Mentiras de Manuel Caldeira Cabral

Entre as coisas positivamente surpreendentes – para alguns – constantes do último relatório da Comissão Europeia sobre Portugal, divulgado sexta-feira ao fim do dia e, por isso e pela estridência das insânias mais recentes do Bloco de Esquerda, muito provavelmente passando ao lado da atenção, conta-se isto, que parece muito complicado, mas não tem complicação nenhuma.

Coisas Boas

Basicamente o que isto nos diz – colunas azuis – é que a passagem da balança externa (corrente) do país de um défice colossal em 2010 a um excedente já em 2013, desde então conservado, assentou esmagadoramente no desempenho do sector exportador e não, como diz muita gente sem saber do que está a falar, na evolução das importações, momentaneamente esmagadas pela contração da procura interna.

O que é consistente com a demonstração de que o ajustamento externo foi no essencial de natureza estrutural. É a história que nos conta o gráfico seguinte, também tirado do referido relatório.

Coisas boas outra vez

A balança corrente ajustada dos efeitos do ciclo é já quase coincidente – e deverá sê-lo totalmente em 2016, segundo as perspetivas de Bruxelas – com a balança corrente efectiva, observada.

Não fui refazer os cálculos da Comissão, para me certificar de que assim é, efetivamente. Fui fazer outra coisa, até para ajudar a desmontar a demagogia do ministro da Economia, Manuel Caldeira Cabral. Mas vamos por partes.

O que eu fui fazer é aquilo que o Banco de Portugal tem feito com a regularidade com que saem os seus boletins económicos, e consiste em avaliar como evoluíram, nos últimos anos, as quotas de mercado das exportações portuguesas, incluindo bens e serviços. O resultado é este, praticamente idêntico ao do Banco de Portugal, exibido graficamente nos seus relatórios trimestrais.

Quotas

Fonte: BdP, FMI (WEO), cálculos do autor.

Mais uma vez o que parece complicado é muito simples.

Na linha azul temos a evolução anual da procura externa relevante para Portugal. Trata-se basicamente das importações em volume de um conjunto de 20 países que representam mais de ⅘ dos mercados de exportação nacional. A vermelho temos a evolução das exportações nacionais. Se as exportações aumentam mais do que a procura externa ganhamos quota de mercado, se, pelo contrário, a procura externa cresce mais do que as exportações, perdemos quota. Os ganhos e perdas anuais são as colunas verdes. A mancha azul é o acumulado.

É fácil de ver que quase todos os anos desde que entrámos no euro até à crise de 2008 perdemos quota de mercado. A competitividade do sector exportador foi diminuindo, diminuindo, até ao ajustamento a que fomos forçados pela crise. Em 2010, o último ano antes do colapso final, tínhamos perdido, desde 1999, 12,7 pontos percentuais de quota de mercado das exportações de bens e serviços.

Era a tal economia a fechar e a virar-se para dentro, estimulada por uma procura interna artificialmente elevada, por efeito, entre outros factores, de uma política orçamental nefasta, gerando défices quando a economia está em recessão, défices quando a economia está em expansão, défices, défices e mais défices, que não só não resolveram coisa nenhuma, como agravaram tudo, lançando insistentemente sinais errados aos agentes económicos, do que resultou o dito fechamento e a esclerose geral.

O que é verdadeiramente notável foi como em poucos anos revertemos quase por inteiro todas as perdas de quota de mercado acumuladas deste a chegada do euro. Em 2015, com os dados que já se conhecem, teremos revertido mais de 10 pontos percentuais de perdas de quota de mercado em apenas cinco anos. Não é de excluir que a continuidade das políticas públicas dos últimos anos nos depusesse, em 2016, na situação de reversão integral das perdas acumuladas desde 1999.

O que tem o atual governo para nos oferecer nesta matéria? Uma política de rendimentos, pela via orçamental e não só, verdadeiramente calamitosa, prevendo-se que as remunerações por trabalhador no conjunto da economia regressem ao crescimento largamente superior ao da produtividade, com os custos de trabalho unitários de produção (CTUP) de novo aumentando mais do que os dos nossos parceiros comerciais, pelo que não será de espantar que em 2016 regressemos às perdas de quota de mercado, à trajetória de fechamento para dentro e de regresso à esclerose.

Confrontado com esta questão no parlamento e interrogado pela oposição também enquanto professor universitário, com investigação publicada precisamente sobre o setor externo, o que responde o ministro da Economia? Começa com as inanidades com que de costume nos brinda o PM neste campo, que como toda a gente sabe é abençoado pela sua imensa ignorância; exatamente nos mesmo termos: que também ele, enquanto professor, ensina aos seus alunos que a competitividade que há que privilegiar não é a competitividade dos baixos salários, mas a da inovação, etc., etc.

Ninguém o confrontou com a possível alternativa de uma aposta em baixos salários, coisa que nunca ninguém, no seu bom juízo, alguma vez advogou, mas com o peso e o problema que representa a evolução dos salários acima da produtividade, o que é bem diferente.

E é então que o ministro acede, enfim, a responder à interpelação.

E mente: que estudou o assunto dos custos laborais unitários e concluiu que não têm relação com a evolução da competitividade das exportações, que a conquista de mercados  nada tem a ver com o assunto.

Se assim for, se Manuel Caldeira Cabral estiver a dizer alguma coisa com sentido e verificação, então aquela mancha azul do gráfico acima, transformada no gráfico em baixo em linha azul, registando as perdas acumuladas de quota de mercado ao longo dos anos, não terá nenhuma relação perceptível com a dos custos laborais. Coisa que a doutrina recusa, no que é, como se vê, eloquentemente confirmada pela experiência.

CTUP

Fonte: BdP, FMI (WEO), cálculos do autor.

Das coisas mais lamentáveis a que temos vindo a assistir neste governo é à forma como os académicos que o integram delapidam o capital de credibilidade que toda a sua vida passada representa e deveria ser emprestado às funções que temporariamente exercem.

Não há dúvida que o poder corrompe muito. Em muitos sentidos.

8 thoughts on “Mentiras de Manuel Caldeira Cabral

  1. CF

    Uma tristeza de academicos que por uma ambição de poder e exposição mediatica, trocam a sua honestidade pela desonestidade intelectual, fazendo-se de parvos para povo ver e ouvir. Uma tristeza, portanto! Tenho esperança que, pelo menos, Mário Centeno reverta este caminho e faça como Luis Campos e Cunha no 1.º governo de Socrates, se demita quando fizer um rebate de consciencia. Vamos ver!!!

  2. jo

    Olhando para o gráfico 1:
    A alteração do saldo da balança corrente está a diminuir acentuadamente. na verdade o crescimento é negativo em 2014 e o previsto para 2015 é minúsculo (e sabemos como a EU doura a pílula nas previsões para justificar políticas). As políticas do anterior governo não levaram a um aumento sustentado das exportações. Na verdade o crescimento das exportações atingiu o pico em 2009.
    Se a justificação para todo o sacrifício era o crescimento das exportações os resultados são pífios, para não dizer nulos.
    Gráfico 2:
    Há uma inflexão em 2014 que é conseguida através de estimativas para 2015.
    A passagem para um ganho de mercado internacional é feita em 2009, em pleno governo de Sócrates. Desde então há um lento declínio que atinge o seu pico em 2014, sendo já negativa. Parece que o governo que entrou em 2011, neste aspeto, não teve políticas muito bem sucedidas.
    Parece que se esquece sistematicamente de 2014 quando faz as suas análises, se calhar não estava cá.
    Gráfico 3
    Não percebo porque colca uma variável acumulada em comparação com outra que é instantânea.

  3. Demitir-se o Centeno? Acho que não. O que essas pessoas devem fazer é defender, publicamente, as opções que consideram correctas, contrariando mesmo as directrizes dos líderes partidários, sempre que essas directrizes, no entender deles, apotem para caminhos errados.

  4. Jorge Costa

    JO: deixei de ler o seu comentário quando se pôs a incensar 2009. Em 2009 a exportações portuguesas caíram 10,2%, ainda mais do que a procura externa, pelo que houve algum ganho de quota de mercado. Residual, mas houve. Os grande ganhos, como os gráficos de resto ilustram foram todos os anos seguintes, menos 2014, com ênfase especial em 2012 e 2013. Suponho que não vivemos no mesmo mundo, eu e o comentador. Se era o ano de 2010 que tinha em mente, o desempenho das exportações portuguesas foi muito bom nesse ano, como foi o da procura externa, e não há aí nenhum mistério: depois do colapso de 2009, regresso mecânico à tendência. Percebo a intenção do seu comentário, mas realmente não tem pés nem cabeça.

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