Imperativos

kafka2I call ‘moralism’ a system of normative moral principles sufficient for the positive regulation of life. In other words, moralism excludes the possibility of morally indifferent actions. According to it, every action must be characterized as either fulfillment or violation of duty. [Leonard Nelson, System of Ethics, Yale University Press, 1956, p. 89.]

É muito por isto acima que tenho muitas vezes dificuldade em definir-me como sendo de direita sendo certo que de esquerda, nos tempos que vivemos, não sou de certeza (provavelmente sê-lo-ia há 150 anos, hoje não me revejo em nenhum dos dois lados da coisa).

O que é absolutamente insuportável na esquerda deste século é o moralismo arrogante e a pretensa superioridade moral, características que, quer-me parecer, acabam por ser comuns a uma direita mainstream que existiu durante muito tempo até há poucos anos. Basta ver as audições do Frank Zappa no Congresso americano nos anos 70-80. O que me encanita, é que se fosse hoje vivo, o papel dos moralistas seria desempenhado pelo lado oposto da barricada. Letras como a de Bobby Brown Goes Down, ou Dinah Moe Hum são, hoje, extremamente ofensivas mas para a esquerda beata e moralista. Hoje, seria varrido na imprensa, nas rádios e nas universidades e estaria atulhado de processos da moral majority desta vez de esquerda.

Este moralismo insuportável pode ser lido em Portugal todos os dias nas crónicas, artigos e discursos dos elementos do BE, nos artigos dos “jovens lobos” do PS, nos artigos da Fernanda Câncio, etc. Um moralismo insuportável e colectivista, sem qualquer consideração pela existência de situações e acções moralmente indiferentes ou de eficiência. Um exemplo:

O problema da proibição de homossexuais masculinos darem sangue por terem maior risco de infecção de VIH. Nem sequer é discutível que esse risco é de facto maior (nos EUA os homossexuais masculinos são cerca de 50% dos infectados o que significa uma incidência brutalmente superior ao resto da população), não é discutível que essa proibição poupa meios e facilita a despistagem. Mas não, o moralismo está-se cagando para a eficiência e para o risco, o que interessa é a ofensa moral e a pretensa discriminação. Rasgam as vestes do alto da superioridade moral e exigem que se esqueça estes pormaiores. E é assim em tudo. Ser de esquerda (como já foi ser de direita e em certos sítios ainda é) é ter o moral high ground, ser uma espécie de beato Salú mas convencido da sua própria superior inteligência e self righteousness.

Isto a propósito dos casos escabrosos em que estão envolvidos o Ex-PM engenheiro e o Lula. Não duvido que o dito seja uma excelente pessoa, genuinamente preocupado em melhorar a vida dos pobres brasileiros. Mas o que faz do caso dele e outros à esquerda especial, mais grave e profundamente irónico, é passarem a vida a apontar o dedo a toda a gente, a condenar a imoralidade de tudo e mais um par de botas para no fim mostrarem que não são melhores que ninguém. Pelo contrário e se há coisa que tenho para mim, é a péssima relação dos esquerdistas com o dinheiro. Incapazes de perceber que, sim, o capitalismo e o mercado têm uma moralidade e uma ética intrínseca (vou ser fuzilado por isto), que não vale tudo, que a acumulação legítima de dinheiro exige respeito por ele e comportamentos éticos, julgam que o que fazem, que a corrupção, é o normal. Que é o que toda a gente faz com impunidade e consciência tranquila.

O que nos vale, é que a estes miseráveis moralistas, acabam quase sempre com o moralismo a rebentar-lhe na cara. Tudo o que passem e nem que seja só por isso, é pouco.

Nota: sobre ética e moral há neste blog quem esteja muito melhor habilitado para escrever. Mas isto parece-me simples e detesto moralistas venham de onde vierem. Não foi para os aturar que a minha geração e as duas anteriores fizemos o que fizemos.

2 pensamentos sobre “Imperativos

  1. Pingback: Mais que a morte, também a vida | BLASFÉMIAS

  2. joaolmaximo

    Mas a discriminação é uma “positive regulation of life”, pelo que é moralista segundo o autor! E também não percebo porque é que é uma “pretensa” discriminação? Afinal condiciona a liberdade de uma porção significativa de pessoas. Entenderia, pelo contrário, se me dissesse que defendia a liberdade de não receber sangue de dadores homossexuais… mas isso é diferente!

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.