Resolver o problema do sector dos táxis: Estado versus Mercado

Carro_de_Bois_com_o_condutor,_Açores,_PortugalO sector dos táxis tem muitas ineficiências. Quem apanha um táxi arrisca-se a levar com um motorista agressivo, mal-humorado, ou um carro maltratado e sujo. A conta final é uma incógnita quando os clientes entram no táxi. Quem anda numa cidade que não conhece, arrisca-se a pagar demasiado por percursos curtos. Pior que tudo isto, é que os motoristas honestos, como ganham menos, tendem a sair do sector e vender as suas licenças aos motoristas que, graças às técnicas anteriores, as valorizam mais. Há também um desacerto entre procura e oferta ao longo do dia: durante algumas horas do dia, os táxis circulam sem clientes, enquanto que noutros períodos pode ser muito difícil encontrar um táxi em certas zonas.

A Uber, de forma absolutamente gratuita para o contribuinte, ofereceu-se para resolver estes problemas. Disponibiliza uma app em que o cliente pode classificar o condutor e o carro, colocando em desvantagem os condutores mais fracos e os carros mais maltratados, dando um efectivo incentivo à melhoria do serviço. Ainda antes de entrarem no carro, os clientes Uber conhecem o percurso e a conta final. Com este sistema são os taxistas desonestos, mal-humorados ou que pior cuidam dos seus carros que acabam por abandonar a profissão. Os preços baixam nas horas mais calmas e aumentam nas horas mais agitadas, incentivando os taxistas a trabalhar onde e quando há mais clientes. O cliente sabe antecipadamente quanto tempo terá que esperar pelo táxi quando o chama. A Uberpop, um sistema de boleias pagas, desencanta ainda capacidade extra para períodos ou percursos em que escasseiam os táxis. Esta é a solução do mercado que o estado português rejeitou.

A solução estatal é diferente. O Estado proíbe a Uber de resolver estes problemas gratuitamente, preferindo coagir os contribuintes a pagar 17 milhões de Euros aos taxistas. Mais de 1500€ a cada taxista registado, de um partido que até recusou uma proposta de lei para aumentar as pensões mais baixas em 10€. Para resolver o problema da má qualidade dos taxistas, vai 1 milhão de euros para “formação, capacitação e informação, com vista “à promoção de ações de capacitação para motoristas, designadamente ao nível da eco-condução, cursos de línguas, de conduta e de utilização de tecnologias avançadas”; mais 1 milhão de euros irá para “tecnologias de informação e comunicação, através da componente pública de financiamento de equipamentos que otimizem a monitorização e gestão da frota” (isto do governo que continua a proibir a Uber). Mas não é tudo: ainda será criado um “grupo de trabalho com municípios, associações e gestores de infraestruturas para a definição de regras de gestão de acessos, requisitos mínimos, controlo de qualidade e boa conduta, tarifas e ações de apoio”. Quando todos os estudos estiverem feitos, as senhas de presença aos grupos de trabalho estiverem pagas, as formações estiverem acabadas, e alguns taxistas receberam smartphones novos, pouco sobrará dos 17 milhões de euros e o sector continuará igual. Esta é a solução estatal: premiar ameaças de violência, impedir o progresso com “planos de modernização” e deixar tudo na mesma.Gastar 17 milhões a modernizar o sector dos táxis enquanto se proíbe a Uber é como fazer o percurso Aeroporto-Baixa, passando por Almada. Mas como alguns taxistas bem sabem, o dinheiro dos outros é fácil de gastar.

Quando este “plano de modernização” acabar, já a Califórnia terá táxis sem condutor. Nessa altura veremos os taxistas com os seus smartphones modernos à patada ao CPU dos novos carros e o PS a prometer eliminar a concorrência desleal. Se o PS governasse há 100 anos, ainda hoje andaríamos a modernizar carroças de bois.

19 thoughts on “Resolver o problema do sector dos táxis: Estado versus Mercado

  1. bump

    São muitos taxistas para votar nas proximas eleiçoes no PS. A malta tem de ser agradada e tem que se mostrar trabalho feito, não é?

  2. Luís Lavoura

    Tudo certo. Mas o CGP esquece que nem todas as pessoas têm smartphone e cartão de crédito. Os táxis são, apesar de tudo, um serviço público.

  3. Luis Lavoura : “nem todas as pessoas têm smartphone e cartão de crédito. Os táxis são, apesar de tudo, um serviço público.”

    Portanto, por mais que se liberalize, haveria sempre um nicho de mercado para os taxis, não concorridos pelos “Uber”.
    Para menos taxis, naturalmente.
    O que não se justifica é que se dificulte a existência dos “Uber” e se gaste dinheiro dos contribuintes apenas para manter um serviço de taxis sobre dimensionado, menos eficiente, mais caro,….

  4. Jan

    quem irá ficar a cargo da formação? quem será o grupo de “trabalho” nomeado pelo governo? sounds like mini-tacho para uma qualquer “tecnofarma” da vida…
    A uber é um caso que tem de ser resolvido, mas esta solução é ridícula.

  5. jo

    Duvido muito que o sistema da Uber funcionasse sem a concorrência dos táxis. Com o mercado completamente liberalizado a Uber daria muito poucos lucros.

    A Uber não passa de um esquema para vender mais barato, fugindo a impostos.

  6. JO : “Duvido muito que o sistema da Uber funcionasse sem a concorrência dos táxis. Com o mercado completamente liberalizado a Uber daria muito poucos lucros.
    A Uber não passa de um esquema para vender mais barato, fugindo a impostos.”

    Há aqui uma contradição …
    Ou não dá lucro ou dá lucro fugindo a impostos.
    Das duas uma !…

    Mas se, como diz o JO n° 1, com a concorrência dos taxis (??!!…) a Uber não daria lucro, então deixem-na fazer … A Uber acabaria por ter de fechar as portas e os taxistas voltariam a ficar sózinhos no mercado.
    E se, como diz o JO n° 2, a Uber procurasse fugir a impostos, então a administração fiscal, que se tem mostrado cada vez mais eficiente, adoptaria os mecanismos adequados para o evitar e o resultado seria o mesmo.

    Na verdade, nem o JO, nem aqueles que são contra a Uber, e ainda menos muitos dos taxistas, acreditam que, num mercado liberalizado, a Uber não seria viável e rentável.
    Mesmo vendendo mais barato e pagando impostos.

    Ou seja, o que aqueles como o JO e os taxistas, opondo-se à liberalização do mercado, pretendem é nem mais nem menos do que manter indefenidamente serviços de taxi pouco eficientes (sem flexibilidade na oferta e sem qualidade na prestação) e mais caros.
    É a defesa de interesses instalados de uma minoria contra os interêsses legitimos de muitos mais a quererem trabalhar e a quererem ter um serviço de transporte mais eficiente e mais barato.
    É a “nossa” esquerda !!

  7. Stephan feio

    O que é a uber? Mediadora de serviços de transporte de passageiros? Uma Rádio Táxis dos tempos modernos?

    Solução: por a uber a prestar o transporte com os táxis.

    Ficam todos contentes: ganha a uber, ganham os táxis, ganha o consumidor. Perdem os maus taxistas. E o Estado não gasta um tostão.

  8. antónio

    Na verba reservada para a formação dos taxistas sugeria não esquecer uma disciplina de introdução à economia. Não esquecer então de explicar aos motoristas a destruição criativa de Schumpeter. Então eles irão compreender que assim como o fax foi substituído pelo e-mail também o taxi algum dia teria de ser substituído quem sabe pela Uber.

  9. Precisamente! Muito bem dito!
    Apenas discordo num ponto. Em vez de “Se o PS governasse há 100 anos, ainda hoje andaríamos a modernizar carroças de bois” deveria ser “Se o BE, PCP, PEV, PS, PSD e CDS governassem há 100 anos, ainda hoje andaríamos a modernizar carroças de bois.”

  10. Marco

    Há muita gente a mamar da teta do estado. Esses 17 milhões são mais um elefante branco da política.

    Concordo em tudo com o texto.

  11. Pingback: Resolver o problema do sector dos táxis: Estado versus Mercado – O Insurgente | AICL Colóquios da Lusofonia

  12. Libera-me isto, oh Evaristo

    o Fernando S gosta de bater em homens de palha. leia lá honestamente o que o JO escreveu e perceba que dentro da lógica interna daquilo que ele expôs, o que ele disse está correcto. agora se é essa a realidade da Uber e dos Táxis em Portugal, isso sim é discutível.

  13. “o Fernando S gosta de bater em homens de palha.”

    Não, não gosto.
    Nem sequer vejo o JO como um “homem de palha” (?!…)
    Mas o que é que interessa para este efeito ?!…

    .
    ” leia lá honestamente”

    Onde é que a minha “leitura” foi “desonesta” ?… Concretamente, exactamente ?…

    .
    “perceba que dentro da lógica interna daquilo que ele expôs, o que ele disse está correcto.”

    A “lógica interna” é que está errada à partida !…
    Lógicamente, não se pode dizer ao mesmo tempo que, por um lado, a Uber não é rentável devido à concorrência dos taxistas (mas não era o contrario ?!…), e que, por outro lado, a Uber é rentável porque tem preços baixos e não paga impostos.
    Ou não é rentável ou é rentável !!…
    E isto independentemente do que é ou será verdadeiramente a realidade.

    .
    “se é essa a realidade da Uber e dos Táxis em Portugal, isso sim é discutível.”

    Portanto, o que é discutivel é a suposta realidade que o JO narrou : sem a Uber os taxis são eficientes (quantidade e qualidade/flexibilidade do serviço relativamente à procura dos clientes) e baratos (tanto quanto uma Uber) !

  14. Pingback: Ainda os táxis,a Uber e a os subsidios à corporaçõess – O Insurgente

  15. Devo andar mal informada… (sem qualquer ironia na frase, porque o texto acima parece-me tão estranho que parece que estou a ler algo de uma realidade paralela).
    O actual sistema de GPS da radiotaxis é um sistema obsoleto, datado e incapaz de dar informação por notórios problemas de interface. Mas é obrigatório para todos os taxis aderentes à radiotaxis, por exemplo. O que cada táxi pagou por este sistema dava para comprar telemóveis topo de gama e criar uma app de jeito. Desconheço qualquer apoio do estado para esta modernização que, além de cara, veio impingir uma falsa modernização que não responde totalmente nem a taxistas nem a clientes. Foi do bolso de cada taxista que teve de sair a massa. Se houve qualquer apoio estatal, então digo que este sistema foi uma roubalheira.
    Devo desconhecer alguma medida de distribuição de telemóveis. O que está no taxi é um Nokia de 30 euros, ao lado do tal sistema obsoleto. Os dois não possuem qualquer ligação. (não sou taxista, mas sou sócia de uma empresa que tem um táxi).

    Quanto a taxistas mal educados e vigaristas – há muitos. Infelizmente. O mal grassa a meu ver de, ao contrário de um estabelecimento comercial “normal”, não haver necessidade de agradar ao cliente para este voltar. O cliente muito provavelmente nao volta a apanhar aquele táxi na vida, não porque o conheça, mas porque a probabilidade é baixa. E depois temos o problema tipicamente português do qual também eu sofro como cliente – não se fazer queixa. Sabiam que se se achar que o problema é no taximetro (adulterado) o taxi é apreendido por meses? Algumas queixas e decerto seria uma técnica demasiado cara para ser considerada. Há problemas de percurso? esquadra mais próxima – refazem o percurso correctamente com o taxista para validar o preço. O tempo que o taxista perde é tanto que possivelmente não se metia tão cedo a inventar voltas à cidade.

    Quanto à Uber, sem problemas com a concorrência. Desde que pague impostos. Desde que haja tarifas tabeladas, ou então é livre para todos. Desde que tenham de seguir as mesmas normas de segurança. Alguém sabe o preço de um seguro de um táxi? Alguem sabe se um carro da Uber com um seguro dito “normal” está realmente seguro em caso de acidente em serviço Uber? Porquê que um taxi tem de estar ao abrigo de tantas normas, taxas e taxinhas se for legal que um carro qualquer preste o mesmo serviço? Há concorrência? Tudo bem. Mas então as regras têm de ser equivalentes.

    Voltando ao sistema de gestão dos serviços de Taxi. O que precisavamos não seria nada de complicado. Um sistema de localização. Um sistema de classificação de taxistas e de clientes, de preferência com modo de pagamento via aplicativo (bom para ambos). Um sistema que permitisse localizar no mapa o cliente, e o destino. Uma simulação de preço acessível a ambos, taxista e cliente. O cliente não gostou daquele taxi / condutor? da próxima vez não é chamado para prestar serviço, automaticamente. Idem para clientes. Tantos há que fogem do taxi sem pagar, a assaltar com facas ou com esquemas manhosos que também dava jeito cadastrar clientes.

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