A poesia agora ao alcance de todos

Inspirado no comentário acutilante de Pedro S ao meu grito de horror ontem à noite, quando descobri que o novo ministro da cultura

Castro tolo

comete versos como

o capital regula-se a si próprio e as leis/são meras consequências lógicas dessa regulação

e depois de uma noite bem dormida, estranhamente sem os pesadelos que se poderiam legitimamente temer, em pleno processo de reconciliação com o mundo malgré tout, e um pouco na lógica do para-o-croquete-não-há-merda -nada-que-não-se-aproveite, venho aqui dar serventia à poesia do ministro da cultura, propondo o seu poema como template para todos, que assim passam democraticamente a poder ser também poetas; basta preencher a seguinte minuta:

A MISERICÓRDIA DOS ——-
Nós vivemos da misericórdia dos —–.
Não fazemos falta.
O(A) —— regula-se a si próprio(a) e as leis
são meras consequências lógicas dessa regulação,
tão sublime que alguns vêem nela o dedo de Deus.
Enganam-se.
Os ——- são simultaneamente o criador e a própria criação.
Nós é que não fazemos falta.

Um exemplo prático é dado pelo próprio Pedro S

A MISERICÓRDIA DOS GOVERNANTES
Nós vivemos da misericórdia dos governantes.
Não fazemos falta.
O parlamento regula-se a si próprio e as leis
são meras consequências lógicas dessa regulação,
tão sublime que alguns vêem nela o dedo de Deus.
Enganam-se.
Os governantes são simultaneamente o criador e a própria criação.
Nós é que não fazemos falta.

Mas basta um pouco de imaginação para percebermos as enormes potencialidades da ideia. Basicamente, cabe naqueles tracinhos em branco qualquer coisa que detestemos muito (com ou sem razão) e nos faça um mal tremendo (real ou imaginário). Por exemplo:

A MISERICÓRDIA DOS BANQUEIROS
Nós vivemos da misericórdia dos banqueiros.
Não fazemos falta.
A banca regula-se a si própria e as leis
são meras consequências lógicas dessa regulação,
tão sublime que alguns vêem nela o dedo de Deus.
Enganam-se.
Os banqueiros são simultaneamente o criador e a própria criação.
Nós é que não fazemos falta.

Ou ainda:

A MISERICÓRDIA DOS JUÍZES DO TRIBUNAL CONSTITUCIONAL
Nós vivemos da misericórdia dos juízes do Tribunal Constitucional.
Não fazemos falta.
O Tribunal Constitucional regula-se a si próprio e as leis
são meras consequências lógicas dessa regulação,
tão sublime que alguns vêem nela o dedo de Deus.
Enganam-se.
Os juízes do Tribunal Constitucional são simultaneamente o criador e a própria criação.
Nós é que não fazemos falta.

Ou ainda:

A MISERICÓRDIA DOS SINDICATOS DA FUNÇÃO PÚBLICA
Nós vivemos da misericórdia dos sindicatos da função pública.
Não fazemos falta.
Os sindicalistas regulam-se a si próprios e as leis
são meras consequências lógicas dessa regulação,
tão sublime que alguns vêem nela o dedo de Deus.
Enganam-se.
Os sindicatos da função pública são simultaneamente o criador e a própria criação.
Nós é que não fazemos falta.

E assim sucessivamente.

Só há que ter muito cuidado com as concordâncias gramaticais.

5 pensamentos sobre “A poesia agora ao alcance de todos

  1. tina

    ahahahahaha! Coitado do ministro, ainda não começou funções e ele e a sua poesia já foram completamente trucidados. Ele é gordo, a poesia é má, não devia comer tantas batatas com o bacalhau…

  2. tina

    Dedico este poema ao novo ministro da Coltura

    O bacalhau
    é o meu mais fiel amigo
    como-o cozido
    numa ampla travessa
    que leva couves e grelos
    e também muitas batatas
    e nunca trai a promessa

    O que seria eu
    sem este prato tão nosso?
    Continua a estar presente
    ao meu jantar e almoço!

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