Os 100 dias de Costa

Antonio Costa reflecte Em declarações ao Diário Económico da passada sexta-feira a propósito dos 100 dias do Governo liderado por António Costa, José Adelino Maltez afirmou que “todos os governos vivem este período numa espécie de estado de graça”, e que isso se verifica “sobretudo” com “este que nasceu de uma experiência nova e inédita”. Não é de espantar. O dr. Maltez nunca na vida foi capaz de dizer algo com o mínimo de sentido, e não seria agora que iria começar. É costume associar-se os primeiros 100 dias de um Governo a um mítico “estado de graça”, e recorrendo ao lugar-comum, que em Portugal em geral e na cabeça do dr. Maltez em particular costuma substituir o raciocínio, o homem julga que a coisa tem validade para o “Governo da iniciativa do PS”, como lhe chama o PCP. Mas como qualquer pessoa que se debruce perante a realidade portuguesa com um mínimo de atenção percebe, se há coisa que este governo não teve foi “estado de graça”. Antes pelo contrário, deparou-se e depara-se (e muito provavelmente assim continuará) com a desconfiança generalizada de grande parte dos portugueses.

Vejam-se as sondagens feitas em Dezembro e Janeiro pela Aximage e pela Eurosondagem: nelas, o PS tem (tendo em conta as margens de erro respectivas) sensivelmente os mesmos trinta e pouco por cento dos votos que as eleições de Outubro sofridamente lhe deram. Ou seja, ao contrário do que o dr. Maltez presume, a devolução de “rendimentos e direitos” não fez o PS cair nas graças de ninguém, excepto daqueles que à partida já tinham acolhido os socialistas nos seus braços, e que por isso votaram na agremiação. Mais: contra a convicção do dr. Maltez, nem a “experiência nova e inédita” de onde “nasceu” a ascensão de António Costa ao poder acrescenta o que quer que seja à base de apoio social do Governo. O Governo tem, é verdade, o apoio mais ou menos frágil de partidos (PS, BE, e PCP/Verdes) que correspondem a 50,9% do eleitorado. O que manifestamente não tem, é a confiança de todo esse eleitorado: os eleitores que votaram no BE ou no PCP (para não falar dos que se abstiveram) votaram no BE ou no PCP (ou ficaram em casa) precisamente porque não confiavam no PS como alternativa ao governo PSD/CDS, que claramente não apreciavam (caso contrário, teriam votado na coligação).

A tal falta de “estado de graça” do Governo era previsível logo aquando da sua formação: indo para o poder sem a confiança de uma parte significativa dos portugueses, António Costa garantiu para si o buraco em que se encontra: toda e qualquer medida difícil que tiver de tomar encontrará a raiva e o protesto do eleitorado; e toda e qualquer medida “agradável” que aplicar será encarada por uma parte significativa do dito como um truque eleitoralista; toda e qualquer medida mais “austeritária” será mal acolhida não só pelo eleitorado abstencionista e pelo do próprio PS, como encontrará o ressentimento dos eleitorados do BE e do PCP; e toda e qualquer medida que “devolva rendimentos” será encarada, por esses mesmos eleitorados do PCP e do BE, como conquistas desses dois partidos, mas insuficientes – por culpa do PS, claro – enquanto que o eleitorado abstencionista, e parte do socialista, hesitará quanto à sua benevolência, temendo que seja “boa demais para ser verdade” e que o que se dá hoje tenha de vir a ser pago mais caro no futuro, quando tudo soçobrar.

A oposição talvez se entusiasme com estas atribulações da pandilha que nos vai governando, esperando, quem sabe, que estas lhe garantam um regresso relativamente rápido à posição em que se encontravam até Novembro último. Não devia. Pela simples razão que PSD e CDS também não estão isentos do problema que o PS enfrenta junto da opinião pública. A “vitória” nas eleições de Outubro talvez os tenha feito esquecer que mesmo juntos, os dois partidos não conseguiram mais que 36,8% dos votos, ou seja, que não conseguiram da parte do eleitorado uma confiança significativamente maior que aquela que o PS chamou para si. Ao contrário do que a retórica de Outubro e Novembro queria fazer passar (e que, não se duvide, era crença convicta daquelas cabeças), a “crise política” não foi criada pelo resultado eleitoral nem pela opção socialista de ir para o Governo com o apoio parlamentar de BE e PCP: o resultado eleitorado e a fragilidade da “solução” encontrada pelo PS foram um produto de uma crise política que já existia muito antes das eleições, e que se manifestou na incapacidade de “laranjas” e “rosas” merecerem a confiança de um número suficiente de portugueses para que fosse possível a qualquer um deles governar sem que o outro pusesse em causa a sua legitimidade.

É por isso que o dr. Maltez mais uma vez se engana ao julgar que Costa “alterou por completo o rumo da política”. Costa não alterou nada. As peripécias de quem se alça a São Bento com o apoio deste ou daquele talvez entusiasmem os “politólogos” que “estudam” apenas a superficialidade (mesmo, ou sobretudo, aqueles que mascaram a sua com uma retórica pretensamente culta mas desprovida de real conteúdo), mas não têm impacto nenhum no “rumo da política”, que segue tristemente em direcção ao fundo do poço. Não só nem Costa nem Passos fizeram, fariam ou pretendem fazer algo de diferente do estatismo que degrada as condições de vida dos portugueses, como estar um ou outro no poder não altera em nada a situação de ingovernabilidade em que o país se encontra: quer esteja o PS ou PSD no Governo, só lá se manterão se e enquanto tiverem a capacidade de satisfazer minimamente as suas clientelas, tudo menos interessadas em mudar o estado de coisas; ao mesmo tempo, o dito estado de coisas garante que uma parte cada vez maior dos portugueses vê (através dos impostos que sobem, dos empregos que se perdem, dos salários que descem) a sua vida a piorar, sem que lhes pareça que no futuro venha a ser melhor; por isso confiam cada vez menos nos dois principais partidos de Governo, o que por sua vez os torna cada vez mais dependentes das suas clientelas; o “rumo da política” entra assim num ciclo vicioso de degradação das condições para se fazerem as reformas de que o país necessita, do qual não se vislumbra saída.

9 pensamentos sobre “Os 100 dias de Costa

  1. jo

    Então os partidos estão capturadas por clientelas o que provoca que governem para o benefício de uma minoria.

    Essa minoria dá-lhes a maioria dos votos. Isto porque os eleitores são burros.

    Está visto que devemos deixar governar os homens providenciais, que tudo sabem.

    Mais uma prova que o discurso salazarento é igual ao estalinista.

  2. Ainda há pouco tempo, quando a “maioria dos votos” era do governo anterior, o JO não dizia que este “governava para o beneficio” da maioria.
    Pelos vistos achava então que “os eleitores [eram] burros” e que se “deveria deixar governar os homens providenciais, que tudo sabem.”
    Enfim, tinha um “discurso salazarento [] igual ao estalinista” !!

  3. Marco

    B Osta …. s …

    Se tivesse um mínimo de inteligência, mantinha-se na oposição e esperava a queda “natural” de Passos …

    Esta gente mostra bem o actual panorama político Português, quiçá global. Só gente inútil e incompetente na política. Partidos = antros de corrupção à vista … tráficos de influência … e demais crimes contra os seus povos …

  4. Luís Morais

    Tanta ignorância junta, meu Deus!!!
    A começar por este sr. Bruno Alvesa que ninguém conhece.
    Adelino Maltez, é um conceituado professor e politologo , respeitando por todos os sectores político partidários, pela sua isenção, saber e intuição política.
    Mas, quem é este indivíduo, que ninguém conhece, que vem chamar “ignorante” a Adelino Maltez?
    O sr. para não lhe chamar outra coisa menos elegante, devia ter vergonha de insultar desta forma, um homem honesto, inteligente, com bom senso e ética, que é aquilo que o sr. não deve ter, a avaliar pelo que escreve.

    Em segundo lugar e sendo eu um fundador do PPD/PSD, envergonho-me de alguém escrever sobre este assunto, revelando tanta ignorância.
    Sim, tenho formação académica de nível superior, em Economia e Estudos Europeus.
    Sim, fui fundador do PPD com Francisco de Sá Carneiro, Balsemão, Magalhães Mota, Jorge Sá Borges e outros.
    Sim, conheço em trabalho e estudo muitos países de 4 continentes, as suas gentes, as suas culturas, os seus regimes políticos, económicos e sociais.
    E fico pasmado com tanta asneira que se escreve.
    Bem, mas vivemos em “liberdade” de opinião e cada um opina como entende.
    Mas, quando o torna público e sujeito a comentários, sujeita-se igualmente a que lhe respondam e lhe chamem alguns nomes.
    O sr. não sabe escrever, tanto em termos de forma, como de conteúdo.
    O sr. vive numa democracia e em liberdade de opinião, quase de certeza, sem ter mexido uma palha para que tal tivesse acontecido, ao contrário de muitos, eu incluído, que lutámos contra o MFA/PCP, para que fosse possível viver hoje em liberdade.
    E, sim, também tive a cabeça a prémio, pelo PCP, mas sempre tive audácia e coragem, para não temer os tais que “comiam criancinhas ao pequeno-almoço”.
    Só o 25 de Novembro, evitou que muitos de nós, tivéssemos sido abatidos.
    Mas, isso não tem nada a ver com a actual situação política, pois os tempos são outros e, como em toda a Europa e não só, os governos resultam do equilíbrio de forças no Parlamento.
    Como não existem maiorias absolutas, procuram-se soluções e acordos que suportem um governo.
    E, pese embora Cavaco lhe tivesse custado entregar o poder à esquerda, ele teve que o fazer, pois é na casa da democracia (AR), que se geram os governos em democracia e num sistema semi-presidencialista, como é o nosso.
    O PR seguiu todos os passos previstos na CRP, indigitando o líder da força política mais votada, que não passou na AR.
    Como a maioria dos deputados que representam a maioria do povo, rejeitou o governo minoritário do PAF, teve que apresentar uma solução alternativa, o que foi feito.
    Como poderia governar um governo sem maioria na AR?
    Era impossível!
    Fazer novas eleições como o PAF pretendia, não foi possível, nem faria qualquer sentido, quando se criou uma alternativa maioritaria.
    O PAF, não podia querer governar só porque sim.
    As maiorias relativas, tem sempre que governar com apoio maioritario da AR, o que não aconteceu com o PAF.
    É conveniente lembrar que tanto em Espanha como na Irlanda, sucedeu o mesmo, perderam as maiorias absolutas e estão a braços com a formação de governos com apoio parlamentar pós eleitoral.
    Por outro lado, convém lembrar que na Dinamarca, só à terceira tentativa foi formado um governo de coligação pós eleitoral, chefiado pelo líder da terceira forca mais votada.
    As maiorias absolutas são cada vez mais raras e há que estabelecer acordos com diferentes forcas políticas nos parlamentos, o que é saudável, pois a alternância e a negociação são fundamentais em democracia.
    Em maioria absoluta, salvo raríssimas excepções, os políticos que governam tornam-se arrogantes e, autocráticos.
    É urgente uma reforma profunda do sistema político.
    Para finalizar, cito Francisco de Sa Carneiro, com quem estive no dia anterior a sua morte:
    ” A política sem risco é uma chatice, mas sem ética e uma vergonha”!

  5. jo

    Fernando S

    Posso não concordar com um governo, até achá-lo péssimo, mas o que se faz nestes artigos é insinuar que quem votou nestes governos é burro.

    Repare não se afirma que os eleitores se enganaram ou foram enganados pelo governo, Não se afirma que o governo não cumpre o que se esperava deles.

    O que se diz é que os eleitores têm uma agenda escondida, que os leva a votarem contra si próprios.

    Claro que também se pode fazer uma interpretação do factos dizendo que a análise não prima pelo brilhantismo.

  6. JO,

    Se se refere ao artigo do Bruno Alves aqui em cima, é verdade que ele representa uma visão particular da dita “direita” dita “liberal” (alguns designam-na como “libertariana”), que tem algum peso na blogosfera e em meios académicos e jornalisticos, mas que é muito minoritária na opinião e no eleitorado, e que efectivamente considera que uma maioria dos portugueses não confia em nenhuma das alternativas politicas tradicionais de governo, da direita como da esquerda, que supostamente seguiriam politicas que no fim de contas são muito semelhantes e igualmente “socialistas” mas que se revelam cada vez mais como reais falhanços e tornando a vida das pessoas cada vez mais dificil e mesmo infernal (“o caminho para a servidão !”).
    Esta maioria seria antes de mais constituida pelos não votantes, os abstencionistas, que representariam hoje mais de metade dos eleitores potenciais, e pelos votos nulos e brancos.
    Na verdade, há quem conteste o número e a percentagem dos abstencionistas com o argumento de que o número de portugueses recenceados está empolado por repetições, mortos, emigrantes, etc. Mas não é o que mais importa aqui.
    Esta maioria incluiria ainda eleitores votantes nos partidos tradicionais, em particular nos da “direita”, mas que se dariam cada vez mais conta do logro em que cairam ao apoiar estes partidos.
    Ou seja, para esta perspectiva, no final, uma confortável maioria dos portugueses teria já percebido ou estaria cada vez mais a perceber que se o nosso pais está mal é por os partidos do “sistema” serem todos igualmente “socialistas” e que a solução está em mudar radicalmente e rápidamente em direcção de uma maior liberdade, reduzindo ao minimo ou acabando com o Estado.
    A questão que nos vem logo ao espirito é : se é assim, porque é que não se organizam e apresentam uma oferta politica que possa receber o apoio eleitoral desta maioria cada vez maior de portugueses para poderem governar e fazerem o que proclamam ?…
    Acontece que não o fazem porque querer não é forçosamente poder !…
    Na verdade é uma ideia errada pensar que a maioria das pessoas se absteem por estarem descontentes com o sistema e os partidos tradicionais e ainda mais errada é a ideia de que as mesmas pessoas quereriam menos “socialismo”, menos Estado e mais livre concorrência.
    Do mesmo modo que é igualmente e simétricamente errada a ideia de que a maioria dos abstencionistas desejaria o exacto contrario, mais socialismo e mais Estado.
    Por definição ninguém sabe exactamente quais são as motivações dos abstencionistas. O que se sabe, até por sondagens e estudos, é que as motivações são muito diversas e muitas delas nem teem nada a ver com a politica. Também se sabe que, se porventura chegasse à mesa de voto, uma parte importante dos abstenconistas votaria … em partidos tradicionais numa proporção não muito diferente daquela que se verifica nas eleições. No fim de contas, pode-se dizer que a maior parte dos abstencionistas não vai votar não porque não acredita e porque rejeita o sistema e os seus partidos de governo mas antes porque se satisfaz com o estado geral das coisas independentemente do partido que ganha e governa.
    Portanto, o “partido dos abstencionistas” não existe e ninguém pode reclamar-se como representando politicamente esta categoria de cidadãos.
    Quanto aos eleitores que votam neste e naquele partido, penso que o JO tem toda a razão em pensar que, no momento em que o fazem, e em grande medida também depois (existem sempre os desiludidos, sobretudo quando o partido em que votaram governa em momentos de maiores dificuldades, mas é marginal, a tendência é para a maioria não alterar o sentido de voto), o fazem porque consideram que esses partidos representam a melhor escolha (ou menos má). Não faz efectivamente sentido pensar que os “eleitores têm uma “agenda escondida que os leva a votarem contra si proprios”.
    Uma outra questão é saber se ao votarem as pessoas estão efectivamente a defender os seus reais e efectivos interêsses.
    Efectivamente, embora a generalidade das pessoas vote em função do que consideram em consciência serem os seus próprios interêsses, pode-se perfeitamente admitir que elas, por um lado, façam um erro de apreciação sobre o que são esses interêsses, sobretudo os a mais longo prazo, que podem não coincindir com os mais imediatos (é o que alguns chamam “interêsses bem compreendidos”) e, por outro lado, se enganem quanto ao modo (as politicas) de poderem melhor defender os seus próprios interêsses.
    De qualquer modo, pelo menos em democracia, o único modo de mudar as escolhas conscientes das pessoas é convencê-las de que estavam enganadas.
    O que, diga-se de passagem, não é tarefa fácil nem se consegue de uma assentada e sem avanços e recuos !…

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