Alentejo sem Lei

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Comentário de Henrique Raposo a propósito da polémica em torno do seu livro “Alentejo sem Lei”

1. Haverá um dia em que a literatura ou jornalismo iconoclastas desaparecerão do espaço público, mas esse dia ainda não chegou. O jornalismo e a literatura ainda não foram derrotados por esta nova forma de censura e, acima de tudo, de auto-censura do tempo das redes sociais.

2. Não espero acolhimentos ou unanimidade fofa à minha volta. Estou desde o início preparado para ser odiado. Faz parte do trabalho de quem escreve a partir de uma perspectiva iconoclasta, isto é, uma perspectiva que desafia as narrativas vigentes. Não “porque sim”, mas porque de facto vê as coisas de outra forma, porque vem de outro sítio, porque leu outras coisas, etc. Iconoclasta que recebe só elogios é uma contradição em termos. Mas, se não espero fofura (a)crítica, espero pelo menos honestidade. Para se criticar um livro é preciso ler o livro.

3. E, para se criticar um clip de um programa de tv, também é preciso ver o programa todo. No programa do Boucherie, eu falei bastante antes daquele segmento. O que disse serviu de antecâmara para o livro. Exemplo? Ao falar das FP-25, lembrei um pormenor que está silenciado: se tivermos em conta o rácio vítimas-população dos países, as FP-25 mataram tanto ou mais do que as Brigadas Vermelhas e Baader-Meinhoff. Mas em Portugal as FP-25 são uma nota de página, um tabu imenso. Onde estão os romances, filmes ou documentários sobre as FP-25? Não existem porque essa violência incomoda as duas grandes narrativas sobre Portugal: as da esquerda mas também a dos brandos costumes, que é muito queirosiana. Neste preâmbulo, digamos assim, falei da parte histórica que explica, por exemplo, o maltês alentejano: as invasões e as guerras civis deixaram um rasto de banditismo em todo o país. Esse banditismo resistiu no Alentejo até ao século XX por razões óbvias (o estado não existia). Claro que isto irrita muito, irrita doutrinas políticas. E, antes, eu já tinha criticado aquela “direita social” que julga que os seus laços sociais estão acima da transparência institucional (Marcelo-Ricardo Salgado-BES).

4. Quer isto dizer que a campanha de ódio contra o livro é orquestrada à esquerda e à direita? Não. Pode haver agora um óbvio aproveitamento à esquerda e à direita, mas tudo nasce num ponto que está no livro: o Alentejo é uma região cheia de tabus, mitos e segredos que afastam os próprios alentejanos da sua história, que vai muito além da narrativa “neorealista”. Os jovens da zona que retrato não conheciam, por exemplo, a revolta do Vale de Santiago (de onde saiu o homem que matou Sidónio). É um pouco estranho, mas parece que é a primeira vez que um geração de alentejanos está a ouvir falar do problema do suicídio (que existe), da cultura dos malteses fora-da-lei (que existiu), do abuso sexual da criada e da ceifeira às mãos dos marialvas e do consequente número generoso de bastados (que existiu), etc., etc. Como nunca ouviram falar disto, como nunca leram nada sobre isto, reagem contra o mensageiro. É normal. A negação é o primeiro passo do conhecimento.

5. Há ainda quem pretenda reduzir a discussão ao meu “tom”. Não não sou bom na TV, tudo bem. Mas eu estava a falar dos malteses que metiam medo à minha mãe, do abuso sexual que a minha bisavó sofreu, da falta de carinho que os meus avôs tinham pelos filhos, dos casos de suicídio e da forma como estes traços dos meus antepassados são objectivamente representativos do velho Alentejo – tal como está descrito nos romances, memórias e antropologia clássica sobre o Alentejo. Como é que se diz estas coisas com o “tom” neutral e higiénico da bullshit televisiva? Como é que se diz isto sem tristeza?

3 thoughts on “Alentejo sem Lei

  1. Quando li o livro, de que gostei e já recomendei a vários amigos, não me passou pela cabeça a celeuma que viria a causar. Se calhar porque tinha lido, há bem pouco tempo, um livro denominado “Café Montalto” que o autor considera de “factoficção” que narra a vivência da minha cidade, a Covilhã, durante o Estado Novo.
    Muito do que é dito não é abonatório para a cidade. Nem tinha que ser, um livro e muito menos um ensaio, não é um concurso de “misses”. Nele é descrito a profundíssima clivagem social que existia na cidade entre industriais e operariado. Factos como frequentemente os industriais colocarem como amantes as suas empregadas mais bonitas são descritos. O apartheid social que impedia a entrada no café central dos menos privilegiados é narrado. O livro tem méritos, e a aderência ao que já me tinha sido contacto pela geração dos meus pais é bastante grande. O reencontro da cidade com a sua memória foi pacífico e a edição foi patrocinada pela câmara municipal local.
    Também gostei de ler na coleção “Retratos da Fundação” o notável ensaio “Longe do Mar” de Paulo Moura que não retrata a minha região como um mar de rosas num capítulo denominado “Os playboys do Tortosendo”. Estas leituras não diminuíram em nada, antes pelo contrário, o meu amor pela minha terra e as suas gentes.
    Gosto de memórias e passados fortes. Não acredito em longos rios tranquilos. Até em relação à beleza de uma mulher penso assim. Não gosto de barbies demasiado perfeitas. Uma cicatriz é um testemunho de humanidade, da existência de um passado. Gosto de mulheres humanas, com passado, mesmo se tiverem cicatrizes. Ou melhor gosto sobretudo se tiverem cicatrizes.
    A visão que Henrique Raposo trouxe do Alentejo aumentou a minha afetividade pela região. Deu-lhe corpo e espessura. Deu-lhe alma.

  2. Joaquim Carreira Tapadinhas

    Um dos nossos erros na apreciação histórica da nação é o ficarmos agarrados a clichés. Somos o país dos brandos costumes, mas matámos D. Carlos I e o príncipe herdeiro, sem ter nada organizado para implantar a república, o que sucedeu 2 anos e 8 meses após. Dez anos depois, em 1918, matámos Sidónio Pais, presidente eleito por escrutínio directo. Depois matámos em 1921, na noite sangrenta, matámos, entre outros, o chefe do Governo e Machado Santos, o herói da implantação da República. A grande maioria dos nossos ditos intelectuais são uma camada de hipócritas, com uma enorme barriga a alimentar e, por isso, são tratam dos temas que lhes interessa e que sirvam a clientela. É o país que temos e onde temos de viver, mas também temos a obrigação de desmascarar esta gente, quanto mais depressa melhor.

  3. João Bárbara

    O Sr. Henrique Raposo, só no que toca a malteses, perde a razão. E perde pelo facto de generalizar os malteses a um episódio que duvido que este indivíduo se lembre, embora o afirme. Mais grave, generaliza o Alentejo pelo simples facto, segundo relatou, ter uma família sem Amor.
    Generalizando a vida dos Portugueses, sinceramente, a sua vida e a sua banal existência, não deverá ter mínimo interesse para dar origem a um livro. Até porque, segundo afirma, trata-se do seu divórcio com o Alentejo. Também não me revejo, eu que sou divorciado, na sua perspectiva, para poder gerar um livro. Vamos todos fazer um livro sobre o divórcio de cada um.
    Fica um bom elemento declarado por este indivíduo: desligou-se do Alentejo. O Alentejo agradece!
    E tenha cuidado quando falar de malteses, eu conheci muitos e respeito ao ponto de dizer que este ser, o Henrique Raposo, falta à verdade quando generaliza.
    Faço lembrar que as críticas ao que escreve, não são só de agora, sobre este assunto, são também há algum tempo, sobre as crónicas que entorna no Expresso.

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