Porcos & Vacas. Feios & Maus

Começo com uma declaração de princípios : Há uns porcos que são melhores que outros e há umas vacas que são melhores que outras vacas.

Ou seja os animais não são todos iguais e quem percebe de agricultura sabe perfeitamente que há sempre áreas melhores que outras para produzir determinados produtos sejam de origem vegetal ou de origem animal. No caso do vinho todos percebem a diferença de ter um “terroir” especial para estar à frente da concorrência.

O mercado agrícola europeu (e a PAC) no entanto tem unificado o que não é unificável e tem dado a ideia de que um quilo de febra de porco ou de leite português ou francês é a mesma coisa. Não é ! Eu gosto da febra portuguesa mais do que da francesa. E o leite português tem virtudes que não existem no leite francês ou espanhol. As virtudes que só o português conhece.

Cabe aos consumidores entenderem, se o quiserem e decidirem, que esse valor especial que a carne de porco e o leite português tem relativamente aos produtos estrangeiros vale um preço diferente. E têm que o demonstrar com preferências e escolhas nas suas aquisições.

Mas um papel mais importante cabe a quem tem o poder de regulação (Estado)para impedir que as práticas de dumping sejam a forma dos produtores franceses sobreviverem à custa do desaparecimento dos produtores portugueses. Por cada litro de leite ou kg de febra (excedentario em França ou em Espanha) que se vende em Portugal há um produtor português de leite ou de febras,  EFICIENTE, que corre o risco de encerrar. E isso gera protestos e externalidades negativas difíceis de quantificar.

Eu sou um liberal, mas nada no liberalismo diz que devemos criar distorções na estrutura de mercado que favoreçam os mais fortes na sua relação com Bruxelas. No liberalismo, quando  há 2 forças que controlam o mercado e impõem práticas abusivas de preço através do dumping gerando crises artificiais em produtores nacionais eficientes sabemos quem está na parte errada desta equação.

Eu gosto mais do liberalismo shumpeteriano (dos pequenos mas em grande número) ou não fosse português de gema! Somos muito poucos mas somos muito bons. Os portugueses…

52 thoughts on “Porcos & Vacas. Feios & Maus

  1. Manuel Puerta da Costa,

    Quando compramos alguma coisa subsidiada pelos contribuintes franceses, perdem os contribuintes franceses.

    Talvez devêssemos fazer coisas que os contribuintes franceses não estejam a subsidiar. Ou apelar para o fim dos subsídios em toda a União.

  2. Quem é que consegue competir com os preços dos produtos que iam para o lixo? Quando se vende abaixo de preço de custo existem leis anti dumping para cumprir. No nosso país e na Europa. Devem-se queixar da concorrência desleal , suponho

  3. André Miguel

    Manuel, desculpe mas está errado. O petróleo é apenas uma comoditie, o seu valor acrescentado está na refinação.

  4. André Miguel

    Quanto ao post, axo que devíamos acabar com todos os subsídios na UE, para acabar de uma vez por todas com as distorções do mercado.

  5. Manuel Puerta da Costa,

    Uma empresa deve ter a prerrogativa de vender abaixo de preço de custo. Perde a companhia, ganham os consumidores, particularmente num mercado, como o do leite, onde as barreiras à entrada não são assim tão grandes. Uma empresa não pode fazer dumping por muito tempo e, afinal!, a infraestrutura para concorrer com ela continua construída.

    Fui convencido pelo senhor que escreveu «Liberdade para Escolher». Um tal de «Homem Livre» (Friedman).

  6. André Miguel,

    «o seu valor acrescentado está na refinação.»

    Na verdade está antes na tributação, um prémio dado a quem não extrai, não transporta, não refina petróleo nem arrisca no seu negócio.

  7. André Miguel

    Eheheheh! Bem visto Francisco!

    Ps: Onde escrevi comoditie deve ler-se comódite ou commodity. Maravilhas do tradutor android…

  8. Caro André, desculpe mas é você que está errado. O preço da gasolina tambem é uma commodity. Entre as duas actividades a extracção tem mais valor do que a refinacao. Os países produtores de petróleo ganham mais do que os refinadores.

  9. Por acaso em certas matérias não estou de acordo. Mas sempre considerei M.Friedman como uma referência intelectual . Não estou de acordo porque o dumping é anti economico e destrói valor para toda a sociedade

  10. «Não estou de acordo porque o dumping é anti economico e destrói valor para toda a sociedade »

    O dumping é propor trocar um porco por meia rodela de chouriço. Pode fazer isso quem tem muitos porcos, mas apenas até à vara se esgotar.

    Sou a favor de não se mexer no dumping ou na actividade económica, especialmente em sectores de poucas barreiras à entrada e de tecnologias bem conhecidas, porque a pata bem visível que tenta fazer a mão invisível tocar o compasso ternário da Valsa do Concórdia acaba sempre em 1) prateleiras vazias e 2) em preços exorbitantes. Se um idiota me quer vender um litro de leite de qualidade a preço muito simpático, seria muito mal agradecido — para não dizer uma cavalgadura bastante azêmola — não fazer o favor de o aceitar.

    O valor é apenas uma medida do número de horas de trabalho que eu estou disposto a abdicar para ter um certo bem ou serviço, se puder escolher comprar esse serviço e tiver concorrência com que o compre. Um litro de leite (sumo de vaca!) que entra na economia a 44 cêntimos ou que não entraria a 55 — e é disto que acabamos por falar — acrescenta valor no primeiro caso e fortalece os meus ossos. No segundo caso, o de não entrar na economia, não acrescenta valor e vai acabar por poluir à mesma sem que eu, consumidor, dele beneficie.

    Eu consumo leite português, da Nova Açores, par que conste. E não o troco.

    Talvez seja melhor fazer oura coisa que não esteja a ser subsidiada por franceses, e trocar por leite que eles subsidiam. Para o argumento, digamos que são pastéis de nata aquilo que exportamos. Fico com leite mais barato e exporto pastéis de nata, aliás feito com leite francês subsidiado pelos palermas dos contribuintes franceses. Sem que tenha forçado os contribuintes franceses (os bolobos!) a dar-me dinheiro à mão.

  11. Acho que não entendeu o argumento que tentei expor. Não proponho escolher português so porque é português . Nem peço que se se compre mais caro sem justificação económica. Seriam ideias contra o seus princípios liberais. Digo é defendo que Portugal é os consumidores portugueses estarão melhor se não aceitarem participar no dumping dos excessos de produção dos outros países europeus que não querem descer os preços locais. O que digo é que está firma de concorrência destrói indústrias viáveis e eficientes locais para evitar destruir empresas e empregos menos eficientes noutros países. Chama-se práticas predadoras e abri concorrenciais e estou certo que qualquer economista percebe a necessidade de que a racionalidade seja usada para bem de uma sociedade, mas não para destruir outra. Obrigado pelo comentário bem formulado e argumentado.

  12. Francisco,

    Isso não é bem assim. O dumping é de facto uma práctica anti-económica, pois em vez de se tentar arrumar com a concorrência na lógica de mercado, ou seja, -eu concorro com os meus argumentos de qualidade, marketing, eficiência produtiva, etc., passa-se a tentar arrumar com a concorrência com os excedentes vendendo abaixo do preço de custo da restante produção! Nesta lógica nenhum pequeno ou médio produtor conseguirá singrar, pois nunca sobreviverá tempo suficiente para ter uma eficiência acima dos 100% para também poder usar dessa “prática” económica! E só este facto é um inibidor à entrada de novas empresas no meio, o que por sua vez distorce a concorrência e cria oligopólios.

  13. André Miguel

    Manuel você abastece o seu carro com petróleo? Então porque as grandes petrolíferas estão em toda a cadeia de valor, desde o upstream ao downstream?

  14. MANUEL PUERTA DA COSTA : “Mas um papel mais importante cabe a quem tem o poder de regulação (Estado)para impedir que as práticas de dumping sejam a forma dos produtores franceses sobreviverem à custa do desaparecimento dos produtores portugueses.”

    O que é que deve fazer o Estado português que outros produtores venham vender no nosso mercado a preços mais baixos ?
    Taxar as importações de leite e a carne de porco importada a preços mais baixos de outros paises europeus ?
    A legislação europeia não o permite.
    Subsidiar os produtores portugueses ?
    Para isso é preciso dinheiro, que o Estado português não tem, e que a UE aceite.
    Normalmente, no quadro da PAC, o que é possivel é que a UE aceite aumentar as quotas nacionais de compras de excedentes e o valor máximo do subsidio que cada estado pode atribuir a cada exploração agricola.
    Ou seja, aumentar ainda mais a produção de excedentes pagos pelos contribuintes nacionais e europeus.
    Neste momento, o governo português é um dos que apoiam as iniciativas do governo francês para que a UE aumente as quotas e aceite que os Estados nacionais subsidiem os seus produtores com valores ainda maiores.
    Uma fuga para a frente !…
    O que faz sentido é defender antes a redução, enquanto não é o fim puro e simples, das compras pela UE e dos subsidios nacionais autorizados.
    Mas não é isso o que os produtores nacionais esperam.
    Pelo contrario, pedem preços internos garantidos e mais subsidios nacionais e europeus.

  15. O Estado português deve vigiar o cumprimento das leis que já existem e processar os que não as cumprem. O Estado não deve subsidiar ineficientes, mas não deve deixar morrer os mais eficientes por causa de práticas anti concorrenciais

  16. Se pedem preços mínimos garantidos vão no sentido errado. Ainda que os preços portugueses de venda ao público nestes 2 produtos estejam perto dos mínimos entre os países europeus à custa do tal dumping.

  17. “O Estado português deve vigiar o cumprimento das leis que já existem e processar os que não as cumprem.”

    Que leis são essas ?
    Que medidas, concretamente ?

  18. É muito dificil, práticamente impossivel, determinar o que é ou não é “dumping”, o que não é o resultado de vantagens competitivas, ganhos de eficiência, estratégias comerciais “agressivas”, etc
    O facto dos produtores de certos paises receberem subisdios e terem outras ajudas de Estado, nacionais e supra-nacionais, é uma vantagem competitiva discutivel e contestável (os liberais criticam, eu critico …) mas perfeitamente “legal”.
    Do mesmo modo que é uma vantagem legitima a que têm produtores de paises onde se pagam menos impostos e/ou que têm beneficios fiscais.
    As justiças nacionais e a justiça europeia não podem fazer nada contra esta realidade que, no fim de contas, é politica.
    Acresce que os produtores europeus que vendem em Portugal a preços mais baixos do que os nacionais não estão a vender abaixo dos respectivos preços de custo. O que acontece é que os respectivos custos são inferiores pelo menos em parte devido às ajudas que recebem dos respectivos Estados nacionais e da UE por via da PAC.
    Portugal pode naturalmente defender em Bruxelas que, por um lado, as ajudas que aqueles produtores recebem sejam diminuidas e, por outro lado, sejam permitidas e aumentadas as ajudas aos seus proprios produtores.
    Mas Portugal não tem peso economico e politico suficiente para tal.
    E, no final de contas, esta fuga para a frente consistiria em reforçar o carácter intervencionista da PAC no livres funcionamento dos mercados e acabaria por ser também prejudicial para Portugal, que estaria a desperdiças recursos e energias na manutenção de actividades que nada garante que sejam viáveis e rentáveis em situação de livre e leal concorrência.
    Do meu ponto de vista, o governo português não pode fazer grande coisa no imediato e deve antes adoptar uma posição de fundo que vai no sentido da diminuição das “ajudas” da PAC e das “ajudas” nacionais permitidas.

  19. 1. O que as organizações dos produtores de leite e carne pedem é um ainda maior intervencionismo do Estado nos respectivos mercados :

    “Reclamando ser “indispensável a regulação legislativa e a fiscalização da atividade dos hipermercados”, o setor reclama também ao Ministério da Agricultura e ao Governo que criem “condições para escoamento, a melhores preços à produção, dos produtos agroalimentares” nacionais, desde logo o leite e a carne, e que ao mesmo tempo efetuem um “controlo severo das importações, como está a fazer a Espanha desde há meses”.

    Ainda exigido pelas organizações agrícolas é uma “‘retirada’ à produção (compra pública a preços compensadores) dos vitelos e das vacas já fora da produção leiteira”, assim como a isenção temporária e “sem perda de direitos” do pagamento das contribuições mensais para a Segurança Social e o reembolso de parte do consumo da ‘eletricidade verde’.

    Adicionalmente, o setor pretende um aumento da ajuda (ligada à produção) à vaca leiteira e a promoção do “consumo prioritário” da produção nacional nas cantinas públicas e dos mercados de proximidade.”
    http://observador.pt/2016/03/14/produtores-leite-carne-manifestam-matosinhos/

    2. O governo português secunda esta orientação iliberal na UE :

    ““Após auscultação e recolha de contributos das fileiras do leite e da carne de suíno, o Ministro da Agricultura elaborou um conjunto de propostas que vai agora defender em Bruxelas, e que se dividem em medidas que respondam de imediato à crise conjuntural e medidas de médio/longo prazo para garantir a sustentabilidade de mercado”, lê-se num comunicado divulgado no sábado pelo Ministério da Agricultura.”
    http://observador.pt/2016/03/14/capoulas-santos-vai-bruxelas-propor-novos-apoios-leite-suinicultura/

    3. Se eu fosse produtor de leite e carne também me bateria por ter mais ajudas publicas…
    Mas não me limitaria a ficar à espera de ajudas públicas, que serão de qualquer modo sempre limitadas e transitórias, e procuraria antes adaptar a minha actividade às condições reais existentes, esforçando-me por melhorar a eficiência da minha exploração e estando atento para, caso não conseguisse uma viabilidade e rentabilidade razoável, equacionar uma reconversão ou até uma mudança radical de sector de actividade.

    4. Politicamente, como como liberal, pensando no meu interêsse bem compreendido e no do maior numero dos portugueses, independentemente de serem ou não produtores de leite e carne, considero que o intervencionismo estatal, por mais protector e vantajoso no imediato que seja, é a pior maneira de enfrentar os problemas de fundo e de longo prazo nestes sectores.
    Como politica de fundo e estrutural, o governo português não deveria apostar em mais intervencionismo e em mais ajudas e deveria antes criar condições para que os mercados funcionem de modo livre e transparente, tanto a nivel nacional como a nivel europeu (UE) e internacional (OMC).

  20. Gostei do seu comentário em tudo. Só que há um detalhe que a todos portugueses diz respeito que é a autonomia na produção de bens essenciais da fileira agricola. E isso tem um valor economico e social que deve ser contabilizado. Eu sou o primeiro a estar contra as intervenções nos mercados , mas se elas são para prejudicar o produtos português e defender o francês, ou espanhol, começo a ficar mais aberto a que os reguladores e legisladores actuem em prol de um sa concorrência entre todos .

  21. Actualmente, MESMO com as diferenças entre os subsídios, entre os preços da energia, legislação laboral difícil de ajustar-se à realidade agrícola o preço que o produtor em Portugal recebe é menor que a média europeia e o preço que o consumidor paga é mais baixo que a média europeia

  22. Manuel Puerta da Costa,

    Aprecio e simpatizo em geral com os seus posts aqui no “Insurgente”.
    Penso que estamos de acordo quanto ao essencial.
    Subsistem algumas diferenças.
    É natural. A unanimidade não existe. Nem seria sequer salutar e enriquecedora.
    São diferenças marginais, que não me parecem ter efectivo significado politico.

    Sinceramente, eu não sei bem o que são sectores “estratégicos” na economia e para o pais.
    Incluindo o da “produção de bens essenciais da fileira agrigola”.
    Porquê estes e não tantos outros ?
    Cada um tem uma ideia diferente sobre o que é ou não “estratégico”.
    Não penso que seja a politica que deve determinar o que é “estratégico” e, consequentemente, não cabe aos governos tomar medidas discrimintórias que “protejam” e favoreçam esses sectores.
    O que sempre implica um maior intervencionismo na economia.
    Como liberal, penso que deve ser o mercado livre a determinar quais são os sectores importantes e como devem ser desenvolvidos.
    No final, em termos liquidos, ganha o conjunto do pais, com uma economia pais dinâmica e eficiente.

    No que se refere à agricultura, a “autonomia” não é hoje possivel. De um modo geral. Mesmo nos grandes paises. Ainda menos num pais pequeno como Portugal.
    E o pouco de autonomia que se consiga custa caro. Em recursos esterelizados. Em perda de liberdade e concorrência.
    Se pudermos comprar bens alimentares a um preço menor do que aquele que é viável para os produtores nacionais, então não devemos bloquear e desperdiçar esta oportunidade.
    Mesmo que isso implique, por via da concorrência, a limitação ou mesmo o desaparecimento desses nossos produtores.
    Os recursos assim libertos, e poupados, poderão ser canalizados, através do livre funcionamento do mercado, para a produção de outros bens onde seremos mais competitivos e que podem substituir outras importações ou serem exportados.
    No final teremos um ganho liquido, seremos mais ricos.
    Esta é a “autonomia” que mais conta : a de uma economia que globalmente mais rica e, por consequência, mais forte.

    O Manuel vai provávelmente lembrar agora que não defende intervenções nos mercados para favorecer uns em prejuizo de outros.
    Como sejam subsidios, taxas aduaneiras, preços administrados, etc.
    Apenas defende que o Estado, através dos legisladores, reguladores e dos tribunais que aplicam a lei, garanta o que designa por “sã concorrência”.
    Bom, uma intervenção minima do Estado, reguladora, fiscalizadora, sancionadora, é conveniente.
    Mas, a meu vêr, não deve ir ao ponto de interferir na definição do que são ou deixam de ser os preços “justos” no mercado. O que são preços injustificadamente altos ? O que são preços injustificadamente baixos ?
    Já referi em cima que os preços dependem de inúmeros factores e que é práticamente impossivel quantificar o peso de cada um deles.
    Aceitar que seja o Estado a fazêr isso é abrir uma caixa de pandora.
    É abrir a porta a todos os erros politicos e a todos os arbitrios e descriminações.

  23. Manuel Puerta da Costa,

    O ideal seria não existirem subsídios de espécie alguma. Mas isso não existe.

    Ora, se não podemos competir com eles, lixamos-lhe o dinheiro deles. O contribuinte francês paga grande parte da PAC (são muitos e são contribuintes líquidos), e logo é justo que decidam o nível de idiotice que querem meter no pagar para que eu consuma. Como não troco o Nova Açores senão pelo Gresso e só quando não há, talvez passe a comprar leite francês apenas para bolos quando me apetece lixar os franceses.

    Hustler,

    Não sei se tem isto presente, mas o leite é tirado dos animais para consumo humano há pelo menos seis milénios. A ciência de o fazer é bastante conhecida, não tem grandes segredos, e uma exploração pode ser constituída em menos de ano e meio. Menos até, já que a infraestrutura é mínima, e basta ter aminais adultos para iniciar a produção.

    Quem quiser levantar os preços depois do dumping arrisca-se a levar com uma fracking de leite à americana. Sabe porque é que o petróleo não vai subir muito dos USD 40,00? Porque os americanos que pararam os campos de óleo de xisto disseram que aos USD 40,00 voltam a produzir. A infraestrutura está lá toda.

  24. Obrigado pelas palavras simpáticas. Julgo, ou melhor estou certo que a palavra estratégico não esta incluída no meu post. O que é normal, pois detesto a palavra que se usa a torto e a direito para justificar o que não tem justificação económica. No que diz respeito a estes dois produtos (leite e carne de porco) só os estou a defender porque são sectores eficientes em Portugal que estão a ser destruídos pelos ineficientes do estrangeiro e pelos excessos existentes na Europa a este nível. Sou contra o intervencionismo do Estado, mas também sou contra o vandalismo dos agentes económicos que destruam valor para o país a longo prazo por se encontrarem em posiciones oligopolísticas. Já perdemos as pescas ha muitos anos e arrependemo-nos disso , se a agricultura se vir amputada da fileira leiteira e suína será grave. Mais do que quem vive na cidade como eu, consegue perceber

  25. Manuel Puerta da Costa,

    Mais umas notas para a discussão deste assunto …

    Efectivamente, o Manuel não utilizou a palavra “estratégico” …
    Falou no “valor economico e social” da “autonomia na produção de bens essenciais da fileira agricola”.
    Mas eu interpretei o que disse como estando a considerar que estes sectores têm uma importância adicional … estratégica!…🙂
    Isto é, algo que pode ser valorizado em si, para além do valor de mercado da respectiva contribuição liquida para o conjunto da economia.
    Ou seja, este valor da autonomia poderia superar o que se pode perder em valor pelo facto de se prescindir de comprar bens por um preço mais baixo e utilizar os recursos produtivos noutras actividades mais produtivas.
    Sendo que este valor da autonomia é avaliado e contabilizado por critérios politicos, que não resultam directamente do funcionamento do mercado.
    É este o aspecto que não me convence.

    O Manuel parte do pressuposto de que estes sectores são eficientes em Portugal.
    Mas como é que chega a esta conclusão quando se constata que num mercado aberto, em concorrência com produtos importados, não são rentáveis e portanto viáveis ?…
    Aqui o Manuel introduz um outro pressuposto, o do “dumping” (a venda abaixo do preço de custo) por parte dos produtores externos.
    Como já referi, é extremamente dificil destrinçar entre os diferentes factores que podem fazer com um produtor possa oferecer bens em condições de preço mais baixos.
    Além de que, como diz o Francisco Miguel Colaco, mesmo que um produtor pratique verdadeiramente o “dumping”, não o poderá fazer por muito tempo e muito menos eternamente.
    Pelo contrario, se for duradouro e com forte impacto nas condições de actividade dos outros produtores, é porque há vantagens competitivas que são reais pelo que não se pode falar de “dumping”.

    O Manuel vai agora dizer que pelo menos algumas dessas vantagens podem vir de subsidios e ajudas de Estados nacionais e, no caso europeu, da UE.
    Certo, mas como com outras vantagens e desvantagens especificas a cada um dos paises de origem dos produtores, um Estado nacional como Portugal, através do seu governo, dos seus tribunais, das suas empresas, não pode hoje fazer grande coisa para que este tipo de diferenças se atenue e desapareça.
    Digamos as coisas como elas são : a igualdade de condições concorrenciais dos diferentes intervenientes no mercado, sejas elas internas ou entre paises, não existe, nunca existiu nem nunca existirá.

    Ou seja, se os nossos produtores, seja em que sector for, não conseguirem competir com os preços da concorrência externa, sejam quais forem as causas das diferenças, durante um tempo demasiado longo para poderem ser rentáveis, então há que concluir que não são viáveis e é preferivel que se decidam pela reconverção e mudança de actividade.
    Não vale a pena estar a contar com alterações significativas e positivas das condições externas, que não vão chegar ou vão ser muito lentas.
    A ideia de que uma substancial igualdade de condições concorrenciais pode ser alcançada e deve ser procurada de forma voluntarista através do intervencionismo do Estado é central em correntes centristas, tanto à direita (“liberalismo social”) como à esquerda (“social liberalismo”).
    Mas é uma ilusão que não se realiza e que muitas vezes acaba mesmo por ter efeitos perversos.

    De resto, duvido sériamente que as regras europeias, que se sobrepõem às legislações nacionais dos Estados membros, permitam que um pais se oponha à importação de produtos importados de outros paises europeus com o pretexto de que estes são vendidos a preços demasiado baixos.

    A mudança, com a redução da produção ou mesmo o fim da actividade, não significa que as pessoas morrem e que os outros recursos produtivos se perdem.
    A restante economia, que se supõe mais viável e rentável, porque mais competitiva face à concorrência externa, pode absorver progressivamente a totalidade ou uma boa parte dos recursos assim libertados.

    O papel do Estado não deve ser o de tentar contrariar este processo, de algum modo “natural” (livre funcionamento do mercado), nomeadamente através de subsidios e medidas de “protecção” do mercado, que quando muito apenas adiam um desenlace inevitável, mas antes o de acompanhar a transição dando algum apoio às pessoas e familias envolvidas (já agora, até utilizando os fundos da UE disponibilizados para o efeito).
    Eu sei que pode parecer chocante aceitar que existam e se utilizem fundos europeus para “ajudar” a reduzir produções e fechar empresas.
    Como aconteceu com as pescas e outras actividades agricolas (vinha, gado, etc).
    Mas, no fim de contas, ainda é o melhor modo de acompanhar processos de ajustamento estrutural que são inevitáveis ajudando as pessoas afectadas durante a transição.

  26. Eu não tenho nada contra a ideia de que os menos eficientes devem desaparecer e os mais eficientes sobreviver. Antes pelo contrário, sendo defensor da lógica de mercado é aí que reside a destruição criativa que lhe está subjacente e que cria mais riqueza a longo prazo. No entanto é para que fique bem claro os produtores portugueses de leite encontram – se entre os mais eficientes da Europa (custos médios da Europa considerados vs Portugal ) . E é esse o cerne da questão. Destruir empregos e zonas rurais dependentes da agropecuária (cujo valor económico não se mede na mera diferença entre dois preços de custo, mas para esta discussão é irrelevante ) apesar do sector ter investido, ter – se modernizado, ter criado uma marca e com isso ter – se tornado competitivo não me parece a melhor solução. Em especial porque também está em causa a relação de forças entre os compradores/distribuidores (cujos interesses vão bem além do leite e da carne de porco) e os produtores. Não se trata de uma birra minha, apenas de demonstrar que (como disse no meu post inicial) o mercado precisa de ter práticas concorrenciais e não práticas oligopolistas tas para

  27. O que não percebo é como é que se pode dizer por um lado que os produtores portugueses de leite são dos mais eficientes e competitivos na Europa e por outro lado que os produtores portugueses não aguentam a concorrência de produtos importados da Europa a preços mais baixos.
    Se não aguentam a concorrência é porque objectivamente não são competitivos !…
    Sejam quais forem as razões.
    O Manuel parece sugerir que não são competitivos porque existe uma concorrência externa que é oligolopolista.
    O que é que isto significa ?
    Tanto quanto me apercebo os fornecedores externos são diversos e não meia dúzia de grandes operadores.
    Mas mesmo que fosse o caso.
    Nenhum mercado é perfeitamente concorrencial no sentido de que todos os intervenientes têm uma dimensão equivalente e beneficiam das mesmas condições de mercado.
    No caso de mercados abertos ao exterior esta hipótese é ainda menos realista.
    Tanto mais que enquanto num mercado interno fechado o Estado nacional (incluindo a justiça) ainda pode intervir no sentido de corrigir imperfeições concorrenciais já num mercado aberto tal não é possivel.
    Quando muito, em sectores de actividade em que apenas existem poucos grandes operadores, como a produção e distribuição de energia, ainda pode haver alguma intervenção da UE, nomeadamente através da Comissão para a Concorrência e da justiça comunitária.
    Mas não é o caso e não é o que acontece na maior parte das actividades económicas, incluindo os sectores do leite e da carne.
    O que se pode esperar é que o Estado portugês procure influenciar politicamente as regras e as práticas europeias no sentido de estas nivelarem as ajudas aos produtores dos diferentes paises ao nivel da PAC.
    Mas tudo isto implica negociações e relações de força que não são de molde a ver alterações importantes nos próximos tempos.
    Entretanto, a vida continua e os nossos produtores, em todas os sectores mais expostos à concorrência externa, têm de se adaptar de modo a serem hoje viáveis e competitivos.
    Com as condições de mercado actuais e não relativamente a condições hipotéticas, ideais, futuras.
    Ou seja, não devem estar à espera de milagres que possam vir de uma alteração significativa das regras e práticas europeias nem de ajudas excepcionais por parte do Estado português e da UE.

  28. Eu até posso aproximar-me da posição do Manuel reconhecendo que os produtores portugueses de leite e carne têm algumas desvantagens competitivas que adulteram o mercado e que resultam da PAC.
    Neste sentido, também defendo que o Estado português intervenha politicamente na UE para tentar alterar esta politica comum num sentido que seja mais favorável aos interêsses dos produtores portugueses.
    Mas não tenho grandes ilusões e expectativas.
    E como não considero que o interêsse de Portugal passe por recusar as regras e as práticas europeias, parto do principio de que entretanto temos de nos adaptar às condições existentes do melhor modo possivel.
    Ou seja, deixar os nossos mercados funcionarem do moso o mais livre possivel, sem que o Estado adquira um peso excessivo na sua qualidade de regulador.

  29. Hugo Rego

    Em linha com o que Manuel Puerta da Costa defendeu, se os mercados funcionassem apenas em função da sua natureza (leia-se, de acordo com o que deveriam ser as regras empíricas de mercados perfeitamente concorrenciais), não estaríamos como estamos hoje (Europa, States, Japão, etc,). Mas a realidade deveria, pelo menos, obrigar a questionar uma série de pressupostos. Até porque a realidade obedece a uma lógica bem visível. Poder-se-á, ou não, querer observá-la. Mas isso é outra questão…

    A questão dos “sectores estratégicos”: é curioso advogar-se o “livre funcionamento dos mercados” e serem estes a definir, livremente, as práticas concorrenciais, sob a suposição de que, no final, o consumidor será sempre vitorioso. Nada mais errado.
    Alguns exemplos: petróleo:

    A OPEC, nos anos 80, levou a cabo uma guerra concorrencial. Ganhou. Garantiu maiores quotas de mercado e, com isso, o monopólio da fixação de preços e volumes. Perdeu o resto do mundo, não só em relação à commodity mas também do ponto de vista geo-estratégico, obrigando a investimentos avultados em política externa e em conflitos armados (pois, esta coisa dos “sectores estratégicos tem, regra geral, influência bem para além do particular em si do activo/sector. Chamemos-lhe, custos conexos agregados).

    A Microsoft. Creio que esta não precisa de desenvolvimento.

    A Monsanto. Esta também não e ainda a procissão vai no adro.

    O sector agrícola é fundamental (a par com o sector extractivo, são os sectores prime de qualquer economia; do ponto de vista puramente económico, são a base de toda a economia), leia-se, estratégico, tal como a política de quotas embora haja muita falta de informação e conhecimento sobre a natureza, necessidade e racionalidade destas. E aqui é que a porca tem vindo a torcer o rabo. Ou a vaca, neste caso.

    É que esta crise leiteira (que, note-se, não é apenas apanágio nacional) tem vindo a ser alimentada pela alteração da política de quotas europeias (aumento gradual anual com vista a uma eventual liberalização do sector). E também convém não esquecer que, para além do eventual monopólio por parte de países produtores, existem uma linha altamente condicionadora – a distribuição – que, em Portugal (e não só) tem uma estrutura claramente monopolista (será que não deveria ser discutida a fundo ?).
    Nisto, chamar a atenção para alguns pormenores:

    – os 2 maiores produtores europeus são a Alemanha e a França (21,2% e 17,1% respectivamente
    – o aumento/liberalização da produção conduz a uma espiral depreciativa dos preços (preços baixam – aumenta a produção para diminuir os custos de produção/kilo – volumes/oferta aumentam- pressão depreciativa dos preços aumenta)
    – tal como Puerta da Costa afirmou, Poryugal é altamente eficiente do ponto de vista produtivo (só batido pela Finslandia; eficácia produtiva superior em 13,4% e 22,7% em relação à Alemanha e França)
    – o custo médio de produção de quilo de leite na UE é de 44,37cts e a Alemanha tem estado a vender a um preço médio de 29,01cts (abaixo do custo de produção e não é o único caso na UE).

    Não é preciso um desenho para perceber o que se passa. Falta incorporar devidamente a questão da distribuição, do seu eventual alinhamento com uma estratégia regional, e o seu peso na formação bruta dos preços mas a lógica é a que se conhece.

    Se a “Lei do Mais Forte” se aplicar indiscriminadamente, quase todos acabam com um olho negro e o dinheiro do lanche vai parar aos bolsos de poucos. A lenga-lenga de que “os mercados auto-regulados” vão beneficiar o consumidor é, como os brasileiros costumam dizer, papo mole p’ra boi dormir…

  30. HUGO REGO : “A OPEC, nos anos 80, levou a cabo uma guerra concorrencial. Ganhou. Garantiu maiores quotas de mercado e, com isso, o monopólio da fixação de preços e volumes.”

    Não vejo ao que se refere …
    O preço do petróleo subiu até ao inicio dos anos 80, com um pico a 40$/bl, recomeçou a descer progressivamente para atingir um minimo abaixo dos 20$/b no final do século, para recomeçar a crescer até atingir um pico de 130$/b em 2008, nas vésperas da crise internacional, e voltar a descer desde então para estar hoje abaixo dos 40$/b.
    Onde é que está o monopólio da OPEP ?!…

    .
    HUGO REGO : “o custo médio de produção de quilo de leite na UE é de 44,37cts e a Alemanha tem estado a vender a um preço médio de 29,01cts (abaixo do custo de produção e não é o único caso na UE).”

    Um média é apenas uma média …
    A Alemanha não vende abaixo do custo de produção.
    Tem é produtores com um custo de produção mais baixo do que a média.
    Nomeadamente devido ao desenvolvimento de unidades de produção leiteira de massa (mais de 1.000 cabeças por exploração), altamente mecanizadas.
    A questão suscita um forte debate, nomeadamente em França, onde a legislação limita a dimensão produtiva das explorações para proteger os produtores existentes.

    .
    HUGO REGO : ” o aumento/liberalização da produção conduz a uma espiral depreciativa dos preços (preços baixam – aumenta a produção para diminuir os custos de produção/kilo – volumes/oferta aumentam- pressão depreciativa dos preços aumenta)”

    Quer dizer, o Hugo Rego defende a limitação forçada da produção para que os consumidores paguem o produto mais caro !…
    Está tudo dito !!

  31. Não sou que defendo mais Estado. Apenas que naquilo que deve existir (vigilância das práticas anti concorrenciais) funcione de facto . Menos Estado para mim em regra será melhor Estado . Obrigado

  32. Manuel Puerta da Costa,

    Eu sei que o Manuel não defende mais Estado, antes o contrario.
    Os seus postes aqui no “O Insurgente” demonstam-no.
    Por exemplo, penso que, apesar do que foi dito, o posicionamento do Manuel é muito diferente da do Hugo Rego aqui em cima, contrario aos mercados livres e defensor de um forte intervencionismo do Estado na economia.
    Pelo meu lado, estou longe de ser um libertariano anarco-capitalista.
    Reconheço a necessidade e um papel para o Estado.
    Desde logo como Estado de Direito.
    Incluindo neste as regras e as acções que visam a criação e a manutenção de condições de funcionamento de um mercado livre e concorrencial.
    Dito isto, eu considero que, no tempo presente e em Portugal, estas condições se garantem sobretudo evitando que o poder do Estado seja instrumentalizado por alguns para favorecer mais uns em prejuizo de outros, em particular através da atribuição de subsidios, isenções e privilégios de mercado.
    Ou seja, trata-se sobretudo de liberalizar os mercados reduzindo a intervenção do Estado.
    Admito que em certos sectores, em particular naqueles onde existem limitações naturais à concorrência perfeita (energia, certas infraestruturas de transporte, água, etc), a regulação do Estado deva ir um pouco mais longe.
    Mas, de um modo geral, não confio no Estado para interferir directamente na estrutura dos preços e na delimitação da dimensão das empresas.
    Por isso prefiro mercados imperfeitos mas livres da intervenção do Estado a mercados onde o Estado é suposto determinar o que são ou não práticas anti-concorrenciais.
    Quando se trata da concorrência externa é ainda mais complicado.
    O governo de um pequeno pais como Portugal tem nenhuma ou pouquissima margem de manobra para interferir no sentido de atenuar imperfeições de mercado introduzidas do exterior.
    Como já referi anteriormente, não creio sequer que seja possivel no quadro das regras europeias que o governo e a justiça de Portugal possam impedir eventuais práticas consideradas anti-concorrenciais.
    Reconhecer ao Estado português justificação e legitimidade para fiscalizar preços e quantidades nos mercados, mesmo que seja em nome da concorrência perfeita, é um risco elevado, o de que este poder possa ser mal utilizado, nomeadamente para condicionar e restringir a própria abertura do mercado e a liberdade dos intervenientes.

    Boa noite.

  33. Hugo Rego

    Fernando S, relativamente ao movimento da OPEC em finais de 70, década de 80, terá que estudar um pouco sobre o mesmo. Embora a mecânica e fundamentos dessa situação tenham sido diferentes da actual, importa reter que a crise dessa altura foi despoletada por um movimento da OPEC, e cujos objectivos transcenderam a mera manipulação do preço per si. Reter que, todavia, o preço foi manipulado, com enorme impacto económico global. Como pormenor, a preços ajustados, o spike que refere nos $40 deve ser devidamente enquadrado, isto é, com o preço ajustado a preços correntes para uma melhor leitura e compreensão. Esses $40 representaram, a preços actuais, cerca de $100. Referir também que o spike de 2008 não se situou nos $130 mas sim nos $147. Pormenores que, no entanto, fazem a diferença quando analisado à luz das necessidades de financiamento/dependência de cada Estado.

    Uma média é apenas uma média mas uma média ponderada é mais do que uma simples média. De qualquer forma, se vamos estar a desvalorizar dados e números, então poderemos deixar qualquer análise objectiva de lado e cingirmo-nos a estados de alma.

    Quanto a números (vamos chamar-lhe de realidade em oposição a conceitos), a tal média ponderada reflete os custos reais das explorações na Alemanha. Você refere a questão das unidades de produção em massa mas estas detêm uma quota relativamente limitada já que as explorações com mais de 300 cabeças representam 15% da produção total sendo que as explorações com até 50 cabeças representam quase 50% e os custos de produção destas explorações situam-se próximo dos 40cts/K (há assimetrias geográficas, tal como em Portugal), logo, há aqui venda abaixo de custo que está a ser induzida pelas grandes empresas, cujos custos estão marginalmente acima dos actuais valores de venda, numa estratégia clara (e assumida dentro do sector) de competição e tentativa de estrangulamento das pequenas e médias explorações (isto está bem patente em relatórios do sector)

    A par da economia de escala possível nas explorações de grande dimensão, estas podem investir a outros níveis, como o é o caso da produção de bio-gás, para consumo interno da própria exploração, o que não é financeiramente viável para explorações mais pequenas. No entanto, a questão da concentração levanta dilemas, a começar pela possibilidade de cartelização.
    Um facto incontornável: há, no limite, dumping. (Esta lógica é semelhante ao que se passa, hoje em dia, com a questão do petróleo).

    Sim, eu defendo uma limitação forçada da produção (daí a existência de quotas) por várias razões. Logo à cabeça, a protecção do sector e a protecção do consumidor.

    Eu até entendo o embevecimento pela teoria dos mercados perfeitamente livres e concorrenciais mas a teoria não passa disso – teoria – e, na verdade, analisando apenas segundo a lógica, o libertarianismo conduz à mesma condição que o socialismo radical – monopólio/oligopólio.
    A natureza do conceito assenta num único princípio – concorrência/competitividade. Neste cenário, no limite, apenas o mais competitivo sobrevive e apenas este passará a dominar o mercado, destruindo a sua razão de ser. O mercado concorrencial, enquanto conceito, deixaria de existir enquanto fim em si, ao ter-se tornado no próprio meio para o eliminar. (Microsoft ring a bell? O preço do software baixou ? Permitiu a inovação no sector ? O consumidor foi beneficiado ? Pois…)

    A necessidade de regular os mercados e a dimensão sectorial advém da própria natureza dos mercados: eles não existem para beneficiar o consumidor e são facilmente desvirtuáveis nesse sentido. A empresa age em função das expectativas do accionista e não do consumidor. O consumidor é o meio para atingir o fim: a mais-valia. Sem concorrência, está livre para definir preços e limitar a inovação que coloque em causa a estabilidade da sua estrutura produtiva (recordar também o caso da indústria automóvel americana e da Tucker Corporation. A ironia…).

    Do ponto de vista da competitividade e da inovação, nem sequer coloco em questão a necessidade de dimensão para otimizar processos produtivos mas tenho que acautelar o ponto de equilibrio entre dimensão, concorrência e distorções/disrupções que se traduzam em desestruturações do tecido económico. E a realidade bate todas as teorias. Basta dar um passeio por Bruxelas e dar uma vista de olhos à catrafiada de gabinetes de lobbies lá instalados.

    Claro que isto advém de uma concepção pessoal que eu tenho sobre mercados, direitos, direitos fundamentais e Direito. Porque é que as empresas devem ter o direito de não ter que estar limitadas, nem sujeitas, a condições que garantam uma dinâmica saudável quando eu o exijo (e bem) à sociedade ? Essas regras não existem para proteger a sociedade da própria sociedade ? O mercado do próprio mercado ?

    Será que continuamos a teimar em achar que a História é apenas matéria de suporte a guionistas holliwoodescos e não uma base de estudo ? A questão das quotas assenta numas quantas preocupações. Para começar, uma estabilização do sector produtivo rural.

    Não sei se sabe mas, durante a nossa História, atravessamos problemas de desertificação rural e consequente perda de capacidade de produção. A recapitalização estrutural humana do tecido laboral e empresarial agrícola foi, historicamente , difícil, moroso e com custos que foram muito para além da mera aritmética econométrica do sector. É fundamental criar regras que sustentem esse equilíbrio.

    Não é uma questão de “mais Estado” mas sim uma questão do Estado definir limites mínimos de sustentação de um sector, permitindo a competitividade, inovação e pluralidade acima desse limite. E reforço a questão da pluralidade porque se você não tem noção da importância da mesma é porque nunca soube o que é e o que implica gestão estratégica.

    Uma das outras vertentes estratégicas passa pela importância fulcral que o sector agrícola representa na formação de preços e no CPI. Historicamente, a desestabilização e desestruturação do mercados agrícola conduziu a crises nos preços, inflação galopante, crises alimentares e este é o sector que, curiosamente, quando desequilibra profundamente (geralmente, paralelamente a uma crise profunda) é o catalisador-mor de movimentos sociais disruptores.

    Por isso, sim, sou contra os mercados desregulados, tal como sou contra a primazia do “O Consumidor é Rei” e da “Liberdade Total Empresarial”. O Estado deve proteger o consumidor de si próprio e das empresas e deve proteger as empresas de si próprias e do consumidor. Porque, em última análise, ambos são individualistas. O consumidor está a borrifar-se para a empresa e a empresa está a borrifar-se para o consumidor. E por aí fora.

    Quanto ao você “não crer sequer que seja possível no quadro das regras europeias que o governo e a justiça de Portugal possam impedir eventuais práticas consideradas anti-concorrenciais”, lamento. Creio que será uma questão de relatividade. Pessoalmente, entendo que existam fortes limitações. Mas também entendo que, desde 1986, embora com limitações diferentes, somos muito mais influentes do que aquilo que seria suposto sermos. Em Bruxelas (e não só) apercebemo-nos disso. Disso e de que a vontade e qualidade das pessoas e dos grupos de trabalho são mais determinantes para o sucesso e influência do que a mera suposta força empírica de um Estado…

    Cumprimentos a todos.

  34. HUGO REGO,

    “Estudar mais” faz bem a todos !…
    Presunção e água benta, cada um toma a que quer !!…

    O “choque petrolifero” aconteceu em 1973. Portanto bem antes da década de 80. Como referi, as décadas de 80 e 90 viram sobretudo uma descida progressiva do preço.
    Seja como for, a evolução longa do preço do petróleo, com altos e baixos, não mostra um dominio monopolistico da OPEC.
    Tanto mais que a OPEC nunca foi um bloco homogéneo e unido. Sempre existiram interêsses e orientações diferentes.
    Além de que foram aparecendo outros produtores exteriores à OPEC.
    O que é certo é que o preço dos combustiveis variou em função de alterações na procura e na oferta, por sua vez determinadas por factores económicos e politicos muito diversos.
    Embora complexo e sofisticado, trata-se de um mercado como outros, onde se ajustam a oferta e a procura em função da evolução do que se passa no mundo e no sector.
    E ainda bem que é assim !

    Uma média ponderada é apenas uma média ponderada !…
    O que importa é que na Alemanha e noutros paises existe uma parte significativa da produção leiteira que tem custos mais baixos permitindo a venda de quantidades importantes a preços mais baixos e, consequentemente, ganhos de quota de mercado, interno e externo.
    Este processo pode levar ao desaparecimento de muitos produtores mais pequenos e menos eficientes ?
    É possivel e é natural que assim seja.
    Mas há também a entrada no sector de novos produtores, individuais e empresas, com capital, tecnologia e novos modelos de negócio.
    O que conta no final é que a produtividade aumenta, os preços baixam, e quem beneficia no final é a massa dos consumidores.
    É um processo que se repete históricamente, não apenas na agricultura, e que está na base do sucesso do capitalismo de mercado e dos progressos na produção de riqueza e na melhoria do nivel de bem estar geral nas sociedades onde se verifica.
    Compreende-se que interêsses instalados e orientações politicas reaccionárias, que vivem mal com as mudanças e o progresso, procurem combater este tipo de evolução, condicionando a iniciativa e a liberdade dos agentes económicos, limitando a produção e a inovação, mantendo preços elevados.
    Mas, de um modo geral, mais cedo ou mais tarde, num mundo cada vez mais globalizado e concorrencial, a força das coisas acaba por se impor e aqueles que mais resistem à mudança acabam por ser ultrapassados e penalizados.

    Pela parte que me cabe, agradeço e retribuo os cumprimentos.

  35. Hugo Rego

    O “choque petrolífero” não foi um evento único nem eu me referi unicamente ao evento. Em 73 deu-se o embargo e foi a partir daí que se sucederam um conjunto de actuações no mercado que conduziu a um 2º spike dos preços em 79 e culminou em 86 e este caso em particular serve como exemplo de como um cartel com posição dominante (à altura, quase 50% do mercado) induziu uma crise económica mundial.
    Quanto à alegação de que o petróleo segue a lógica pura e dura do mercado, só fará sentido se considerar as manipulações de preços realizadas entre produtores e big banks através de ATS (o ICE foi criado com esse intuito) através de operações de round trip, induzindo, desta forma, um crescimento desajustado dos preços face à procura.

    Quanto à sua argumentação face à produção leiteira alemã, mais uma vez, entramos no domínio dos conceitos versus realidade. Afirmar que 15% é uma “parte significativa” é exemplar disso mesmo. Lamento mas 15% são 15%. Defender que estes é que conseguem influenciar os preços dos restantes 85% através da lógica inocente e pueril das “regras do mercado”, é uma pérola, tendo em conta que, mesmo assim, nem com todos os contorcionismos argumentativos consegue justificar como é que Portugal apresentam índices de produtividade manifestamente superiores, sendo que apresenta custos de mão-de-obra mais baixos e tendo em conta que, p. ex., na Alemanha, esses mesmos custos representam 40% da estrutura composta total.

    Tanto poderíamos estar a abordar produção de leite como qualquer outra coisa. Referi mais uns exemplos de outros sectores em que ficou demonstrado que a lógica pura dos mercados conduz a monopólios e à inversão do suposto “benefício do consumidor” e da, “mudança, progresso e evolução”.

    Dei-lhe o caso da Microsoft e da indústria automóvel. Poderia ter-lhe dado o caso da Goldman, da manipulação da Libor ou do, até recentemente, monopólio do mercado de diamantes pela DeBeers. Realidade vs Demagogia retórica.

    Creio que você deverá ser um forte crítico da acção intentada contra a DeBeers por manipulação de preços já que, segundo a sua lógica, ela apenas actuou de acordo com as regras de mercado: tornou-se mais eficiente, suplantou a concorrência e dominou o mercado. Porque raio é que haveria de ser penalizada por isso ?

    Na mesma linha, presumo que seja um acérrimo defensor do Martin Shkreli. Ou do Jamie e da sua Baleia anglo-saxónica…

    “Os homens são rápidos em acreditar naquilo que gostariam que fosse verdade”.

    Cumprimentos

  36. O “choque petrolifero” foi em 1973 e o seu efeito prolongou-se nos anos seguintes, tendo o preço do petróleo subido ao longo dos anos 70 e atingido um pico no incio dos anos 80.
    Mas desceu ao longo dos anos 80 e 90.
    Portanto, não foi o que disse no seu primeiro comentário.
    Quanto à sua tese de que se trata de um mercado monopolistico, a melhor demonstração de que não é resume-se ao facto do preço do petróleo ter variações significativas ao longo do tempo em função de variações na oferta e na procura.
    Por exemplo, se fosse controlado por um cartel não estaria hoje abaixo dos 40$/b contra a vontade de muitos dos paises produtores, em particular dos que integram a OPEC (na realidade a OPEC não é um verdadeiro cartel mas antes uma simples organização de paises produtores com interêsses e orientações as mais das vezes não coincidentes).
    As razões principais para o actual baixo nivel do petróleo teem a ver com o aumento da oferta mundial, nomeadamente por parte de paises novos ou exteriores à OPEC, e com o abrandamento na procura mundial, nomeadamente por parte de uma economia Chinesa a crescer menos do que no passado.

    No que se refere à produção leiteira, o que se sabe é que os preços têm vindo a baixar e que para tal tem contribuido um aumento da oferta em geral, incluindo uma parcela cada vez maior vinda de novas unidades de maior dimensão e mais eficientes.
    Não há portanto nenhum monopólio e a baixa do preço não resulta de nenhum “dumping” generalizado.
    Com preços mais baixos o consumidor final não pode deixar de ser beneficiado.
    Sustentar o contrário é que é estranho ou suspeito !

    A tese de que o funcionamento dos mercados leva inevitávelmente ao monopólio já vem do … século XIX, nomeadamente enunciada por um senhor chamado Karl Marx.
    Mais de 1 século depois ainda estamos à espera de ver esse capitalismo “monopolista” que manipula as quantidades e os preços para que aquelas não aumentem e estes subam em vez de descer !…
    Não é por acaso que o assunto principal desta discussão, o do leite e da carne de porco (tal como o caso do petróleo por si chamado), tem hoje a ver com … aumentos de quantidades produzidas e preços mais baixos !!

    Os outros “exemplos” que refere são apenas … casos de uma lista extensiva !…
    Não é que tenhamos de discutir aqui todos estes casos mas, de qualquer modo, não me apercebi de qualquer explanação argumentada e sustentada.
    Não basta despejar nomes de sociedades e termos em inglês !

    Saudações cordiais.

  37. Hugo Rego

    O petróleo desceu após acordos geo-políticos e económicos entre Arábia Saudita e States. É das tais situações em que o activo subjacente é de tal forma estratégico, que passa a ser um meio muito para além da sua natureza meramente mercantil.

    O “se fosse controlado por um cartel não estaria hoje abaixo dos 40$/b contra a vontade de muitos dos países produtores, em particular dos que integram a OPEC” é por demais incompreensível e só o posso entender como uma piada.

    Na mesma linha se situa a sua afirmação sobre a produção leiteira alemã, portanto, deixe-me ver se eu percebo: os dados, factos e contextos são claros, são assumidos pelas empresas e associações alemãs do sector, assume-se claramente que há uma estratégia concertada e que vai para além da mera competição entre empresas, assumem que uma fatia significativa dos produtores está a vender abaixo do custo de produção mas você sabe mais do que a malta de lá e do prórpio sector. Claro (Água Benta, 3º corredor à direita, 2ª prateleira, mesmo ao lado das caixas de Presunção)…

    Relembrar que não afirmei haver monopólio no sector mas defendi que a desregulação e remoção de quotas conduz, inexoravelmente, nesse sentido.

    Relembrar também que sou defensor dos mercados. Regulados, como é evidente.

    Quanto à “Mais de 1 século depois ainda estamos à espera de ver esse capitalismo “monopolista” que manipula as quantidades e os preços para que aquelas não aumentem e estes subam em vez de descer !…” só pode ser mais uma situação de desconhecimento, de negação ou de ambos.

    Quanto aos “exemplos que são apenas casos de uma lista extensa”, é um pouco como aquele fulano que, volta e meia, gamava umas carteiras. Mas não era ladrão, nem tinha um problema grave. Não… “Eram apenas casos de uma lista extensa…”

    Brilhante! Ainda se espantam com o The Donald!

    Cumprimentos.

  38. Portanto, reconhece que o preço do petróleo desceu a partir dos anos 80 !…

    Quanto à “piada” do preço do petróleo se manter ainda abaixo dos 40$/b, quando há ainda não muito tempo se dizia que o esgotamento dos recursos de origem fóssil de extracção mais fácil tenderia a fazer com que o preço do petróleo se estabelecesse estruturalmente bem acima dos 100$/b, o que se passa é que a oferta global de combustiveis de baixo custo aumentou, a procura global abrandou devido a um crescimento economico mundial mais fraco, e os paises produtores, incluindo aqueles que fazem parte da OPEC, não se conseguem sequer entender no sentido de reduzir significativamente as respectivas produções para o preço poder aumentar.
    Ou seja, o mercado funciona e o “cartel” não funciona !…

    Quanto à questão do leite …
    Antes de mais, realçar de novo que o preço do leite tem vindo a baixar e que tal facto não pode deixar de ser benéfico para os consumidores.
    A progressiva, embora ainda insuficiente, liberalização das regras europeias para o sector, com o aumento de quotas de comercialização, determinou um aumento das quantidades produzidas, quer por produtores já existentes utilizando mais intensamente capacidades já existentes quer por produtores já existentes e novos produtores que investiram em maiores capacidade e mais tecnologia e ganharam assim em eficiência.
    É esta maior oferta a preços mais baixos que cria hoje problemas e dificuldades aos produtores do sector que não evoluiram nos métodos de trabalho e no modelo de negócio, podendo naturalmente levar ao desaparecimento de muitos deles.
    É perfeitamente natural que estes produtores, os seus representantes, e ainda as forças politicas que se opõem à mudança e ao mercado livre e procuram assim surfar e instrumentalizar politicamente o descontentamento, resistiam e construam uma narrativa ideológica baseada na “desregulação”, no “dumping”, etc, etc.
    Mas é um combate de retaguarda, inconsequente e condenado ao falhanço.
    Os que se preocupam verdadeiramente e lucidamente com os interêsses bem compreendidos destes produtores deveriam antes concentrar os seus esforços no sentido de lhes mostrar que se não quizerem desaparecer devem evoluir ajustando os seus modelos de negócio e, pensando naqueles que não o vão conseguir, defender medidas nacionais e europeias de acompanhamento para apoiar e facilitar a reconversão e a mudança de vida destas pessoas.

  39. Hugo Rego

    Foi a OPEC que atirou com os preços para baixo. A questão em si sobre como foi arquitectada e como foi devidamente enquadrada em sede de equilíbrio geo-político é mais complexa do que essa sua visão simplista de causa-consequência dos mercados.

    Quanto ao resto, lamento mas eu lido com realidades, dados e debates sérios, dentro do possível. E da racionalidade lógica e pragmática. Os meus tempos de histórias da carochinha e de discussões estéreis e sem sentido já lá vão há muito.

  40. Um suposto “cartel” que “atira” deliberadamente “com os preços para baixo” !… ehehehe !!
    Sim, a demonstração de uma tese alucinante como esta deve ser mesmo muito “complexa” e “devidamente enquadrada em sede de equilibrio geo-politico” !!….

    “Quanto ao resto” … ficamos portanto a saber pelo próprio, sem aparente falsa modéstia, que o Hugo Rego apenas “lida com realidades, dados e debates sérios … [e com] racionalidade lógica e pragmática” e não está disponivel para ouvir “historias da carochinha e [para entrar em] discussões estéreis e sem sentido” !!

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