Uma nota importante para quando se fala do número de médicos em Portugal

Em todas as discussões que envolvam o número de médicos é geralmente referida uma estatística da OCDE onde Portugal surge como o 4º país, do conjunto de 34 países que compõem a OCDE, com mais médicos por mil habitantes. Mais concretamente, 4.3 médicos por mil habitantes.

Este valor surge também no pedido que os estudantes de Medicina apresentaram ao Ministério da Saúde para a redução do número de vagas de medicina.

medicos_pop.PNG

Com efeito, este é o valor que figura nos relatórios da OCDE. Atente-se, contudo, ao pequeno 2 que surge logo a seguir a Portugal. Esta nota de rodapé aponta para a seguinte referência:

oecd.PNG

Isto é, enquanto que os outros países reportam médicos que estão no activo, Portugal reporta médicos que possuem licença para praticar. Ora, nessa base de dados constam registos duplicados, médicos que já faleceram, que emigraram, que mudaram de profissão e que se reformaram. A própria OCDE estima que o número real seja de -30%, ou seja, 3 médicos por cada mil habitantes, um valor abaixo da média dos 34 países da OCDE.

Algo a ter em conta nestas discussões.

14 pensamentos sobre “Uma nota importante para quando se fala do número de médicos em Portugal

  1. Luís Lavoura

    A OCDE estima que o número real seja de 3 médicos por cada 100 mil habitantes, um valor abaixo da média da OCDE.

    Abaixo da média, mas tão alto como os valores da Finlândia, da Bélgica e da Nova Zelândia. Portugal está portanto muito bem acompanhado.

  2. Hugo Rego

    Em que é que se baseiam para chegar a essa estimativa e qual a fonte às deficiências de registos ? Há aí uma aparente incongruência face à natureza da emissão das licenças.

  3. Hugo Rego, 4.3 médicos implicaria que existiriam em Portugal 43 mil médicos. Dado que 29 mil trabalham no SNS, isso implicaria que 14 mil trabalhassem no sector privado. Ora, isto é um número manifestamente exagerado para o sector privado, especialmente porque muitos do que estão no SNS não estão em regime de exclusividade e exercem também no sector privado. Como é que a OCDE chegou aos 30% não sei, não referem.

  4. Um dos problemas da economia é as proporções naturais entre profissionais não terem sido respeitadas

    Dir-me-ão que não cabe ao Estado decidir o que cada um quer ser no futuro, e concordo em absoluto com essa premissa, mas não deixa de ser verdade que o Estado já regula de certa forma as profissões de cariz superior, pois é o Estado quem dita o número de vagas para cada curso. Todavia, o Estado foge completamente na regulação no ensino superior privado, e no meu entender, é neste ponto que se encontra grande parte do problema da educação com impactos negativos na economia. Durante anos, aos alunos que não conseguiam entrar no ensino superior público, as universidades privadas pareceram ser sempre opções aceitáveis considerando que havia uma pressão social para se ser formado. Contudo, grande parte dessas universidades, por questões de poupanças financeiras, tinham cursos superiores essencialmente na área das ciências sociais e muito pouco nas áreas tecnológicas. É comum haverem universidades privadas com cursos de marketing, relações internacionais, gestão ou direito, cursos com pouco valor acrescentado do ponto de vista estritamente económico, mas as mesmas universidades privadas, raramente lecionam engenharias, química, biologia ou medicina, áreas de formação com elevada empregabilidade e com um enorme potencial de promoção do crescimento económico.

    O sucesso da Educação de países como a Alemanha ou os países nórdicos foi exatamente esse. É praticamente não terem universidades privadas, tendo uma maior fatia do ensino público superior alocado para as áreas tecnológicas. Por isso, o problema que a Educação enfrenta em Portugal no meu entender, não é ter licenciados a mais, visto que segundo os dados oficiais, Portugal tem 17% da população licenciada em comparação com a média da UE que ronda 25%. O problema no meu entender, é ter-se promovido – por motivos culturais e políticos – a formação superior em áreas com pouco valor acrescentado do ponto de vista económico.

    in:http://www.veraveritas.eu/2014/11/educacao-economia.html

  5. Hugo Rego

    Acho estranho essa determinação percentual, ainda por cima tão elevada, dado que a atribuição de licença é da competência da OM (estranho o caso das duplicações) e a cédula caduca automaticamente ao fim de 5 anos, sendo renovada de acordo o definido pela Ordem. Creio que esses 30% estarão muito empolados.
    Há um problema (grave) no âmbito dos contingentes de formação e não se aplica apenas a sector médico.

  6. Seja como for, parece que temos duas conclusões:
    1. mais percentagem, menos percentagem, não há médicos a mais, neste momento. (talvez venha a haver…)
    2. ainda que no seu direito não deixa de ser lamentável os estudantes de medicina terem vindo apelar à redução do número de vagas.

  7. Ao que me dizem o nosso Estado concede com a maior facilidade licenças sem vencimento, garantindo a essa gente o emprego público, no caso de se darem mal ou de se arrependerem, sendo que alguns emigraram.
    E mais: dizem-me que ninguém sabe quantos funcionários estarão nestas condições: dispensados do serviço mas com vínculo ao Estado. O que se sabe é que muitos constam das estatísticas relativas às profissões que desempenharam.

  8. joao

    Isso justificaria o porquê de não termos muitos médicos desempregados como acontece em Itália, Espanha e Grécia. Como presumo que esse não seja o objectivo e como já referi no post anterior acerca do assunto ser irrelevante aumentar as vagas já que após o final do curso haverá sempre um novo afunilamento formativo pela capacidade do pais em formar especialistas a não diminuição de vagas só aumentará o numero de desempregados e indiferenciados e como estes serão médicos quase inúteis, que nada ou quase nada poderão fazer, o para estes será procurar fazer no estrangeiro a sua especialidade e depois ficar por lá sem que haja qualquer contra parte para os que cá ficam já que existe esse afunilamento formativo. Faz pois sentido manter o numero de vagas?

    Também temos este gráfico

    https://data.oecd.org/chart/4ucT

    e se juntarmos que estes são dados de 2013 (em 2015 já se formam um numero bem maior anualmente) mais aqueles portugueses que se licenciam em Espanha, Republica Checa, Roménia e outros países já devemos estar no topo da lista. Refira-se que alguns dos países que estão no topo da lista serão actualmente alguns dos nossos importadores. Continuava a gostar de saber qual a solução de modo a que se mantenha o numero de vagas e possamos continuar a formar igual numero de especialistas? Gostaria de poder defender essa solução e o país agradecia.

  9. Importante observação. Quanto aos médicos que se licenciam em Espanha, República Checa etc teriam de ir sempre par a o fim da lista e só quando todos os licenciados em Portugal fossem admitidos eles o poderiam ser.

  10. André Fernandes

    Boa tarde a todos,

    Apenas uma clarificação no que toca à proposta de Planeamento Integrado da Formação Médica em Portugal por parte da ANEM.

    A ANEM é, na sua proposta, transparente quanto aos dados enunciados. Pode, de facto, ler-se no documento enviado ao Governo

    “15. Apesar da perceção de falta de médicos, Portugal apresenta, de acordo com a OCDE, um total de 4,3 médicos por cada 1000 habitantes – totalizando cerca de 43.000, surgindo como o quarto país com mais médicos no grupo[1] (ver anexo 5). Por outro lado, segundo a ACSS – Administração Central do Sistema de Saúde, o país possui apenas 26.960 médicos no Serviço Nacional de Saúde (SNS), dos quais 8.515 são médicos internos[6]. (…)”

    De salientar que a intenção deste ponto na proposta tem sido erroneamente interpretada. Ao contrário do que foi dito nos diversos artigos da comunicação social e interpretado pela sociedade civil, não considera a ANEM que existam, atualmente, “médicos a mais”. Existe um número de médicos per capita superior à média, é um facto, mas a expressão “a mais” transmite uma ideia de excesso para as necessidades. Enquanto o problema da distribuição de médicos não se encontrar resolvido, e existirem regiões e especialidades médicas carenciadas, será difícil que nos possamos rever na formulação “médicos a mais”. A inclusão de tais dados na proposta pretendia apenas para sustentar que o problema que Portugal vive atualmente é de Planeamento, e não de número de médicos. Não se encontrando o problema no número (países com número de médicos inferior conseguem manter o seu Sistema de Saúde a funcionar), a proposta de redução dos ingressos em Medicina não implicará um agravamento da situação atual, desde que acompanhada por medidas de planeamento adequadas dos recursos humanos em saúde (que são, de qualquer forma, necessárias em qualquer instância).

    A proposta de redução dos ingressos em Medicina, por outro lado, não assenta nas necessidades previsionais do SNS (embora respeite as mesmas), mas sim na necessidade de estabelecer um número de estudantes que respeite os padrões de qualidade no ensino nas Escolas Médicas e que garanta a continuidade da formação a nível pós-graduado, assegurando assim médicos com qualidade no SNS.

  11. Caro André Fernandes, com a sua permissão irei publicar a sua resposta, que me parece relevante. Assim que tiver oportunidade tentarei responder em detalhe, até porque a previsão das necessidades de recursos humanos em saúde (médicos e enfermeiros) é a minha área de especialização.

  12. Pingback: Esclarecimento da ANEM – O Insurgente

  13. Isso é tudo conversa caro André porque no privado não há planeamento pois funcionam as normais regras de mercado. E mais médicos implica abaixamento dos preços algo que deixa a classe apreensiva visto que uma consulta de especialidade ultrapassa muitas vezes os cem euros. É disso que se trata.

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