À atenção do Sr. ministro que é “bear” nos preços da gasolina

A propósito do meu post de ontem tive uma muito interessante discussão com um leitor do nosso Blog (ver pf os comentários ao post “Sr. ministro, o barril de petróleo já está nos 37,25 Dólares”) sobre as bases em que se fundamentaram a subida do valor do ISP publicada em portaria do dia 11 de Fevereiro.

Eu acho que o preço do barril de petróleo irá subir depois de ter caído mais de 75% em mais de 3 anos (desde um recorde superior a 120 USD por barril) enquanto que quem elaborou o orçamento do Estado, acha que a tendência é de sustentada queda (talvez para valores, quem sabe, abaixo de 20 USD em que quase só a Arábia Saudita consegue produzir com lucro, como alguns bancos de investimento já escreveram neste ano).

A minha experiência mostra que a retirada de produção marginal não rentável de uma commodity como está,  conduz normalmente a uma subida dos preços e o preço marginal da produção do barril de petróleo em várias zonas do mundo (Brasil, EUA, Venezuela , etc) supera os 50 USD. O anúncio de fechos de oil rigs nos EUA têm sido constantes nos últimos 12 meses e o cancelamento de projectos e expansões de capacidade foram incontáveis.

Como sempre os mercados dar-nos-ão (ou não) razão, mas assentar previsões orçamentais do ISP e declarações públicas de que se baixará o valor do Imposto Sobre Produtos Petrolíferos  com base nestas tendências passadas tem um nome para algumas pessoas, que gostam de pensar diferente : herd behaving ou na terminologia portuguesa , comportamento de rebanho.

Vejam a título de mera curiosidade a notícia publicada hoje pela Reuters.

Asia to see first gasoline squeeze in more than 15 years -Reuters

SINGAPORE, March 3 (Reuters) – Cheap oil and strong car sales are driving demand growth for gasoline across Asia, threatening to open up the region’s first shortage for the motor fuel in more than 15 years.

Car sales are soaring in China and India, where a combined 3 million new cars come to market every month, while refineries are shutting down in Australia and Taiwan.

That is expected to open an average annual deficit this year in Asia of 10,000 barrels per day (bpd) of gasoline that could widen to 90,000 barrels bpd by 2017, consultancy FGE said.

A tightening gasoline market would coincide with an expected late 2016 to early 2017 puncture of a global crude glut, lending support to a recovery in oil prices LCOc1 CLc1 that are still down nearly 70 percent from mid-2014 levels.

“We expect auto sales in China to grow 6.5 percent in 2016, improving from 4.6 percent in 2015,” said Yasmina Serghini, a senior credit officer with ratings agency Moody’s, in a note.

The car sales will grow mainly due to the halving of a 10 percent purchase tax on passenger vehicles with small engines and supportive monetary policy from Beijing, she said.

FGE expects the gasoline supply gap to widen to 160,000 bpd in 2018. Consultancy JBC Energy sees a smaller shortfall of 107,000 bpd in 2018, up from 71,000 bpd next year, pegging total Asian demand for the fuel at nearly 6.8 million bpd in 2017 and almost 7 million bpd the following year.

Although analysts expect China’s car sales to slow in 2017 as the auto tax break expires, the increased sales from past years and strong sales in India are still expected to push up gasoline demand and profit margins for the fuel.

“Gasoline remains the most (profitable) product … with robust growth seen across all or a majority of the countries in Asia,” said Sri Paravaikkarasu, senior consultant and downstream specialist for Asia with FGE.

CHINA STOPS FLOODING THE MARKET

Still, though a flip to a deficit is expected this year, Asia for now is mired in oversupply that has left storage tanks filled to the brim.

Gasoline margins GL92-SIN-CRK dropped below $6 a barrel to near 13-month lows last month, after Chinese exports surged to 880,000 tonnes (7.5 million barrels) in December, nearly double the average monthly shipments for January-November.

“Chinese exports spiked in December as refiners were likely rushing to capture the strong margin and to meet their 2015 export quotas,” said an industry source based in China.

But China’s exports are dropping back again as domestic demand for gasoline grows. January’s exports of the fuel from the world’s second largest economy fell to a two-month low of about 593,000 tonnes (just over 5 million barrels).

The drop – cutting availability across the region – comes as demand is set to rise in the northern hemisphere’s so-called summer driving season and during the Muslim festival month of Ramadan in June.

One risk that could still undermine Asian gasoline demand is a regional economic slowdown led by China. “China made up … 70 percent of global gasoline growth (in 2015),” Morgan Stanley said this week in a research note.
While the bank said it was too early to predict 2016 trends, Morgan Stanley said China’s December gasoline demand data had been “particularly worrisome”.

7 thoughts on “À atenção do Sr. ministro que é “bear” nos preços da gasolina

  1. Baptista da Silva

    A capacidade de Produção do Fraking é rentável acima dos 50 dólares, pelo que me parece difícil que essa fasquia seja ultrapassada, pelo menos a Arábia Saudita não deixa.

    De qualquer dos modos, sabemos que o Imposto nunca irá descer, tal não vai acontecer, o OE2016 é fraco demais para que tal aconteça, entretanto, vejamos porque eu defendo que o Imposto devia descer:

    Segundo o que lí mais de mil milhões em Imposto fica em Espanha e as gasolineiras de fronteira (do lado português) estão todas na falência, baixar o Imposto teria um efeito de arrecadar mais receita e criar emprego nas bombas de gasolina portuguesas.

    Veja-se o caso do IRC, à medida que o Imposto foi baixando, a arrecadação de Imposto foi subindo.

  2. Marco

    Descer impostos ? … holy believers … Quando descem alguma coisa sobem logo do outro lado. A intenção é colmatar a incompetência política para por as coisas em ordem. Seja que partido for, seja que político for …

  3. Hugo Rego

    @Batista da Silva, não sei onde se baseia a afirmação de que mais de mil milhões de euros em imposto rodoviário fica em Espanha se tivermos em conta que a receita de 2015 em sede de ISP foi de 2.237,6 milhões de euros.

    Muitas das gasolineiras de fronteira faliram, não apenas por causa do diferencial de preços mas também muito por causa da diminuição acentuada dos fluxos rodoviários nas estradas nacionais vs autoestradas.

    Não deixa de ser curiosa a incoerência de entender este orçamento como fraco (uma das principais diferenças/críticas assenta no reduzido número de medidas fiscais/obtenção de receitas face ao que estava desenhado pelo anterior Governo) e, ao mesmo tempo, defende uma diminuição de receita fiscal.

  4. Hugo Rego

    Tal como já tinha abordado na nossa discussão no post anterior, a questão da fixação dos preços do crude/brent não se rege pela lógica da teoria dos mercados da produção vs oferta vs procura.

    Não foi por mero acaso que a escalada até aos quase US$150 foi apenas um pico e não uma evolução sustentada de preço, o que se reflectiu na estabilização dos preços WTI numa banda entre entre os US$78 e os US$108 (preço médio a US$93),com o Euro a transaccionar a um valor médio de 1,33 logo, com um preço de 69,92€. Importa aqui referir, e com certeza saberá isto, existe uma correlação de mercado entre a evolução do preço do crude/brent e a evolução do eur/usd, que altera substancialmente as abordagens aos custos da matéria prima para a Europa.

    Abordando já o acessório – as notícias da Reuters – a questão da China cortar a produção ou não é lateral e, muito provavelmente, pouco sustentável. Ao nível da produção, a competição é grande, sobretudo entre Estados que dependem mais acentuadamente das receitas do petróleo e tendo em conta o agravamento dos desequilíbrios das contas correntes em muitos deles, associado a um agravar das dívidas públicas (na China a ritmos insanos, veja-se o volume de dívida emitido entre Janeiro e Fevereiro), associado a um agravar dos custos de dívida/financiamento por via da valorização sustentada do USD, não irá dar grande margem de manobra para cortes na oferta, já que os entendimentos para sustentação dos preços são cada vez mais difíceis de obter, sobretudo quando o preço da matéria prima se tornou na mais recente arma WMD nos conflitos geoestratégicos que têm surgido.

    Quanto à questão do mercado automóvel na China e Índia, 3 milhões de carros por mês num parque automóvel combinado de quase 340 milhões, é relativamente expressivo mas convém não esquecer que grande parte deste volume é destinado à substituição de veículos em fim de vida e que, na maior parte dos casos, representa uma diminuição do consumo de combustível por via de motorizações mais modernas e eficientes.

    Pormenores à parte, e porque isto já vai algo longo, apresentar alguns dados para além dos já apresentados na discussão anterior:

    o aumento da extracção entre 2014 (preços sustentados a US$93 pmédio) e 2015 foi de 4,5%
    Os custos operacionais de produção (custos marginais de prod/extracção, como referiu na discussão anterior) estão abaixo dos US$20/barril para a esmagadora maioria dos grandes produtores (acima está o Brasil, Canadá e Austrália)
    Rússia a Arábia Saudita, que são os maiores produtores (em conflito geopolítico, não esquecer) têm um output combinado quase equivalente aos 8 maiores produtores seguintes (custos de operação de 8 e 5 USD/barril, respectivamente)
    Em termos de consumo de energia, os transportes representam cerca de 26% e o sector industrial mais de 50%
    o sector industrial nas grande economias está a apresentar uma diminuição sustentada dos índices de produção
    Comparativamente a 2008, a actual tendência de evolução dos consumos de combustível por veículo/km deverão cair cerca de 15% até 2020 (tendo em conta que o transporte ligeiro é responsável por cerca de 85% do consumo de petróleo, isto dá um potencial de diminuição agregada de consumo de 12,75%, bastante maior que o aumento de produção para o mesmo período, que foi de 6,75%)
    Nos seus estudos, a EIA concluiu que a evolução da procura até 2040, por energia, no sector dos transportes, deverá diminuir
    A Exxon cortou a previsão do capex/2016 em 25%…
    Baltic DI em mínimos históricos

    Voltar a reforçar a questão de que o preço desta matéria não se rege pela lógica empírica dos mercados honestos, transparentes e tendencialmente perfeitos. Desde a criação do ICE, o recurso a ATS para operações de round-trip entre grandes bancos e grandes petrolíferas, permitiu, não só, sustentar preços muito acima da procura física pela matéria, como também controlar fluxos financeiros e movimentos operacionais nos mercados oficiais. Não foi por acaso que, há uns anos, a BP vendeu os seus direitos de extracção no Mar do Norte mas manteve a propriedade dos pipelines e se tem focado, cada vez mais, na area de gestão estratégica de operações financeiras.

    Resumindo, embora duvide, que o crude venha a negociar de forma sustentada na região dos 20USD (uma banda entre os 30’s e os 45USD será mais plausível), os vários indicadores macro não apresentam sinais de alteração do panorama e tendo em conta que não há, nem haverá tão cedo, condições (geopolíticas) para manipular os preços, parece-me que vamos ter o preço um pouco mais em linha com a lógica da oferta/procura do que no passado.

    A questão do aumento do ISP é, volto a afirmar, residual em termos de impacto no tecido económico do país e é uma boa opção em termos de receita, tendo em conta as limitações conjunturais e estruturais existentes. Se é desejável ter uma carga de impostos tão elevada sobre um bem ? Não e sim. Não por uma questão de princípio embora esta seja a lógica na UE (carga fiscal sobre produtos petrolíferos muito elevada) mas, por outro lado, e relembrando Saldanha Sanches, política fiscal é, acima de tudo, política. A dependência dos hidrocarbonetos e da facilidade do seu consumo/acesso tem que ser diminuída de forma sustentada.
    Cumprimentos

  5. Hugo Rego

    Correcção a “Comparativamente a 2008, a actual tendência de evolução dos consumos de combustível por veículo/km deverão cair cerca de 15% até 2020 (tendo em conta que o transporte ligeiro é responsável por cerca de 85% do consumo de petróleo, isto dá um potencial de diminuição agregada de consumo de 12,75%, bastante maior que o aumento de produção para o mesmo período, que foi de 6,75%)”

    O que pretendia afirmar é que isto dá um potencial de diminuição agregado do preço, face a um desequilíbrio gerado pela diminuição dos consumos de 12,75% e pelo aumento de 6,75% da produção entre 2008 e 2015.

  6. Pingback: Sr. Ministro, mais outro máximo no petróleo – O Insurgente

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