O estranho caso do crédito mal parado

Desde a crise das dívidas soberanas, circa 2011, que os três grandes sectores entraram em consolidação: o Estado, porque faliu; a banca, porque virou negócio de volume e andou anos a fio a ceder crédito para investimentos de dúbia utilidade, incluindo PPPs, e porque estava exposta à dívida soberana, que desvalorizava e criava imparidades nos seus balanços; e as famílias, que têm de pagar o circo.

Nestes cinco anos, os bancos adoptaram uma postura agressiva para consolidarem as suas contas e reduzirem a sua exposição: seleccionaram empresas com contas correntes caucionadas ou contas de curto-prazo e, de forma unilateral, reduziram montantes e aumentaram taxas de juro. Muito. Em muitos casos as taxas de juro subiram de 1%-2% para 9%-10%, consoante o nível de utilização das contas. As empresas portuguesas têm um problema crónico de tesouraria, em parte culpa do Estado e da forma como reembolsa o IVA, mas também devido a uma má gestão dos fluxos de caixa. Se as empresas já estavam numa situação frágil fruto da conjuntura económica, o aperto dos bancos estrangulou-as ainda mais. Em 3 a 6 meses, maturidade média das contas caucionadas, os accionistas tinham de encontrar capitais próprios ou conseguir negociar empréstimos de médio e longo-prazo para compensar a redução das contas caucionadas. Ou fechar a empresa.

Acontece que os bancos seriaram bem que empresas abordar. Não por acaso, dirigiram-se àquelas que ainda dispunham de alguma margem para pagar. Esta escolha não é inocente. Se os bancos fossem às empresas-zombie, com passivos incobráveis, seriam obrigados a iniciar um processo de injunção. Ao fazê-lo teriam de registar nos seus balanços este crédito mal parado, e constituir provisões para compensar a redução na qualidade dos seus activos. Mais imparidades.

Assim que, para lá de todo o crédito mal parado já registado nos balanços dos bancos, existe muito outro ainda por registar que paira em empresas-zombie, a maior parte no sector da construção. Que António Costa decida agora falar do crédito mal parado não é coincidência nenhuma. Recordemos que a Caixa Geral de Depósitos foi o banco que mais dinheiro custou aos contribuintes — mais do que Banco Espírito Santo. A Caixa Geral de Depósitos foi um fiador compulsivo de crédito à construção da festa socialista, e tem muito crédito mal parado por registar.

Como tal, a proposta de criar um banco mau é uma forma muito indirecta de limpar o balanço da Caixa Geral de Depósitos à socapa, sem injectar directamente dinheiro, retirando do seu balanço activos com elevado risco e que prejudicam os seus rácios de capital. Por arrasto, outros bancos, que imprudentemente também cederam crédito de elevado risco, terão os seus balanços limpos também. Embora esta medida seja importante para aumentar os níveis de crédito, não deixa também de abrir mais um perigoso precedente — esqueçam a análise de risco e a qualidade do crédito, quando a festa acabar vem o Estado e paga a conta.

Esta solução — atirar dinheiro para cima dos problemas — aparenta resolvê-los, para logo a seguir criar um problema maior. No fundo trata-se de escavar um buraco para tapar outro. Tem tudo para correr mal. Os bancos precisam de capitais próprios, inexistentes em Portugal. Uma solução viável, que comporta menos riscos, é a internacionalização da banca, a par com rácios de capital com buffers que aprovisionem o crédito mal parado. Como regra simples, e admitindo que os níveis de crédito mal parado rondam os 15% (e não os 7%, como divulgado nos balanços de todos os bancos, excepto do Novo Banco), e que 50% deste crédito entra em default, seriam necessários buffers de 6.5% (7.5% menos 1% de provisões previamente constituídas) para manter os rácios de adequação do capital a níveis satisfatórios.

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Fonte: Jornal de Negócios

Este capital terá de ser obtido, invariavelmente, do exterior. Existe aqui, portanto, um dilema: ou mantemos a banca nacional, permeável à contínua influência política, e para isso colocamos, como sempre, o contribuinte a pagar alguns dos desvarios; ou internacionalizamos a banca, e acabamos com a influência da jogatana política como variável condicionante da concessão, ou não, do crédito. A resposta a este dilema será óbvia para aqueles que acharem que a concessão de crédito deverá depender apenas do mérito e rentabilidade do projecto, e não do desígnio ou sonho de um qualquer político.

13 pensamentos sobre “O estranho caso do crédito mal parado

  1. jo

    ” Existe aqui, portanto, um dilema: ou mantemos a banca nacional, permeável à contínua influência política, e para isso colocamos, como sempre, o contribuinte a pagar alguns dos desvarios; ou internacionalizamos a banca, e acabamos com a influência da jogatana política como variável condicionante da concessão, ou não, do crédito.”

    Parece que o único país onde há jogatana política é Portugal. Se vierem bancos angolanos ou chineses, por exemplo, todos sabem que são independentes do poder político. E os bancos americanos, por ex., nunca se imiscuíram na política.

  2. Luís Lavoura

    a concessão de crédito deverá depender apenas do mérito e rentabilidade do projecto

    Acontece que a maior parte (mais de 2/3) do crédito bancário atualmente, em Portugal como alhures, é crédito ao consumo, principalmente à compra de casa (e/ou de outras propriedades). Portanto, pura e simplesmente, não é crédito a nenhum “projeto”. Não há “mérito” nem “rentabilidade” porque não há “projeto”.

    O tempo em que os bancos serviam essencialmente para financiar empresas já há muito passou à história.

  3. Luís Lavoura, o crédito à habitação é o tipo de crédito com menor taxa de incumprimento. Exclui-o porque o crítico é mesmo o crédito à construção, à construção dos elefantes brancos que estão por aí.

  4. LUIS LAVOURA : “O tempo em que os bancos serviam essencialmente para financiar empresas já há muito passou à história.”

    Então as empresas estão endividadas a quem ??!…
    (3/4 do crédito mal parado é a empresas)

  5. Marco

    Eu acho que continua tudo mais ou menos na mesma … ou quanto muito pior … ainda vão cair mais uns quantos para o zé pagar …

  6. A burla planetária que dá pelo nome de “juros baixos e crédito fácil (sem garantias)” serviu para desencadear uma onda concentração bancária.

    É a única verdade evidente, mas que os doutores se recusam a admitir, confundindo a causa com a consequência.

  7. MANOLOHEREDIA : ““juros baixos e crédito fácil (sem garantias)””

    Mas não é o que o Manolo deseja e defende ??!!….
    (o expansionismo monetário, o perdão das dividas para que possa haver de novo mais gastos publicos e mais consumo e investimento privados alimentados por mais crédito com novo endividamento, etc, etc)

  8. jo

    “jo, prefiro capital europeu ou americano, mas não tenho problema com capital angolano ou chinês regido pelas regras europeias e sob o escrutínio europeu.”

    O capital português é europeu.
    E não faltam casos do excelente resultado do escrutínio europeu na banca. Em Espanha temos o Sr Mário Conde e seus colegas, na Irlanda a banca quase toda, na Grécia é o que se sabe, o Deutsche Bank parece que está com dificuldades. Quanto a Angola, nada contra, se me disserem para onde foram os 4000 milhões do GESA. Nos EUA recomendava-lhe a Merrill Lynch, mas faliu.

    Só mesmo um pacóvio se convence que lá fora não anda ninguém a tentar enganar pacóvios. Olhe que o Capital não tem pátria, mas os banqueiros têm.

  9. Qual capital português, jo? Quanto a falências, é natural que as empresas vão à falência. O problema da banca é precisamente o oposto — o risco moral criado pelo facto dos bancos não irem à falência e serem resgatados.

  10. Jo,
    Quem anda a tentar enganar pacóvios são aqueles que pretendem que com bancos públicos (ou privados mas “controlados” pela “classe dirigente nacional”) então é que tudo é “limpo”, ninguém é enganado e prejudicado e ninguém enriquece abusivamente à conta dos contribuintes e dos clientes !!
    O banco publico de sempre, a CGD, é o banco que de longe e em acumulado mais dinheiro custou aos portugueses…. E ainda vai custar !!
    O BES foi o exemplo acabado de um banco privado “nacional” que se habituou a viver encostado aos poderes “fortes” do Estado (o salazarismo antes do 25 de Abril, o cavaquismo e o socialismo a partir dos anos 90).

  11. (Crédito mal parado para quem? Há quem ache que a economia da pedincha estava muito bem a andar até 2011.)

    O maior devedor de Portugal é este. E o maior capitalista de Portugal eu. Eu invisto em bancos, em grupos de comunicações, em empresas de transporte, em fundos de pensões, em empresas de imobiliário e em diversas fundações. Em nenhuma tenho um lugar na administração e venderia todas as ações a um euro, se o pudesse.

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