Portugal é (como) a Grécia, disse hoje alegre o PM

tiro

Houve um tempo em que quem quer que fosse fazia questão de dizer: «Nós não somos a Grécia». Mesmo socialista, fazia questão de se distinguir. Esse tempo passou.

É extremamente difícil qualificar o papel que António Costa assinou hoje com Tsipras.

We underline that the ongoing Eurozone crisis has its origins in the hitherto asymmetric process of European integration, as well as in the design flaws of the Eurozone – notably the lack of the adequate instruments to face the shocks experienced. In addition, macroeconomic policies in the Eurozone have been unbalanced.

Costa repete muitas vezes esta lenga-lenga. Mas o que quererá dizer ao certo? «Processo assimétrico de integração europeia»? Estará a referir-se aos países do Norte, com crónicos excedentes da balança corrente, exportando regularmente capitais para o Sul, que os países do Sul se encarrega(va)m de torrar em consumo e/ou investimentos ruinosos? Se é isso, pois os capitais há muito que se puseram a salvo, com a retirada estrategicamente  coberta pelo BCE, e já cá não estão, de modo que o problema estaria resolvido. E os «defeitos arquitectónicos da Zona Euro»? Serão as regras de responsabilidade financeira e prudência orçamental, que um país como Portugal, por exemplo, não cumpriu um só ano, para amostra, em todos os 17 que leva desde que entrou na dita Zona Euro, e que um outro, como a Grécia, além de violar, ocultou mafiosamente o facto?

O que quer que seja que aquelas coisas signifiquem (infelizmente nunca ninguém perguntou a António Costa, calmamente, com tempo para o ouvir e dando-lhe a entender que não deixará de pôr a pergunta enquanto ele não se fizer entender em linguagem de gente relativamente ao significado dos referidos «processos assimétricos» e coisas desse jaez), note-se que isto pelo menos significam: a «presente crise da Zona Euro» não tem rigorosamente nada a ver com o que quer que seja que qualquer dos países por ela mais afectado tenha feito; tudo não passou de um problema que não está, rigorosamente, em parte nenhuma, mas tão-só num «processo», que para além do mais é «assimétrico» e, como se não bastasse, é ainda de «integração» («europeia», está bem de ver).

O pior, porém, não é esta doença mental da negação. O pior mesmo é o que se segue.

We, as Prime Ministers of two countries with a similar policy experience in the context of their respective adjustment programs, share the conviction that austerity-only policies are wrong and insufficient to overcome the existing challenges. Six years after the first bailout program in Europe, we can safely confirm that austerity alone is failing in its own terms and has had a social and economic impact that has gone far from what was anticipated. These policies should be reviewed.

Falando de assimetrias, eu compreendo que Tsipras gostasse de meter no bolso Portugal para poder dizer ao mundo: nããã, não foi a Grécia que se converteu num estado falhado, não!, ou por outra, falhado, talvez o seja agora, mas então é tão falhado como Portugal, igualmente arrastado pelo… «processo assimétrico de integração europeia» (?). Tsipras precisa de um par como do pão para a boca para disfarçar.

Que o primeiro-ministro de Portugal se entregue jovialmente a semelhante papel é que me parece, como comecei por dizer, difícil de qualificar. Não é todos os dias que vemos o primeiro-ministro de um país envolver-se entusiasticamente numa maga-operação de destruição deliberada da reputação do seu país. E, sobretudo, não é todos os dias que eu vejo o meu…

Se tudo o que António Costa fez hoje fosse mais do que um exercício de estupidez inominável – as adesões ideológicas apaixonadas podem ser formas de estupidez sem nome -, estaríamos tentados a considerar coisas muitíssimo feias a respeito do primeiro-ministro de Portugal. Mas não. Estamos quase certos que não foi.

Já o mal, pelo facto de ser filho da estupidez, nem por isso é menor.

E, sim, é cada vez mais claro, mesmo que não quiséssemos acreditar: isto pode ainda bem não ser a Grécia, mas Costa não descansará até que o seja.

A notícia de Costa e Tsipras no FT merece ser lida.

Este país é deprimente.

9 pensamentos sobre “Portugal é (como) a Grécia, disse hoje alegre o PM

  1. Fernand Personne

    Os mendigos da Europa já têm catarro? Que figurinhas ridículas…

    “We, as Prime Ministers of two countries with a similar policy experience in the context of their respective adjustment programs, share the conviction that austerity-only policies are wrong and insufficient to overcome the existing challenges.”

    E o que diz o PM da Irlanda?

  2. tina

    O Gordo já percebeu que não vai conseguir cumprir o défice sem medidas extraordinárias por isso não lhe resta mais nada senão confrontação direta com a UE. Lembram-se quando ele dizia que “não tinha encontrado nenhuma dificuldade nas negociações”? Agora que o cerco aperta, está a ficar desesperado. É só dar tempo ao tempo para a verdade vir toda ao de cimo.

  3. tina

    Lembram-se também quando ele dizia que Portugal nunca seria problemático para a Europa? ahahahaha, que grande palhaço.

    O problema também é que os juros sobem cada vez que ele comete bacoradas e podem voltar a descer mas nunca ao nível que estava anteriormente. Ele é como Sócrates, custa muito caro aos portugueses.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.