixar o valor de algo é a melhor maneira de sobreviver. Mas nós, que já somos experientes, não devemos esquecer que, por muito que custe, o que sofremos agora é o preço dos erros do passado. O valor do dinheiro é o escudo que nos protege do poder ilimitado de quem nos governa. E se é com os erros que se aprende, seria bom não os repetir ou, pior ainda, acentuá-los.

Um pensamento sobre “O valor do dinheiro

  1. Não me parece que isso seja uma regra geral: veja-se que nos EUA no final do século XIX era o Partido Republicano de então (na altura o defensor do protecionismo e do poder do governo federal) que defendia o padrão-ouro (deflacionista) enquanto os Democratas (na altura defensores do comércio livre e dos direitos dos Estados) eram os defensores do bimetalismo (inflacionista).

    E ao longo do século XIX os maiores defensores da facilidade de criar dinheiro eram exatamente os anarquistas individualistas (como Proudhon ou Lysander Spooner; Proudhon chegou a escrever qualquer coisa de transformar a moeda de uma monarquia – governada pelo ouro – numa república – em que qualquer mercadoria pode-se servir de base à moeda).

    Acho que essa associação (que é capaz de realmente existir nos séculos XX-XXI) entre “moeda forte” e “governo pequeno” é apenas um acidente histórico criado pelo “estado social” – como os beneficiários/prejudicados pela “moeda fraca” (os devedores/credores) tendem a ter uma grande convergência com os beneficiários/contribuintes do “estado social” (pessoas de baixos rendimentos/pessoas de altos rendimentos), hoje em dia quem defende uma tende a ser quem defende o outro.

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